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CAABA

GILIS, Charles-André. La doctrine initiatique du pèlerinage. Paris: Editions de l’Oeuvre, 1994.

A Caaba Primordial

Os dados tradicionais concernentes à história sagrada da Caaba referem-se, de maneira nítida e mesmo exclusiva, a três períodos bem distintos: o de Adão, o de Abraão e Ismael e o de Muhammad — sobre ele a Graça unitiva e a Paz divinas!

  • Esses profetas intervêm ao mesmo tempo na fundação, na história e na recondução do conjunto dos ritos da peregrinação, acompanhando assim o ciclo propriamente humano em sua totalidade.
  • Esse ciclo é também o da constituição corporal do homem, cuja duração simbólica é, segundo Ibn Arabî, de 7.000 anos, correspondendo à predominância dos elementos mais grosseiros — a Terra e a Água — em contraste com o período anterior, dominado pelos seres de luz como os Anjos, ou pelos seres de Ar e de Fogo, como os djinns.
  • O célebre hadîth “Eu era Profeta (nabiyyan) quando Adão ainda estava entre a água e a argila” mostra que a função profética maometana ultrapassa os limites desse ciclo humano, confirmado pelo fato de o Profeta, tornado filho de Adão quanto à sua constituição corporal, ter dirigido também aos djinns uma parte da pregação corânica.
  • A duração tradicional em questão é ainda a do califato terrestre, ou seja, da Lugartenência divina sobre a Terra, conferida a Adão, sobre a qual o Corão relata: “Vou estabelecer um califa (khalîfatan) sobre a Terra.” (Cor., 2, 30).
  • O termo árabe khalîfa comporta em realidade vários sentidos: de um lado o de “vigário” ou “representante”, que aparece em definitivo como um equivalente islâmico do Rei do Mundo; de outro, o de “sucessor”, que se aplica igualmente ao tema.

Os eventos tradicionais que acompanham a fundação, na Caaba, de um culto especificamente humano estão ligados à transferência do califato — detido durante o período precedente pelos seres de natureza ígnea, “luminosa” para os Anjos e “calorífera” para os djinns — em benefício de Adão.

  • Segundo Ibn Arabî, após sua queda, Adão “retornou ao elemento original do qual havia sido criado, que é a terra”. Mas foi justamente esse aspecto grosseiro de sua constituição corporal que havia provocado, de início, a reticência dos Anjos.
  • Os Anjos responderam ao anúncio de Allâh dizendo: “Vais colocar lá alguém que vai semear a corrupção e derramar sangue?” (Cor., 2, 30). Essa resposta desencadeou a injunção divina aos Anjos de se prosternar diante de Adão e a revolta subsequente de Iblîs: “Sou melhor do que ele. Tu me criaste de fogo e Tu o criaste de lama úmida.” (Cor., 7, 12).
  • Iblîs provocou finalmente a queda de Adão e seu exílio fora do Paraíso. Contudo, como ainda diz Ibn Arabî: “Foi uma descida manifestando sua soberania (de Adão) e sua lugartenência, não sua rejeição; um rebaixamento quanto ao lugar ocupado, não quanto ao grau atingido.”
  • A “queda” de Adão, encarada nessa perspectiva, refere-se a um aspecto da realização do Homem Universal ligado a um desejo legítimo de conhecimento distintivo — o do “Bem e do Mal” — com vistas a uma integração iniciática de todos os modos possíveis do Conhecimento.
  • Há ainda um aspecto correlativo de “amplitude” que se identifica à substância mesma do ciclo corporal humano, cujo fundamento Adão é, e que exige a instauração de novas e adequadas modalidades da adoração divina — e por conseguinte a fundação de ritos.
  • Tha'labî escreve a esse respeito: “Quando Adão foi lançado sobre a Terra e a viu ampla e deserta, disse: 'Ó Senhor, esta terra não tem, além de mim, nenhum habitante para celebrar Tua transcendência por Teu próprio louvor e para Te santificar?'” Allâh o Altíssimo disse então: “Em verdade, colocarei aqui seres de tua descendência que celebrarão Minha Transcendência por Meu próprio Louvor e que Me santificarão. Estabelecerei moradas que serão erguidas para Mim. Minhas criaturas celebrarão lá Minha transcendência e invocarão Meu Nome. Dentre essas moradas, há uma Casa que terá o privilégio de Minha graça. Darei-lhe Meu Nome em herança. Farei proclamar Minha imensidade, estabelecerei sobre ela Minha Majestade. Torná-la-ei inviolável e segura. Sua inviolabilidade se estenderá ao que a envolve, ao que está abaixo e acima dela… Tu a visitarás, ó Adão, enquanto estiveres vivo; depois, ela será visitada pelos povos, os séculos e os profetas de tua descendência, comunidade após comunidade e século após século.”
  • A fundação da peregrinação em Meca situa-se portanto no ponto de origem mesmo do novo ciclo tradicional, e sua primazia tanto “cronológica” quanto hierárquica estabelece-se sobre o conjunto dos outros ritos fundamentais constitutivos da forma islâmica.
  • O culto rendido à Casa de Allâh tem por função religar diretamente o ciclo atual àqueles que o precederam, ponto estabelecido de maneira tão notável por Michel Vâlsan em seu estudo sobre o Triângulo do Andrógino que é impossível fazer melhor que remeter a ele.

