CONHECIMENTO DE DEUS
MPI
O conhecimento de Deus é de duas espécies: cognitivo (ilmî) e afetivo (halî). A gnose cognitiva constitui o suporte de todas as bênçãos neste mundo e no outro, pois a coisa mais importante para o homem, em todo tempo e em toda circunstância, é o conhecimento de Deus, já que Deus disse: « Criei os gênios e os homens unicamente para que Me sirvam » (Corão I, 56), isto é, para que Me conheçam. Contudo, a maioria dos homens negligencia esse dever, exceto aqueles que Deus escolheu e cujos corações Ele vivificou por Si mesmo. A gnose é a vida do coração por Deus e consiste em desviar os pensamentos mais íntimos de tudo o que não é Deus. O valor de cada um é proporcional à gnose, e aquele que não possui gnose não possui valor algum. Os teólogos, os juristas e outras categorias de homens chamam gnose (marifat) ao conhecimento correto (ilm) de Deus, mas os shaykhs sufis chamam por esse nome o estado justo (hal) em relação a Deus. Por isso afirmaram que a gnose (marifat) é superior ao conhecimento (ilm), pois o estado justo (hal) é o resultado do conhecimento correto, mas o conhecimento correto não é idêntico ao estado justo; isto é, aquele que não possui conhecimento de Deus não é um gnóstico (‘arif), mas pode haver conhecimento de Deus sem que se seja um gnóstico. Aqueles que ignoram essa distinção entregaram-se a uma controvérsia inútil…
Convém saber que há grande divergência de opiniões acerca da gnose e do conhecimento correto de Deus. Os mu‘tazilitas afirmam que a gnose é intelectual e que somente uma pessoa dotada de razão (‘aqil) pode possuí-la. Porém, se a razão fosse a causa da gnose, seguir-se-ia que toda pessoa racional deveria conhecer Deus, e que todos os desprovidos de razão deveriam ignorá-Lo, o que é manifestamente absurdo. Outros sustentam que a demonstração (istidlal) é a causa do conhecimento de Deus, e que tal conhecimento é obtido apenas por aqueles que o deduzem dessa maneira. Contudo, Deus declarou que o conhecimento d’Ele depende de Sua vontade (Corão VI, III). Segundo a opinião dos muçulmanos ortodoxos, uma razão sã e a consideração das provas são um meio (sabab) para alcançar a gnose, mas não são sua causa (illat): a única causa é a vontade e o favor de Deus, pois sem Seu favor (inayat) a razão é cega. ‘Ali foi interrogado acerca da gnose e disse: « Conheço Deus por Deus, e conheço o que não é Deus pela luz de Deus ». Abu’l-Hassan Nuri afirmou: « Ninguém pode indicar o caminho para Deus senão o próprio Deus ». Os objetos ordinários da investigação são descobertos por meio da demonstração, mas o conhecimento de Deus é extraordinário; por isso, não é obtido senão por um assombro incessante da razão, e o favor divino não é adquirido por nenhum ato humano, mas é revelado miraculosamente ao coração dos homens. Deduzir a existência de Deus por provas intelectuais é assimilação (tashbih), e negá-la pelos mesmos meios é anulação (tatil). A razão não pode ultrapassar esses dois princípios, que, em relação à gnose, equivalem ao agnosticismo, pois nenhuma dessas posições atesta a Unidade divina (muwahhid).
Outros ainda declaram que a gnose é resultado da inspiração (ilham). Também isso é impossível, porque a gnose fornece um critério para distinguir a verdade do erro, enquanto os inspirados não possuem tal critério.
Outros afirmam que o conhecimento de Deus é intuitivo (daruri). Isso também é impossível, pois tudo o que é conhecido desse modo deve ser conhecido por todos os homens racionais; como se observa que homens racionais negam a existência de Deus e professam as doutrinas de assimilação (tashbih) e de anulação (tatil), prova-se que o conhecimento de Deus não é intuitivo. Ademais, se assim fosse, o princípio da obrigação religiosa (taklif) seria destruído, pois tal princípio não se aplica aos objetos de conhecimento intuitivo, como o próprio ser, o céu e a terra, o dia e a noite, o prazer e a dor, cuja existência nenhum homem racional pode duvidar e que deve conhecer mesmo contra sua vontade. Alguns aspirantes ao sufismo, considerando a certeza absoluta (yaqin) que experimentam, dizem: « Conhecemos Deus intuitivamente », atribuindo o nome de intuição a essa certeza. Em substância, têm razão, mas sua forma de expressão é incorreta, pois o conhecimento intuitivo não pode ser reservado apenas aos perfeitos; ao contrário, pertence a todos os homens racionais. Além disso, ele aparece na mente das criaturas viventes sem meio ou prova, enquanto o conhecimento de Deus é mediado (sababi).
Deve-se saber que o conhecimento do homem e sua gnose de Deus dependem inteiramente do ensinamento e da direção provenientes da Verdade última. A certeza que o homem possui acerca da gnose pode ser ora mais forte, ora mais fraca, mas o princípio da gnose não aumenta nem diminui. O Deus Altíssimo, como quer e por qualquer meio que deseje, mostra ao Seu servo o caminho que conduz a Ele e abre-lhe a porta da gnose, de modo que este atinge um nível em que a própria essência da gnose lhe aparece como algo outro (ghayr), seus atributos tornam-se prejudiciais, sua gnose lhe vela o objeto conhecido, e ele percebe que sua gnose é uma pretensão (dawa). Dhu’l-Nun, o Egípcio, disse: « Guarda-te de pretender à gnose », e foi dito em versos:
« Os gnósticos pretendem possuir o conhecimento, Mas confesso a ignorância: nisso consiste meu conhecimento. »
(Kashf ul-Mahjdub, p. 267 e segs.)
