UMRA
GILIS, Charles-André. La doctrine initiatique du pèlerinage. Paris: Editions de l’Oeuvre, 1994.
CAPÍTULO II: SIGNIFICAÇÃO PRÓPRIA DA UMRA
A pequena peregrinação (umra) deve ser considerada como parte integrante da grande peregrinação (hajj), constituindo a primeira das duas grandes fases ou etapas que ela comporta habitualmente.
- Antes do Islam, a umra era inteiramente distinta e independente do hajj, tendo sido o Profeta Muhammad quem instituiu a nova regra durante o Peregrinação do Adeus.
- O Profeta ordenou aos seus Companheiros que não tinham trazido uma vítima sacrificial que se dessacralizassem, entrelaçando os dedos de suas mãos e dizendo duas vezes: A umra entrou no hajj, acrescentando: não apenas para este ano, mas para todo o sempre.
- Esta palavra profética é aproximada por Ibn Arabi à resposta dada por um chefe espiritual a Sahl at-Tustari sobre a prostração do coração: Para todo o sempre!
- O gesto do Profeta de entrelaçar os dedos é considerado singularmente significativo para expressar a integração da realização iniciática correspondente aos Pequenos Mistérios em uma perspectiva puramente metafísica e universal.
A umra é chamada de pequena peregrinação por compreender apenas a sacralização, as circum-ambulações e as corridas, mas não a Estação de Arafa, que constitui a própria essência da grande peregrinação.
- A umra é interpretada em função de sua significação simbólica como um rito que se relaciona ao aspecto formal das práticas rituais, sendo a presença de um elemento formal a característica do pequeno peregrinação.
- A analogia estabelecida por Ibn Arabi entre a distinção do ato e da intenção e a distinção da umra e do hajj indica que a forma exterior do ato é representada pela umra.
- A pequena peregrinação expressa a atitude de quem visita seu Senhor unicamente pelo viés das formas prescritas pela Lei, caso em que a umra não teria sido integrada no hajj.
A atitude inversa, correspondente à significação espiritual da grande peregrinação, é expressa pela prostração do coração, uma orientação decisiva e irreversível do centro mesmo do ser para a Verdade principial.
- A prostração do coração é posta em relação por Ibn Arabi com a ideia de ruptura (kasr) mencionada a propósito do termo hijj.
- A prostração do coração concerne à condição do faqir (pobre e dependente), cujas vértebras das costas são quebradas devido ao estado de dependência, tornando impossível levantar a cabeça e tendo como atributo a prostração permanente.
- Esta prostração tem como consequência a obtenção da Proximidade Suprema, conforme o versículo corânico que ordena prostrar-se e aproximar-se, retornando assim à significação iniciática dos Grandes Mistérios.
A grande peregrinação é análoga, neste mundo inferior, ao que a Visita geral será para os eleitos na vida futura, enquanto a umra é uma visita particular própria a cada um.
- A Visita geral é descrita como o momento em que Allah quer Se manifestar a Seus servos, sendo o arauto divino que lança seu chamado em todo o conjunto dos Paraísos para a Visita de seu Senhor no Paraíso do Eden.
- O chamado da Visita geral é o protótipo celeste do chamado lançado por Abraão durante a reconstrução da Kaaba, ao qual os peregrinos respondem a cada ano por meio da talbiya.
- Meca aparece como um equivalente terrestre do Kathib, o lugar mais eminente do Paraíso do Eden, que é a cidadela e a metrópole, ou seja, o lugar de residência do Rei.
- Antes da Manifestação divina na Visita geral, cada assistente é envolvido por uma luz brilhante e penetrado por ela, tornando-se todo inteiro olho e todo inteiro audição, vendo e ouvindo por todo seu ser sem ser limitado por uma direção particular.
Os Nomes divinos al-Mutakabbir (Aquele que se afirma Grande) e al-Kabir (O Trassoberano) são postos em relação analógica respectivamente com a umra (pequeno peregrinação) e com o hajj (grande peregrinação).
- O Nome al-Mutakabbir é relacionado por Ibn Arabi a uma descida do Trassoberano para com Seus servos, ou ainda à presença de um receptáculo ou lugar particular de manifestação.
- Toda manifestação particular da Grandeza divina põe em causa o Nome al-Mutakabbir, o que explica o vínculo estreito entre este Nome e a presença neste mundo do Homem Universal como fonte de toda Mestria espiritual.
- A pedra negra, como Direita de Allah sobre a Terra, representa em Meca, de maneira exterior e visível, a função de mestria relacionada ao Nome al-Mutakabbir.
- Aquele que toma o estado de sacralização para a grande peregrinação expressa sua intenção de buscar o Trassoberano, não Aquele que se afirma Grande, estando este último Nome em relação analógica com a umra.
A umra e o hajj aparecem, à semelhança dos Nomes divinos derivados de uma mesma raiz que de certa maneira os representam, como realidades relativas e contingentes diante da Perfeição da Essência Suprema.
- A Visita geral ocorre, como o hajj, em um momento bem determinado, enquanto a visita particular, assim como a umra, não está ligada mais especialmente a um momento do que a outro, sendo seu estatuto jurídico mais poderoso do ponto de vista temporal.
- O hajj supera a umra pelo fato de implicar a realização integral dos ritos, de modo que um e outro têm um aspecto de excelência sob uma certa relação e um aspecto de subordinação sob outra.
- Deus somente possui a Perfeição desprovida de toda excelência relativa, pois mesmo os Nomes divinos, que constituem o grau de realidade mais elevado, comportam ainda uns com respeito aos outros tais relações limitativas de excelência.