Michel Vâlsan escreve: “Nas origens, antes da descida de Adão, o santuário da Caaba havia sido, em uma primeira forma, um centro de peregrinação para os Anjos…”

  • Adão, no Paraíso, já está revestido de uma forma terrestre. Simultaneamente, o centro do estado corporal “grosseiro”, em situação inferior em relação a ele, é ocupado pelos seres celestes como os Anjos e pela Caaba primordial.
  • A “terra” do Paraíso onde Adão reside não é a nossa, não sendo tampouco a do Julgamento final nem aquela onde residirão os eleitos e os condenados na vida futura — trata-se antes da “Terra celeste” ou “Terra dos Viventes”, que Guénon assimila ao “Teto do Mundo” e que é também a “Terra da Verdade essencial” (Ard al-Haqîqa), criada “do resto da lama com que foi feito Adão”.
  • O centro de nossa terra inferior e grosseira, que todavia reflete a pureza da terra celeste, é ocupado pela Caaba — e ela não apenas representa o assento da Potência divina, mas é também, em si mesma, de natureza paradisíaca.
  • Um hadîth reportado por Ibn Abbâs precisa que a primeira coisa da terra que Allâh fez conhecer a Adão, antes mesmo de fazê-lo descer, foi a Caaba: “O Enviado de Allâh — que Allâh lhe conceda a graça e a paz — disse: Antes que Adão — sobre ele a paz — descesse do Paraíso, o Templo (al-Bayt) (ou seja, a Caaba de Meca) era uma Jacinto dentre as jacintos do Paraíso.”
  • Há, portanto, nesse momento primordial, uma espécie de interpenetração das realidades terrestres de um lado, celestes e paradisíacas de outro.
  • Guénon afirma em outro texto: “No início do ciclo, este mundo não era como é atualmente, e o 'Paraíso terrestre' constituía nele a projeção direta, então visivelmente manifestada, da forma propriamente celeste e principial (estava situado de certa forma nos confins do céu e da terra, pois diz-se que tocava a 'esfera da Lua', ou seja, o 'primeiro Céu').” Essa penetração recíproca não cessará com a simples queda de Adão; manifestar-se-á, antes, em condições diferentes, ligadas precisamente ao transfert do califato.

A queda de Adão, que chegou “ao solo da Caaba, o qual tremeu como um navio violentamente sacudido”, veio acompanhada da descida de dois objetos provenientes do Paraíso: o Tâbût e o Rukn, segundo uma tradição que remonta a Ibn Abbâs.

