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SABEDORIA E EXISTÊNCIA

CJAE

A metafísica define-se como a ciência do ser enquanto ser, cujo objeto culmina no reconhecimento do existente necessário por si mesmo, distinguindo-se das ciências particulares por não se ocupar de quididades específicas, mas do ato puro de existir.

  • Sadra segue as lições de Aristóteles e Avicena ao definir a metafísica como ciência do existente enquanto existente.
  • O sujeito da metafísica é a natureza do existente absoluto, ou o conceito do existente enquanto existente, cuja realidade é evidente por si mesma, independente de definição representativa ou demonstração prévia.
  • A “sabedoria primeira” e a “ciência mais elevada” investigam os estados do existente e as divisões primeiras do existente absoluto, sem que este seja uma espécie particular pertencente à matemática ou à física.

Do conceito de existente passa-se à presença imediata do real, de modo que a metafísica atesta o ato de ser antes de qualquer determinação quiditativa, distinguindo-se das ciências derivadas cujos objetos são as quididades dos existentes particulares.

  • A metafísica considera a intensidade pura do existir, do ato de ser, sem que nenhuma representação ou demonstração possa fundá-la.
  • Enquanto as ciências particulares dizem o que os existentes são, a metafísica atesta aquilo em que o existente existe — a natureza de sua atividade efetiva.
  • Se Deus é existência, o objeto do saber mais elevado não é a quididade das coisas, mas a natureza de seu ato de existir.
  • “A realidade de toda coisa é a singularidade de seu ato de ser, pelo qual ela é estabelecida, pois a entidade da coisa e o fato de ela possuir uma realidade constituem uma única e mesma significação.”

O ato de ser é o objeto da ciência divina porque o que advém em primeiro lugar pertence sempre a uma certa posição na existência, e a partilha entre ato de ser e quididade determina toda a empresa metafísica de Sadra.

  • O ato de ser não pertence ao ente enquanto propriedade sua; ao contrário, é o ente que exprime sempre um certo grau de existência.
  • É pelo ato de ser que o ente afirma sua realidade efetiva, da qual se seguirá que o ente será isto ou aquilo, possuindo uma certa quididade.
  • A ciência divina distingue-se das ciências particulares voltadas ao conhecimento de regiões determinadas do ente.
  • Sadra apoia-se em Al-Shawahid al-rububiyya fi'l-manahij al-sulukiyya para fundamentar essa distinção.

As ciências regionais supõem uma transformação dos objetos considerados — de existentes tomados em sentido absoluto a entes particulares —, ao passo que a metafísica, como ontologia, implica a condição transcendental da divisão entre ato de ser e quididade.

  • Os objetos das ciências particulares tornam-se entes “dentre os movimentos e as coisas movidas, ou dentre as quantidades contínuas e discretas.”
  • As ciências do ente particular distinguem-se da metafísica por terem como objetos exclusivos os atributos quiditativos do ente.

A ontologia sadriana não tem necessidade de ciência anterior que a preceda, pois o ato de ser impõe-se na imediatidade de sua presença, e sua investigação conduz inevitavelmente da ontologia à teologia.

  • Avicena, na linha direta de Aristóteles, ensina que se deve partir do existente em geral para que o ato de ser desvele sua realidade.
  • A ordem da pesquisa inverte a ordem hierárquica dos atos de ser, devendo conduzir ao restabelecimento da ordem efetiva, na qual Deus é não apenas o primeiro dos existentes, mas a realidade constitutiva de todo ato de ser.
  • O programa da ontologia consiste em estabelecer o conjunto das realidades efetivas que possuem uma realidade de ato de ser a partir do Criador.
  • O programa da teologia propriamente dita abrange: a unicidade do Criador, o conhecimento de seus nomes e atributos, o conhecimento dos anjos, a exegese dos livros sagrados e da mensagem dos profetas, e o estabelecimento da morada do além.
  • A escatologia completa a ontologia e constitui a razão de ser da metafísica — as especulações mais refinadas seriam, para Sadra, um jogo fútil se não justificassem as profecias acerca da retribuição futura dos bons e dos maus.

A doutrina do destino dos existentes criados, deduzida do ato de ser em sua verdade essencial, funda a psicologia mística e culmina na união intelectual com a proximidade divina, concebendo a inteligência como potência metafísica por excelência.

  • A inteligência, herdada de Plotino, faz do homem inteligível a origem e o termo do homem psíquico e do homem sensível natural.
  • A inteligência não se confunde com o entendimento raciocinante, mas faz um com o coração.
  • “O amor decorre da percepção do ser, porque este é puro bem.”
  • A intuição da presença do ser conduz às práticas supremas da contemplação, que Sadra designa por três modulações do amor: o amor louco, o amor espiritual e o amor divino.
  • A metafísica instrui uma prática da liberdade à imitação da liberdade divina, inscrita na natureza da inteligência, que não tem vínculo senão com Deus e exprime a espontaneidade criadora do Imperativo divino.
  • Intelliger é libertar o próprio si de todos os vínculos mortais e de todas as opressões da matéria e das paixões.
  • Sadra define a inteligência nos seguintes termos: “A inteligência mencionada no livro das Ilahiyyat e na gnose das coisas senhoriais é o existente liberto de todo vínculo com qualquer coisa, exceto com seu princípio, que é Deus, o Providente — o existente que não tem nenhum vínculo com um substrato, como teria o acidente, ou com uma matéria, como teria a forma, ou com o corpo, como teria a alma. Não possui perfeição em potência, não há em sua essência nenhuma modalidade de não-ser e de potencialidade, ou de deficiência ontológica, senão o que decorre de estar subjugado sob a onipotência da necessidade do ato de ser do real divino, razão pela qual seu 'mundo' é denominado o mundo do Jabarut.”
  • Essa inteligência é concebida segundo o esquema neoplatônico, à qual se une a inteligência humana porque o homem carrega em si o traço dessa totalidade livre do ser e do pensamento.

A metafísica é ciência da origem e do retorno, sustentando-se no conhecimento do ato de ser e na noção de movimento substancial, abrangendo os saberes dos diversos graus dos mundos divinos e culminando em uma síntese problemática entre a definição aristotélica do ente enquanto ente e a intuição pura do ato de ser.

  • A metafísica compreende o saber dos graus dos mundos divinos — em particular do Malakut inferior e superior — e encerra-se na ciência “vinda do trono divino,” ciência gnóstica e iluminativa, homologada ao ensinamento espiritual dos Imãs.
  • Sadra articula sua definição de metafísica ao desvelamento espiritual e à hermenêutica dos mundos superiores — mundo imaginal e mundo inteligível — onde se efetua o destino de todos os existentes possíveis até o homem em seu devir angélico.
  • A cosmologia sadriana exige a fixação dos dez predicamentos do ser — pelo que Sadra retoma o programa peripatético — e a elucidação das “realidades universais”: o uno e o múltiplo, a potência e o ato, o universal e o particular, a causa e o causado, o antecedente e o posterior, as quatro causas: agente, fim, matéria e forma.
  • A intuição desveladora é a ponta última da contemplação pela inteligência — superior à intelecção, dela não se distingue por essência, mas por grau superior de perfeição.
  • A inteligência plenamente ela mesma é conhecimento presencial e amor, sem que seja possível transcendê-la verdadeiramente em direção a uma união com a Essência divina insondável.
  • H. Corbin dedicou análise notável à metafísica como theosophia em La Philosophie iranienne islamique aux XVIIe et XVIIIe siècles, à qual Sadra oferece matéria para nuances.
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