PRESCIÊNCIA
MPI. Louis Massignon, Kitab al-Tawasîn, p. 194 e segs.
« A presciência deixa de lado a essência. » Al-Hallaj, convicto do relativismo das ciências, exprimiu claramente a superioridade da sabedoria (marifah = gnose) sobre a ciência discursiva (ilm). A antinomia « ilm-marifah » era então considerada de modo diverso por outros sufis. Pois, em razão do caráter « escriturário » e « textual » do Islã, o termo « ciência » abrange ao mesmo tempo o conjunto dos conhecimentos objetivos racionais e as prescrições da Lei, a forma escrita do Corão, que constitui a essência da religião segundo o sunnismo puro. Assim, os mais prudentes dos sufis, ao contrário de Al-Hallaj, proclamavam com Al-Junayd (+ 910) a superioridade do « ilm » sobre a « marifah ». A solução de Al-Hallaj era consequência de sua posição na controvérsia acerca do « aql », a razão. Al-Kalabadhi apresenta como interpretação da opinião comum de seus mestres sobre a razão a seguinte sentença de Ibn ‘Ata: « A razão é o instrumento de nosso servilismo (enquanto criatura) — ela não ilumina o divino. » Assim, que ocorre quando a razão empreende penetrar a essência divina, para o que não foi feita? Sahl al-Tustari (+ 896), primeiro mestre de Al-Hallaj, já o explicava: « A razão, essa boa saúde (do espírito) que é capaz de torná-lo doente! (Como isso?) Sim, porque, quando a razão (percebe que) não pode transformar-se em essência divina, torna-se hostil e odeia a Deus… » E Al-Hallaj:
« Aquele que, para buscar Deus, toma a Razão como guia — é abandonado por ela numa perplexidade na qual lhe é preciso agitar-se. Sua consciência íntima se perturba na ambiguidade — e acaba por perguntar, deslumbrado: “É Ele?” »
Somente dois séculos mais tarde o ecletismo dos sufis monistas combinará a concepção grega da primazia da Razão, aql, com os dados experimentais sufis acerca do Espírito (ruh).
Em outro lugar, Al-Hallaj recorre a um método singular de eliminação para purificar a ideia de marifah de toda noção de ciência (ilm): todas as ciências se reduzem à ciência do Corão, que se reduz à ciência das letras isoladas — que se reduz à ciência do lam-alif (o Não!, negação absoluta) — que se reduz à ciência do Ponto primordial (al noqtah al asliyah), que se reduz à sabedoria, marifah, ciência da « mashiyah », que reside no abismo do « Ele » divino.
Essa teoria da noqtah asliyah é notável, pois coincide com a « nekhuda rishuna », ponto primordial da Qabalah judaica, e com o « kha » dos filósofos sânscritos estudados por Al-Biruni.