  • O Tâbût não é apenas “um cofre no qual se encontravam as imagens dos profetas dentre os descendentes de Adão até Muhammad, o Selo da Profecia”; é também, e sobretudo, uma maneira de designar “um depósito primordial, permanente em princípio, constituído por uma realidade transcendente e operativa no sentido mais geral, mas propriamente 'divina', condensada ou fixada a um suporte sensível” — ideia ilustrada pela tradição do Graal.
  • Michel Vâlsan aproxima os dados islâmicos relativos ao Tâbût dos que se encontram nos apócrifos cristãos sobre o “Tesouro de Adão”, que tocam também, de muito perto, os aspectos iniciáticos de sua “queda”.
  • Quanto ao Rukn, trata-se, sempre segundo Michel Vâlsan, do Ângulo ou “Fundamento” “tornado e chamado mais tarde a Pedra Negra da Caabah”. A importância de sua função atual é estabelecida pelo Cheikh al-Akbar nestes termos: “A Casa de Allâh se distingue do Trono, de ad-Durâh e das outras quatorze 'moradas' por uma coisa que nenhuma tradição relata ter sido a elas atribuída, e que é a Pedra Negra, a Direita de Allâh sobre a Terra.”
  • A descida do Rukn está diretamente ligada à instauração do califato terrestre, como indicam outras observações que o Cheikh formula a propósito de um hadîth reportado ainda por Ibn Abbâs, dizendo que “a Pedra Negra desceu do Paraíso quando era de uma brancura mais intensa que a do leite; foram os pecados dos filhos de Adão que, em seguida, a tornaram negra (sawwadat-hu).”
  • O comentário do Cheikh apoia-se na ambivalência do termo sawwada, que significa ao mesmo tempo “tornar negro” e “tornar senhor”: “A Pedra Negra, que era branca ao sair do Paraíso, portará necessariamente, quando lá retornar, uma marca que a distinguirá de suas semelhantes. Com efeito, Deus a paramentou com a veste de honra da Proximidade divina, conferindo-lhe a dignidade de ser Sua Direita, com a qual amassou a argila de Adão quando o criou. Foram os pecados dos filhos de Adão que a enegreceram e que manifestaram assim sua senhoria: eles a enegreceram beijando-a, e a cor negra é a única a manifestar a senhoria! Allâh a revestiu portanto dessa cor para significar que foi fazendo-a sair do Paraíso e descer neste mundo inferior que estabeleceu sua senhoria, assim como havia feito com Adão. A queda da Pedra Negra corresponde portanto ao estabelecimento de um califato, não a um afastamento.”
  • Para a boa compreensão desse texto, é preciso distinguir cuidadosamente dois estados diferentes da “Pedra”; Michel Vâlsan alude a essa distinção quando diz do Rukn que foi “chamado mais tarde” de Pedra Negra da Caaba — sendo o califato da Pedra ligado unicamente ao segundo desses estados, ligado à cor negra e aos “pecados dos filhos de Adão”.
  • No estágio primordial — quando a Pedra é de uma brancura eclatante — a Senhoria divina manifesta-se antes no “Pacto Primordial” concluído entre Allâh e os descendentes de Adão e encerrado na Pedra; esses últimos, longe de dever ser considerados pecadores, estão então no estado de Fitra, característico da disposição original do homem, que aparece como transcendente em relação às noções de “bem” e de “mal”. Em seu sentido total, a Fitra exprime a natureza primordial de Adão que engloba a de todos os seres do universo e realiza o caráter sintético de seu conhecimento.
  • O Tâbût e o Rukn que acompanham Adão em sua queda aparecem, fundamentalmente, como aspectos complementares da função axial que ele continua a assumir: o Tâbût exprime mais particularmente a permanência e as adaptações sucessivas dessa função no curso do desenrolar cíclico, enquanto o Rukn vincula sinteticamente o conjunto dos seres particulares à sua realidade essencial, identificada, neste ponto de vista, à natureza primordial e teofonânica de Adão.
  • O caráter axial da função em questão parece ser além disso simbolizado como tal por um terceiro objeto que desce do Paraíso para ser atribuído da parte de Allâh a Adão primordial: o “Bastão” (al-'Asâ) dos Profetas, conhecido sobretudo pelo uso que dele fez ulteriormente Moisés, que o recebeu por herança.
  • O conjunto formado pelo Bastão, pelo Cofre e pela Pedra poderia, quando encarado em seu aspecto primordial, constituir uma representação simbólica das três “funções supremas” que são as do Rei do Mundo: a significação tradicional ligada ao Tâbût tem uma relação evidente com a função sacerdotal, enquanto a da Pedra Negra exprime, de maneira igualmente nítida, o aspecto real correspondente.

