ESTRUTURA DAS REVELAÇÕES DE MECA
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A estrutura arquitetônica e o plano detalhado dos 560 capítulos das Revelações de Meca — tal como constam na elaborada Tabela de Conteúdos (fihris) que precede a Introdução de Ibn Arabi — remontam à inspiração inicial da obra durante o primeiro hajj do autor em 1202/598.
- A Tabela de Conteúdos ocupa sessenta e duas páginas na nova edição crítica.
- Cada uma das seis seções principais possui normalmente seu próprio tipo distintivo de escrita e subestruturas organizadoras, com capítulos de extensão radicalmente variável — alguns têm poucas páginas, enquanto outros exigiriam vários volumes para ser traduzidos ao inglês.
- Um simples olhar sobre os nomes das seções evidencia o quanto as formas, etapas e o processo mais amplo de “realização/verificação” espiritual (tahqiq) são centrais ao conteúdo e às intenções da obra.
- Os 560 capítulos são precedidos não apenas pela Introdução e pela Tabela de Conteúdos, mas também por dois trechos mais breves, poéticos e altamente simbólicos: o “Discurso de Abertura” (khutbat al-kitab) de Ibn Arabi — traduzido e estudado em vários lugares — e a “Carta” (risala) introdutória ao seu velho amigo sufista tunisino al-Mahdawi e a outros companheiros sufistas da Tunísia, com quem passou vários meses fecundos a caminho de Meca.
I. Seção sobre os campos do conhecimento [inspirado] (fasl al-ma'arif): Capítulos 1–73
Esta seção de abertura contém capítulos de extensões muito diversas que introduzem, frequentemente de forma abreviada e inicialmente misteriosa, todos os temas principais encontrados ao longo do restante da obra.
- Os primeiros treze capítulos desenvolvem, em variedade de linguagens simbólicas — especialmente através dos significados simbólicos e das correspondências escriturais das letras do alfabeto árabe — o “mapa” cosmológico da criação e seu reflexo na realidade noética do “Ser Humano Completo” (al-insan al-kamil).
- Ibn Arabi passa então a uma longa série de discussões fascinantes e eminentemente legíveis sobre os diferentes tipos espirituais de perfeição e realização e os vários “Amigos de Deus” que os exemplificam, intercaladas com elaborações epistemológicas e cosmológicas adicionais.
- Os capítulos 59–65 introduzem os símbolos escriturais da escatologia como mapa simbólico detalhado do processo de realização espiritual.
- Os capítulos 66–72 — uma das seções mais fascinantes e potencialmente valiosas de todo o Al-Futuhat — oferecem o que é quase certamente a fenomenologia mais detalhada e rigorosa da experiência espiritual na tradição islâmica, apresentada em termos de uma reconciliação irênica de interpretações legais contrastantes das práticas rituais básicas do Islã (purificação, oração, jejum etc.).
- O extenso capítulo 73 inclui tanto uma elaborada discussão sobre os tipos de “santos” (awliya') espiritualmente realizados quanto as célebres respostas de Ibn Arabi ao maravilhoso “questionário espiritual” de Hakim Tirmidhi — inventário de expressões simbólicas que só podem ser compreendidas por inspiração puramente espiritual.
II. Seção sobre os modos (adequados) de ação (fasl al-mu'amalat): Capítulos 74–189
Embora o título desta seção evoque inicialmente a segunda parte habitual dos livros islâmicos de hadith e fiqh — dedicada às dimensões éticas da vida social —, Ibn Arabi volta sua atenção aqui para as “interações” entre cada alma e sua Fonte, enquadradas em termos das “estações” espirituais (maqam) que constituem as etapas essenciais do caminho espiritual de realização.
- Muitos dos 116 capítulos desta seção aparecem em pares de capítulos curtos que descrevem brevemente cada estação e uma etapa ulterior de “avanço” que supera a distinção dualista inicial entre “servo” e “Senhor”.
- Toda a seção pode ser vista como centrada no ideal espiritual mais característico de Ibn Arabi — a 'ubudiyya: a necessidade de tornar-se um “servo puro” cuja vontade se identificou inteiramente com a de Deus, numa vida ativa de serviço divino espontâneo e puramente voluntário.
- Cada virtude espiritual introduzida brevemente aqui é tratada de maneiras progressivamente mais elaboradas e sutis ao longo do restante das Futuhat.
- Nesta antologia: capítulos 130–131 e 140–141 (“Rumo à Santidade”, Chittick); nas seções francesas da edição Sindbad: capítulos 88 (IV, C. Chodkiewicz) e 161 (VI, Gril).
III. Seção sobre os estados espirituais (fasl al-ahwal): Capítulos 190–269
Os oitenta capítulos desta seção retomam as distinções sufistas clássicas desses estados espirituais passageiros, mas tipicamente com uma abordagem bastante característica de Ibn Arabi.
- À semelhança de grande parte das Futuhat e de seus outros escritos, o que Ibn Arabi tenta fazer aqui pode parecer uma espécie de “comentário ontológico” sobre a vasta literatura anterior e as tradições práticas de comentário espiritual sufista, que ele geralmente pressupõe bem familiares a seus leitores.
- Cada expressão ou categoria “fenomenológica” anterior — frequentemente poética, vaga e até potencialmente perigosa em sua formulação original — é apresentada e analisada em seus contextos mais amplos (ontológicos e epistemológicos), destacando seu papel particular e, simultaneamente, seus limites e perigos no processo maior de realização espiritual.
