SABEDORIA DA PROFECIA NO VERBO DE JESUS
Fusus, RABW
As Modalidades e Manifestações do Espírito (ruh)
A maior parte deste capítulo está preocupada com as várias modalidades e manifestações do Espírito (ruh) e a maneira como ele é impartido à matéria e à forma, particularmente com o papel do Espírito na criação de Jesus e também seus poderes de revival.
- Em discussão sobre a natureza e atividade do Espírito, está-se preocupado com aspectos particulares daquele ato espontâneo de expiração criativa, sendo as duas palavras mais importantes ruh (espírito) e nafakha (soprar).
- Em relação ao Sopro primordial (nafas), o Espírito é seu conteúdo, enquanto “soprar” descreve um modo de sua operação.
- O Espírito, cujo significado raiz em árabe está intimamente relacionado ao significado da raiz nafasa, denota claramente a realidade viva de Deus, Sua consciência viva, que como polo ativo infla, insemina, irradia e informa a passividade escura da substância primal, da Natureza original.
- Os conceitos de sopro-assopro, semente-impregnação, luz-radiação e palavra-enunciação estão muito próximos na mente de Ibn Arabi, como o estão na tradição espiritual da maioria das tradições religiosas.
- A palavra para Profecia em árabe (nubuwwah) vem da raiz naba’a, que significa “informar”, sendo um profeta (nabi) um receptáculo particular e especial para a Palavra divina, assim como, em um sentido mais universal, todo o Cosmos (‘alam) é “informado” (criado) pelo Espírito divino, constituindo suas múltiplas formas pistas (a’lam) a partir das quais os “inteligentes” podem aprender (‘ilm) a verdade.
O Espírito e a Natureza como Relação Parental Macrocósmica
O conceito de Espírito é complicado pelo fato de sua manifestação diferir de acordo com o nível existencial em que está sendo considerado.
- Em sua fonte, o Espírito é pensado como luz pura; no nível físico, manifesta-se como o fogo e o calor da vida cósmica, representando o pulso da realidade-vida, a expressão do Ser, em cada nível da criação-automanifestação divina.
- Na fonte, é consciência-Identidade pura; à medida que se estende cada vez mais, é experimentado como Palavra comandante e semente impregnante.
- A relação entre o Espírito e a Natureza é uma relação parental em escala macrocósmica na qual o Espírito é o Pai e a Natureza a Mãe: o primeiro é visto como ativo, luminoso e comandante, a segunda é pensada como passiva, escura e receptiva, aquela matriz primordial que está sempre pronta para receber a impressão determinante do Espírito.
- Às vezes, essa relação é expressa em termos do Intelecto Universal e da Alma Universal ou, em termos mais corânicos, da Pena e da Tábua.
- A diferença entre Natureza e Alma, por um lado, e entre Espírito e Intelecto, por outro, é que o primeiro termo em ambos os casos é ontológico, enquanto o segundo termo é experiencial: Natureza é a realidade da receptividade passiva, Alma denota a experiência dessa realidade; Espírito denota a realidade da verdade ativa, Intelecto é a consciência de ser essa realidade.
- Dentro do contexto da criação e automanifestação, tem-se mais uma expressão da polaridade sujeito-objeto e sua dependência mútua.
O Caso Especial de Jesus
No contexto humano ou microcósmico, ilustra-se um caso particular e especial dessa relação no caso de Jesus, que é produto tanto de Maria (que personifica a “água” da Natureza) quanto de Gabriel (que representa por seu sopro a palavra-semente do Espírito).
- A criação de Jesus é um caso especial porque, diferentemente da maioria dos homens, o Espírito impregnou Maria não através dos lombos de um homem mortal, mas diretamente pelo instrumento angélico, como no caso da revelação ao próprio Jesus como profeta de Deus.
- Sua Profecia, ou “ser informado” pela Palavra divina, não foi apenas verbal, mas também vital, pois o “soprar” espiritual do qual ele foi um canal transmite o Comando divino em todos os seus modos.
- Em virtude do meio direto de sua geração, Jesus foi capaz de comunicar o Espírito divino não apenas verbalmente, mas também vitalmente, uma vez que o Espírito vivifica em todos os níveis.
- Jesus foi, de uma maneira especial, o que todo homem é potencialmente: um espírito consagrado dentro da forma natural, que não é outro senão o Espírito consagrado dentro de Sua Natureza.
O Paradoxo de “Ele” e “Outro que não Ele”
Em todo o capítulo, está-se preocupado em explicar o paradoxo de “Ele” e “outro que não Ele”, para tentar tornar claro em que sentido Jesus, ou qualquer outra coisa, é ele mesmo em vez de Si Mesmo, ou em que medida é o próprio Jesus ou o próprio Deus quem fala e revive.
- Esta é a questão do tema subjacente e constantemente recorrente da Unidade do Ser, cuja essência o autor se vê incapaz de explicar satisfatoriamente por causa da polarização inerente da linguagem.