As tradições que relatam o exílio subsequente de Adão na Índia e seu retorno a Meca como primeiro peregrino humano referem-se não mais à função axial do “pai dos homens”, mas ao aspecto cíclico ligado mais especialmente à sua modalidade corporal.

  • Michel Vâlsan fornece as seguintes precisões: “Nos primeiros tempos de sua descida na Índia, Adão tendo uma estatura que lhe fazia 'tocar o céu com sua cabeça', ouvia as invocações dos anjos e via suas voltas em torno do Trono. Mas em seguida, por reclamação dos anjos, sua estatura foi reduzida a 60 côvados.”
  • Convém pois distinguir, mesmo após sua saída do Paraíso, entre uma primeira condição adâmica que guardava certa conaturalidade e intimidade celeste, e uma condição ulterior na qual o contato natural e direto com o Céu havia se perdido.
  • A fundação dos ritos referentes à “busca da Casa” apresenta, do ponto de vista cíclico, um duplo aspecto: de um lado, Adão teve de “reconduzir o culto da Casa de Allâh para um novo ciclo tradicional, especialmente 'humano'” após ela ter sido, como se recordou, um centro de peregrinação para os Anjos — e foi para esse fim que a Caaba foi estabelecida como “primeiro templo para os Homens”; de outro, os novos ritos correspondem a uma fase em que Adão é encarado como tendo perdido sua posição axial, “pois é somente então que a peregrinação (à Caabah terrestre) tinha sua plena razão de ser: a de constituir sobre a terra um culto que substituísse o culto celeste ao qual Adão não tinha mais acesso.” Há portanto ao mesmo tempo encadeamento cíclico e substituição ritual.
  • O peregrino Adão, protótipo das peregrinações humanas, precede imediatamente a fundação dos novos ritos e opera a partir de uma posição de afastamento e de exílio, o que explica que Adão, por ordem de Allâh, tenha sido submetido a uma direção angélica tanto para seu retorno a Meca quanto para a construção de uma nova Casa e a instituição do conjunto dos ritos da peregrinação, incluindo os de Arafa.
  • Um ponto muito digno de nota é que a menção de um rito especial a cumprir em Arafa aparece pela primeira vez nesse preciso momento da história sagrada — menção de um rito distinto dos que são cumpridos perto da Caaba, ligada ao fato de que a Cidade santa de Meca é ela mesma encarada doravante numa perspectiva cíclica, como ponto de partida de um ciclo particular de existência, de tal sorte que a função imutável e propriamente axial do Centro do Mundo não aparece mais, como tal, senão em Arafa.
  • É em Arafa, e não em Meca, que se opera o encontro de Adão e Eva, após esta última ter sido “exilada” em Jeddah como Adão o havia sido nas Índias. Um hadîth remontando a Ibn Abbâs precisa que Allâh havia proibido Eva de penetrar no território sagrado que envolve a Cidade santa e de olhar a “Tenda de Adão” que ocupava então o lugar da Caaba, por causa da falta que havia cometido no Paraíso.
  • Certas fontes, reportadas por Azraqî, dizem mesmo que quando Adão queria encontrar Eva com vistas à procriação, saía do haram — o que constitui, notemo-lo de passagem, um equivalente islâmico da doutrina cristã do pecado original.
  • Quanto a Kissây, que prevê uma vinda de Eva a Meca, ele situa seus encontros com Adão apenas no fundo do vale situado entre Safâ e Marwa, e unicamente de dia — à noite Adão devia fixar-se em Safâ e Eva em Marwa. A indicação que ele fornece dá conta consequentemente da significação atual da sétupla corrida cumprida entre as duas rochas, pois trata-se, fundamentalmente, de um rito de purificação e de prova. Kissây acrescenta: “Assim foi até que veio o mês de Dhû-l-Hijja. Então Gabriel desceu junto a Adão e lhe ensinou os ritos da peregrinação.”
  • O estado de exílio que condiciona o retorno a Meca do Adão-peregrino prefigura naturalmente o da grande maioria dos visitantes da Casa de Allâh que se sucederão ao longo dos séculos.
  • Há todavia lugar para encarar uma certa permanência da condição primordial, que se marca por exemplo no fato de que os Anjos nunca cessaram de praticar as voltas em torno da Caaba, mesmo após ela ter se tornado um centro de peregrinação mais especialmente destinado ao gênero humano. Essa condição permite também explicar os privilégios de que gozam, ainda hoje, os habitantes de Meca, dos quais o Cheikh al-Akbar diz que são “as criaturas mais próximas dos santuários primordiais de tal sorte que Allâh Se manifesta a eles, e somente a eles, por Seu Nome 'o Primordial' (al-Awwal).” Ele os chama por isso de “vizinhos de Allâh”.
  • Os Mekkois, quando empreendem a peregrinação, não o fazem a partir de uma posição de exílio, sendo por isso não obrigados a sair do território sagrado para se sacralizar, diferentemente dos peregrinos vindos do exterior. Ibn Arabî diz: “O estrangeiro (literalmente: 'aquele que vem do horizonte') conserva uma aspiração em relação a seu país, exterior ao território sagrado. A obrigação de sair deste último para se sacralizar com vistas a realizar uma 'umra (supererogatória) é para ele como uma punição dessa aspiração… que lhe faz preferir o menos bom ao melhor.” E o Cheikh conclui: “Que diferença entre aquele que é o 'vizinho de Allâh' e aquele que não o é!”

