RELATO DO EXÍLIO OCIDENTAL
HCAE
Apresentação e Contexto
O “Relato do Exílio Ocidental” é a forma propriamente ishraqi, na Pérsia islamizada, da gesta gnóstica — o terceiro ato da “encontro com o Anjo”, cujo texto árabe foi editado e cuja versão e paráfrase persas foram descobertas em 1943 em uma biblioteca de Bursa, na Turquia.
- O texto árabe foi editado anteriormente, acompanhado de amplo comentário que constitui uma pesquisa sobre o tema central dos relatos iniciáticos de Sohravardi: o arquétipo angélico, parceiro celestial, anjo tutelar.
- Nos dois relatos precedentes, a visão do Anjo se produzia logo no início, pois ele devia dispensar a iniciação ao viajante; aqui o percurso iniciático está cumprido — aborda-se ao porto e sobe-se ao Sinai místico.
- O motivo dominador é o do exílio e do exilado, do nostálgico, do estranho “que não é daqui”, que aspira a reencontrar os seus — motivo bem conhecido da gnose valentiniana e da gnose maniqueia.
- A analogia temática e estrutural entre o relato sohravardiano do Exílio ocidental e o “Canto da Pérola” dos “Atos de Tomás” é marcante: a aventura do jovem príncipe parta enviado do “Oriente” ao Egito é exatamente a do herói do relato sohravardiano.
- O fenômeno do mundo é aqui experimentado como a cripta cósmica; o relato mostrará a saída dessa cripta.
- Quanto à figura dos gnósticos que “fogem”: na tradição abraâmica, é o profeta Abraão o corifeu dos exilados — é necessário ter tomado consciência do exílio para resolver expatriar-se do expatriamento e ir em direção à “Terra de Luz” mostrada pelo Anjo.
- A tradição do Imam Jafar al-Sadiq, Sexto Imam dos xiitas, ecoa esse sentimento: “O Islã começou expatriado e voltará a ser expatriado como era no início. Bem-aventurados os expatriados!”
A Relação com Avicena e a Filosofia Oriental
No prelúdio do “Relato do Exílio”, Sohravardi situa com precisão sua relação com Avicena.
- O “Relato de Hayy ibn Yaqzan” de Avicena é citado com elogio, mas Sohravardi assinala o que não encontrou nele — exceto alusivamente ao final — a saber, o que um versículo corânico chama de “o Grande Abalo”, de significação escatológica.
- O relato de Avicena apenas aludia a esse Grande Abalo; o presente relato faz dele um evento vivido.
- O Shaykh al-Ishraq sublinha a distância entre sua própria filosofia “oriental” e a filosofia “oriental” concebida por Avicena: “Oriente” (mashriq, ishraq) e “Ocidente” (maghrib) têm, como em toda a obra de Sohravardi, um sentido metafísico e espiritual.
- A divisão do relato em três momentos é introduzida como guia de leitura: a queda na catividade e a evasão; a navegação na arca de Noé; o Sinai místico.
Primeiro Momento — A Queda na Catividade e a Evasão
A atenção deve recair desde o início sobre o castelo que domina o poço onde o exilado e seu irmão foram lançados.
- O castelo tipifica, ao final do relato, os “Sinais” escalonados uns acima dos outros — que o Tratado IX designará como o “castelo-forte da Alma” (o Malakut na terminologia tradicional).
- Não se trata de uma ascensão física nem simplesmente conceitual: sair “fora” da cripta cósmica só acontece por uma “interiorização” que consiste em entrar no microcosmo e atravessá-lo.
- O microcosmo é a única via de acesso ao mundo sacrossanto ilimitado — pátria original do exilado; essa interiorização não conduz a nenhuma solidão interior nem ao acosmismo, mas desemboca no mundo sacrossanto ilimitado.
- O Yêmen designa aqui o mundo do Anjo — equivalendo pura e simplesmente a “Oriente” em seu sentido metafísico (comparar o conceito de “filosofia iemenita” em Mir Damad); o motivo que introduz seu símbolo é o “lado direito” (jaman) do vale onde Moisés avista a Sarça ardente.
- A Sarça ardente é o símbolo da Imaginação ativa quando dócil à inspiração do Anjo — e é precisamente pela consciência imaginativa que será empreendida a navegação do gnóstico.
Segundo Momento — A Navegação na Arca de Noé
A travessia do microcosmo é descrita “iniciaticamente” como uma navegação na arca de Noé.
