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PEQUENA E GRANDE PEREGRINAÇÕES

GILIS, Charles-André. La doctrine initiatique du pèlerinage. Paris: Editions de l’Oeuvre, 1994.

CAPÍTULO I: PEQUENA E GRANDE PEREGRINAÇÕES

A peregrinação islâmica (hajj) constitui um conjunto ritual complexo devido ao grande número de prescrições, interdições e à diversidade dos lugares e da duração dos ritos, que se estende por quase uma semana inteira.

  1. A descrição inicial inclui os ritos de sacralização (ihram), a circum-ambulação (tawaf) ao redor da Kaaba, seguida de uma oração na Estação de Abraão (Maqam Ibrahim), e a corrida (say) entre as rochas de Safa e Marwa.
  2. A umra ou pequeno peregrinação é constituída pelo tawaf e pelo say, podendo ser realizada em qualquer época do ano.
  3. A grande peregrinação (hajj) ocorre em momento determinado do ciclo anual e inclui ritos especiais fora de Meca, como a Estação (wuquf) na planície de Arafa, o desbordamento (ifada) passando por Muzdalifa e os ritos em Mina, incluindo a lapidação de Satã (rami) e o sacrifício (nahr).

A DISTINÇÃO ENTRE HAJJ E HIJJ

O caráter obrigatório da peregrinação é fundamentado no versículo 97 da sura Al Imran, que define a peregrinação como a Busca da Casa.

  1. A interpretação corrente do versículo como a obrigação de ir a Meca e circum-ambular a Kaaba é considerada insuficiente, pois a peregrinação não se reduz a esse rito e o Profeta declarou: a Peregrinação é Arafa.
  2. Ibn Arabi baseia sua interpretação na diferença de vocalização entre hijj (com kasra) e hajj (com fatha), ambos derivados da raiz h-j-j.
  3. Hijj corresponde ao ism (nome que implica elevação), enquanto hajj corresponde ao masdar (nome que implica movimento de afastamento ou desenvolvimento a partir de um centro).
  4. Ibn Arabi define hajj como a busca legalmente obrigatória da Casa para realizar ritos determinados, enquanto hijj se refere ao fato de que o que se visa é aquilo que a própria Casa visa.
  5. O significado de kasra (em hijj) é de uma predisposição que coloca o Coração em relação de conveniência com Allah, enquanto o fatha (em hajj) implica a busca pelo próprio Coração para ver as pegadas divinas deixadas pelo Senhor.
  6. Para Ibn Arabi, no kasra, o objetivo da busca é Allah; no fatha, o objetivo é o Coração.

O SIMBOLISMO INICIÁTICO DO PEQUENO E DO GRANDE PEREGRINAÇÕES

A distinção entre hajj e hijj reflete-se na distinção entre o pequeno e o grande peregrinações, sendo o primeiro símbolo dos Pequenos Mistérios e o segundo, dos Grandes Mistérios.

  1. A umra (pequena peregrinação), cujo nome remete a um lugar construído, simboliza a primeira fase da realização iniciática, ainda de ordem individual, correspondendo à perfeição do estado humano e à restauração do estado primordial.
  2. A grande peregrinação (hajj), que inclui a Estação de Arafa, simboliza os Grandes Mistérios, concernindo à realização dos estados supra-humanos e conduzindo ao estado incondicionado da Identidade Suprema.
  3. A busca do Coração, como centro do estado individual humano, é representada pela Kaaba de Meca, enquanto a Busca de Allah, visada pela própria Casa, remete à Conhecimento (Marifa) dos Conhecedores por Mim (al-Arifuna bi).

ARAFÁ E A CASA DE ALLAH CODO CENTROS SAGRADOS

A relação simbólica entre os dois centros sagrados em torno dos quais se ordenam os ritos da peregrinação é a expressão islâmica de um ensinamento universal sobre o Centro do Ser total e o centro do estado humano.

  1. Arafa é a representação do Centro do Ser total, enquanto a Casa de Allah (Kaaba) designa o centro do estado humano.
  2. Esta relação é análoga a dados da Tradição hindu (Swayambhu e Hiranyagharba), da Tradição hebraica (El e Beit-El; Shekinah como Luz de Glória e Grande Paz) e da Tradição cristã (El-Elion e Emmanuel).
  3. A Estação de Arafa é a representação direta, em modo islâmico, do Centro Supremo, onde se atualiza a presença invisível e a bênção do Rei divino do Mundo uma vez por ano por ocasião do grande peregrinação.
  4. A presença de um símbolo com referência imediata ao Centro espiritual do mundo terrestre é um fato único no universo tradicional contemporâneo, significando a função privilegiada do Islã no período final do ciclo.

A ORAÇÃO DO PROFETA DENTRO DA KABAA

O episódio em que o Profeta Muhammad, após a Conquista de Meca, realizou uma oração de duas rakates no interior do Templo sem que a tradição precisasse a direção para a qual se voltou, é interpretado como uma manifestação de sua orientação para o Centro Supremo.

  1. A faculdade de orar em qualquer direção corresponde a um ponto de indiferenciação que, em um estado determinado de existência, se confunde com o pólo passivo desse estado.
  2. Como a Kaaba é um símbolo do Centro primordial com função ativa (móvel imóvel), o ponto de indiferenciação só pode situar-se em seu antípoda.
  3. Michel Valsan estima que o Profeta orientou sua oração para Arafa, uma direção única e permanente que é a da prosternação do Coração, identificando-se assim com o Coração do Mundo e manifestando sua dependência formal em relação à Tradição primordial.
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