O retorno a Meca do Adão-peregrino acarreta não apenas a instituição dos ritos da peregrinação, mas também a fundação de uma Casa nova, substituída ela mesma à Caaba originelle visitada pelos Anjos.

  • Essa fundação é às vezes apresentada como uma “reconstrução” da Caaba, ordenada por Allâh a Adão, o que Michel Vâlsan interpreta como uma “readaptação dos suportes do culto”.
  • Para essa Caaba primordial do ciclo humano, não poderia se tratar de uma construção “de pedras grosseiras e de barro” que certas tradições reservam expressamente aos descendentes de Adão; ao contrário, todos os dados tradicionais disponíveis insistem, apesar de numerosas divergências de detalhe, no fato de que o novo Templo apresentava, tanto por sua forma circular quanto pelos materiais preciosos de que era feito, um aspecto verdadeiramente celeste.
  • Na maior parte das vezes, fala-se não tanto de uma Casa mas de uma “Tenda” (khayma), o que dá a entender que, em sua condição primordial, Adão era ele mesmo o habitante do Templo.
  • Certas tradições, sempre remontando a Ibn Abbâs, relatam que quando Adão voltou em peregrino a Meca, após seu exílio na Índia, chorava tanto que “se os Anjos pudessem se entristecer eles teriam ficado tristes e se pudessem chorar teriam ficado em lágrimas”. Então Allâh o Altíssimo “consolou Adão com uma Tenda (khayma) do Paraíso que colocou para ele, em Meca, no lugar da Caaba, enquanto ainda não havia a Caaba (atual). Essa tenda era uma jacinto vermelha, dentre as jacintos do Paraíso.”
  • O termo khayma, que designa a Tenda de Adão, corresponde em realidade a um habitáculo de forma circular ordinariamente fixado sobre quatro pedaços de madeira; sua raiz comporta além disso a ideia de uma coisa “bruta, não trabalhada”, fazendo referência igualmente a um simbolismo primordial. A representação de uma morada circular repousando sobre quatro apoios evoca a forma mesma do Trono divino, protótipo da Caaba angélica ou originelle.
  • Kissây descreve, em relação com a fundação da “Casa” original “cuja luz, diz ele, ilumina este mundo inferior”, um edifício com cúpula (qubba) feito de uma jacinto vermelha e dotado de quatro portas: “a porta de Adão, a porta de Abraão, a porta de Ismael e a porta de nosso Profeta Muhammad — sobre ele a Graça unitiva e a Paz divinas!” Essa descrição é particularmente significativa: a cúpula é, com efeito, na ordem arquitetural, o símbolo celeste por excelência; de outro lado os quatro profetas citados são precisamente os que intervêm nas readaptações sucessivas do culto ligado à Caaba.