- É impossível descrevê-la, e mais ainda realizá-la, com a só dialética dos conceitos — é necessário penetrar no mandala, progredir de imagem visionária em imagem visionária.
- As etapas da navegação fazem progredir a navegação mística de profeta em profeta: o navegador é por turnos Noé, Ló, Moisés, Salomão, Alexandre…
- Essa identificação não é uma alegoria cujo sentido esotérico seria um conceito oculto sob a pessoa do profeta — ela é tautegórica, porque psicodramática no sentido iniciático: o recitador conjuga em seu ato a identificação com o herói e o sentido oculto da gesta que ele repete.
- Como Semnani desdobrando o motivo dos “profetas do teu ser” em uma vasta interiorização hermenêutica, o navegador do “Relato do Exílio” progride também “de profeta em profeta do seu ser”.
- O que se cumpre no curso da navegação mística é uma involução das duas físicas do macrocosmo nas duas espirituais do microcosmo — penetração progressiva no mundus imaginalis, mediador entre o mundo sensível e o mundo sacrossanto dos seres espirituais.
- A navegação na arca de Noé é uma ekstasis em que se afunda o mundo (a prisão) de Kairuã; o “Grande Abalo” — do qual Sohravardi lamentava não ter encontrado senão fraco rastro ao final do relato aviceniano de Hayy ibn Yaqzan — realiza a significação escatológica do versículo 79/34.
- A aproximação da Fonte da Vida e do Sinai místico é assinalada pelo nascimento da “estrela do Iêmen” — o Iêmen que é o “Oriente” no seu sentido ishraqi, o mundo do Anjo, designado alhures como Bayt al-Maqdis, Jerusalém celestial ou o “Templo”.
Terceiro Momento — O Sinai Místico e o Segredo da Filosofia Ishraqi
A navegação conduzida a seu termo, o peregrino chega ao cume do relato iniciático: o Grande Rochedo no cume do Sinai místico, designado como o “oratório do Anjo”.
- Esse Grande Rochedo é aquele que certas tradições xiitas designam como a “Rocha de esmeralda” — chave de abóboda do sistema astronômico doravante superado pelo peregrino, marcando a passagem para o “lado convexo” da Esfera das Esferas, o “oitavo clima”, as cidades místicas de Jabalqa e Jabars.
- O Anjo, que nos dois relatos precedentes havia iniciado o exilado à viagem a empreender para reencontrá-lo, se manifesta agora ao término da viagem iniciática, em sua própria morada.
- O peregrino deverá retornar, para seu desespero, à prisão de Kairuã, pois ainda não transpôs definitivamente o limiar — mas doravante o ethos do exílio estará completamente mudado: o exilado encontrou a via da salvação e poderá voltar momentaneamente ao Sinai místico cada vez que o quiser.
- A correspondência com o célebre relato xiita da “Viagem à Ilha Verde” faz igualmente deste um relato de iniciação.
- O Anjo revela ao peregrino o segredo da filosofia e da espiritualidade ishraqi: entre as Luzes arcangélicas que são os senhores ou Anjos das espécies, há um que está conosco na relação de um parente celestial ou de um “pai” — e esse próprio Anjo tem também um “pai”, que é a Inteligência arcangélica que o precede, estando ele para este na mesma relação em que o peregrino está para ele.
- É isso que significam os Sinais escalonados uns acima dos outros — no Tratado IX, serão os castelos escalonados no “Burg” da Alma.
- Cada Inteligência arcangélica é em relação à que a segue um Nous patrikos, segundo a expressão neoplatônica — relação que, no sentido da hierarquia descendente, desemboca na filiação entre o Anjo da humanidade e as almas que procedem de sua “asa de luz”.
- Essa relação paterna do Nous patrikos com o “filho” que vem a seu encalço é a mesma que Sohravardi explicitava ao comentar os versículos do Evangelho de João.
- A concepção coincide com a concepção ismaelita exposta no diálogo entre Amalaq o Grego e seu mestre Qosta ibn Luqa — concepção monadológica do tawhid: cada Nous patrikos, cada Deus tem também o seu Deus, e a hierarquia ascendente culmina no “Deus dos Deuses”; o “Livro de Horas” recapitulará essa visão invocando esse Deus dos Deuses, bem como o “Deus de cada Deus”.
- O pós-escrito consagra o triunfo da hikayat: ao leitor cabe ler o “Relato do Exílio” como Sohravardi queria que se lesse o Corão — “como se tivesse sido revelado apenas para o teu caso” — e as significações desse relato se revelam inesgotáveis.
