TAWHID 2
IBN-AL-ʿARABĪ. Le Coran et la fonction d’Hermès. Les trente-six attestations coraniques de l’unité. Tradução: Charles-André Gilis. Paris: Editions de l’Oeuvre, 1984.
O Segundo Tawhid
O segundo Tawhid provém do Sopro do Todo-Misericordioso e tem por fundamento o versículo 255 da Sura al-Baqara: “Allah / Não há Deus senão Ele / O Vivente, o Imutável”.
Comentário Akbariano
O segundo Tawhid é o da Divindade e do “começo”, pois Allah ocupa no versículo o lugar do sujeito gramatical de uma frase nominal.
- A Divindade é qualificada, nesse versículo, pelo fato de escapar ao poder do adormecimento e do sono, ainda que as formas pelas quais ela se manifesta sejam daquelas de que o sono e o adormecimento se apoderam — assim como o homem que, em estado de sono, vê seu Senhor sob a forma de um ser humano: essa forma implica ela mesma o sono
- A Alma divina é declarada transcendente e única nessa Forma: mesmo que Ela apareça por meio dessa última, em todos os casos ela não faz parte das formas de que o sono e o adormecimento se apoderam — essa é a qualificação mais especialmente atribuída à Divindade no versículo
- Os Atributos “o Vivente, o Imutável” precedem a menção do sono e do adormecimento porque estes só se apoderam de um vivente “ereto” — ou seja, “desperto”; o mesmo se aplica à morte, que só se apresenta a um vivente, razão pela qual se diz a propósito de Deus (al-Haqq) que Ele é “o Vivente que não morre” (Cor. 25, 58)
- Quanto ao adormecimento, é o início do sono, assim como a brisa é o início do vento — o sono é ele mesmo um vapor do ar, cuja brisa é o início, do mesmo modo que o adormecimento é o início do sono; este não pode sobrevir senão naquele que é qualificado pelo estado de vigília
- Este Tawhid é portanto o da transcendência a respeito de um ser cuja constituição compreende precisamente o que não atinge esse Deus Vivente e Imutável
Remarques Complementares
Este Tahlil figura à frente do “versículo do Escabeau” que é, segundo os hadiths, “o Senhor dos versículos corânicos”; o Cheikh al-Akbar limita seu comentário ao início do versículo, à parte que se segue imediatamente à fórmula do Tawhid e a ela se reporta da maneira mais direta — comportando de um lado o par de Nomes divinos al-Hayy al-Qayyum (o Vivente, o Imutável) e de outro a menção “nem o adormecimento nem o sono O apoderam”.
- Assim como ar-Rahman ar-Rahim ou al-Wahid al-Ahad, os Nomes al-Hayy al-Qayyum, que aparecem juntos em vários versículos (Cor. 3, 1-2 e 20, 111), são às vezes envisagados como constituindo na realidade um único Nome divino — não por referência à sua forma, mas ao seu sentido
- O Nome al-Hayy é considerado o primeiro e o mais excelente desses Nomes, aquele que tem primazia sobre o conjunto dos outros, e que o emir Abd al-Qadir chama por essa razão “o imã dos imãs”; segundo ele, esse Nome condiciona todos os outros pelo fato de exprimir a Realidade fundamental (wujud) sem a qual nenhum ato nem nenhuma percepção do Ser divino seriam concebíveis
- É essa Realidade que é designada como tal pelo Nome al-Hayy, enquanto o Nome al-Qayyum exprime antes o aspecto pelo qual ela aparece como o fundamento das determinações particulares representadas pelos outros Nomes; é por isso que al-Qayyum é considerado também como uma designação de “Aquele que subsiste por Si mesmo e por quem os outros subsistem” — sua tradução por “o Imutável” foi retida unicamente em função do sentido desenvolvido pelo Cheikh al-Akbar em seu comentário
- Al-Hayy al-Qayyum é um Nome que se refere em realidade ao Espírito da manifestação universal; a ideia de “vida” à qual remete permite considerá-lo ainda como uma denominação característica do princípio designado na Tradição hindu pelo termo Hiranyagharba — recordado no comentário introdutório como envisagado no hinduísmo ora como o princípio da manifestação sutil, ora em sua identificação com Brahma, ou “Brahma qualificado”; é a essa última acepção que corresponde, no Islã, o Nome al-Hayy, quando é designado como sendo ele mesmo “o imã” de todos os outros Nomes
O Cheikh al-Akbar insiste, no presente comentário, sobre o outro aspecto do “Embrião de Ouro” — envisagando a Divindade em sua relação com o “mundo das formas” e, de modo mais particular, com as formas sujeitas “ao adormecimento e ao sono”.
- Trata-se de uma modalidade estritamente individual correspondente, na constituição do ser humano, ao aspecto psíquico e sutil; o sono é, em realidade, um reflexo dos estados inferiores de existência no mundo do homem
- É por isso que os habitantes do Paraíso não o conhecerão mais quando lá estiverem; em contrapartida, permanecerá uma característica da estada infernal, onde sua função aparecerá aliás como “misericordiosa”
- O presente Tawhid concerne portanto antes de tudo ao domínio da manifestação sutil; ele proclama a transcendência da “Alma divina” — ou seja, da Teofania ligada mais especialmente a esse domínio; numa perspectiva iniciática, sua função aparece como equivalente à que cabe, em outras tradições, à “Doutrina do Despertar” — este é mais um exemplo da ação purificadora inerente à fórmula mesma do Tahlil
A alusão feita no comentário àquele que “em estado de sono vê seu Senhor sob a forma de um ser humano” pode aplicar-se de maneira direta ao Profeta — que Allah derrame sobre ele Sua Graça unitiva e Sua Paz! — que é, por excelência, a forma visível de Allah.
- Segundo os hadiths: “Quem me viu no sonho me viu em verdade, pois o Shaytân não pode tornar-se semelhante a mim”; e ainda: “Quem me viu viu a Verdade (al-Haqq)”
- O Profeta — sobre ele a Graça e a Paz divinas! — aparece assim como o suporte privilegiado do par de Nomes divinos al-Hayy al-Qayyum, o que o identifica ao próprio Coração do Mundo
- É por isso que disse ainda, como puderam dizer igualmente todos aqueles que, desde a origem, receberam sua herança: “Meus olhos dormem, mas meu coração não dorme” — que seja sobre ele a Bênção divina!