  • Outros dados atribuem ao Templo primordial de Meca uma característica que o faz aparecer como um substituto terrestre da Casa Visitada (al-Bayt al-Ma'mûr). Segundo uma tradição que reporta Azraqî, “a morada que Allâh o Altíssimo havia estabelecido para Adão era, à época, uma jacinto vermelha dentre as jacintos do Paraíso e que flamejava. Era dotada de duas portas, uma a Oriente, a outra a Ocidente, e continha lâmpadas feitas de uma luz paradisíaca…” A presença dessas duas portas está em relação com uma modalidade especial da “peregrinação à Casa”, que consiste precisamente em entrar por uma delas — a que está a Oriente — e sair pela outra. Nota-se que, segundo essa modalidade, a Caaba primordial aparece como um simples “lugar de passagem”, ao passo que o rito da circumambulação supõe, ao contrário, que ela seja estabelecida antes de tudo como um “ponto de fixação”. Esse último corresponde, ele também, a uma situação cíclica marcada pela predominância, no seio mesmo do mundo corporal, dos elementos característicos da manifestação grosseira em detrimento da condição original, que era de uma qualidade mais sutil.
  • Às vezes, a Caaba primordial é mesmo assimilada, pura e simplesmente, à Bayt al-Ma'mûr. É assim que Tirmidhî se afasta das tradições citadas por Azraqî e que relatam a substituição da Tenda de Adão, após a morte deste último, por um edifício de pedras grosseiras e de argila, e declara, por sua vez, “que se praticaram as voltas em torno da Tenda até a época de Noé — sobre ele a Paz! Depois, ela foi elevada ao Céu, onde não é senão a Casa Visitada.”
  • Sublinha-se em conclusão a persistência, durante todo o período antediluviano, de duas perspectivas bem distintas mas complementares e de modo algum exclusivas uma da outra: a primeira, onde o Centro de nosso mundo aparece como o reflexo direto ou mesmo como o lugar de manifestação das realidades celestes; a segunda, onde ele aparece ao contrário como ligado a um estado de decadência aparente que é a característica da manifestação corporal. A distinção dos pontos de vista em que a Casa primitiva é encarada como um “lugar de passagem” ou como um “ponto de fixação” apresenta certa analogia com a que foi assinalada a propósito do Rukn, que era originalmente de uma “brancura eclatante” antes de se tornar “a Pedra Negra” — sendo o Rukn ele mesmo, à época, “uma estrela paradisíaca feita de uma jacinto branca”.

As características da Caaba original estão estreitamente ligadas, como aliás se podia esperar, às condições especiais que são as do período inicial do ciclo humano, bem como aos diferentes aspectos sob os quais aparecem, do ponto de vista da ciência tradicional, o estado e a função primordial da humanidade adâmica.

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