IV. Seção sobre os “pontos de descida” espirituais (fasl al-manazil): Capítulos 270–383
Muitas das passagens mais célebres e duradouramente influentes das Futuhat — incluindo os capítulos 366, 377 e outros parcialmente traduzidos aqui — encontram-se nesta seção.
- O termo sufista familiar para a “estação de parada” (manzil: tomado da poesia árabe pré-islâmica) adquire aqui um significado muito específico e singularmente “Akbariano”: “O lugar em que Deus desce até você, ou onde você desce sobre Ele” (II 577).
- Os 114 capítulos densos e frequentemente extensos desta seção correspondem, em ordem inversa, aos sentidos interiores de cada Sura do Alcorão; cada manzil está explicitamente — ainda que misteriosamente — relacionado a uma ou mais das “Realidades” espirituais de Maomé, Jesus e Moisés.
- Cada capítulo se encerra com um longo e altamente enigmático catálogo dos vários dons e discernimentos espirituais “concedidos” em conexão com esse encontro divino, frequentemente ligados a detalhes específicos da Sura correspondente.
- Sem exagero, uma explicação e tradução adequadas de muitos desses capítulos individuais exigiriam um livro inteiro.
- Nesta antologia: capítulos 302, 351, 369 (“Ressurreição Menor e Maior”, Morris); 366 (“No Fim dos Tempos”, Morris); 367 (“A Ascensão Espiritual de Ibn Arabi”, Morris); 311 e 372 (“Rumo à Santidade”, Chittick); nas seções francesas da edição Sindbad: capítulos 318 e 344 (IV, C. Chodkiewicz).
V. Seção sobre os “pontos de encontro mútuo” (de Senhor e servo) (fasl al-munazalat): Capítulos 384–461
Os setenta e oito capítulos desta seção são verdadeiras “Iluminações” — séries complexas de reflexões e lampejos de discernimento (o termo “comentário” é por demais pedestres) inicialmente conectadas a uma única passagem-chave ou frase simbólica do Alcorão ou de outros ditos divinos.
- Nas seções francesas da edição Sindbad: capítulos 420 (VI, Gril); 437 (IV, C. Chodkiewicz).
VI. Seção sobre as estações espirituais (fasl al-maqamat): Capítulos 462–560
Excetuados os três capítulos finais das Revelações de Meca, a maior parte dos noventa e nove capítulos desta vasta seção — ela própria um quarto de todo o Al-Futuhat — é dedicada à identificação pessoal de Ibn Arabi de uma longa série de “Polos” espirituais e à profunda realização interior de um determinado “lema” espiritual (hijjir: frequentemente versos alcorânicos familiares, Nomes divinos ou outras fórmulas tradicionais de dhikr e invocação) que se torna plenamente “iluminado” para aqueles que participam dessa estação espiritual.
- Os três capítulos finais desta seção são longas “recapitulações,” em diferentes domínios, do conteúdo do livro como um todo.
- O capítulo 558 (parcialmente traduzido nesta antologia) é uma imensa discussão sobre as influências e realidades subjacentes de cada um dos noventa e nove Nomes divinos.
- O capítulo 559 é dedicado a uma síntese enigmática dos “segredos” divinos ocultos em cada um dos capítulos precedentes.
- O vasto capítulo conclusivo de “conselhos espirituais” — frequentemente copiado e reeditado como volume separado — reúne uma série de seleções de orientações éticas e espirituais práticas, extraídas de fontes escriturais, profetas anteriores, Companheiros e santos, e outros escritores éticos não especificamente religiosos.
- Sua força e importância duradoura derivam do modo como todas as “iluminações” precedentes transformaram radicalmente, para os leitores que fielmente acompanharam Ibn Arabi até esse ponto, sua consciência interior e sua apreciação do complexo real e inimaginável de significados, intenções e realizações espirituais encapsuladas e brevemente expressas em cada um desses conselhos espirituais particulares.
- No contexto mais amplo dos esquemas clássicos das “jornadas” espirituais, o capítulo conclusivo é também um eloqüente lembrete da insistência característica de Ibn Arabi de que a jornada final e sem fim, para a alma plenamente realizada, é sempre o “Retorno”: “de e com Deus, às criaturas.”
Sugestões para Leitura Complementar
A relativa profusão de traduções, biografias e estudos de Ibn Arabi e seus escritos nos últimos anos criou um dilema afortunado para os leitores que se iniciam em sua obra e desejam explorar as perspectivas abertas por esta antologia.
- As sugestões a seguir limitam-se a livros em inglês destinados a leitores sem formação prévia em Ibn Arabi ou nas tradições espirituais e filosóficas islâmicas — em parte porque muitos dos estudos recentes mais importantes em francês foram bem traduzidos ao inglês.
- Os leitores fluentes em espanhol encontrarão atualmente um número de traduções recentes importantes de Pablo Beneito, Victor Palleja e outros — sinal promissor do crescente interesse por esse filho ilustre que, como seu quase-contemporâneo Moisés de Leon, deve ser contado entre os colaboradores perenes da civilização mundial e da compreensão religiosa.
- Para a vida de Ibn Arabi, seu contexto histórico imediato e uma síntese básica de seus ensinamentos centrais, recomenda-se The Unlimited Mercifier: The Spiritual Life and Thought of Ibn Arabi, de S. Hirtenstein (Oxford, Anqa/White Cloud Press, 1999) — o primeiro volume explicitamente concebido para apresentar esses pontos a um público anglófono geral e não acadêmico.
