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ALMAS
“Se rendre immortel suivi du “Traité de la résurrection” par Mollâ Sadrâ Shîrâzî”, Fata Morgana, 2000
- O estatuto das almas é complexo, e sua congregação em Deus consiste na passagem da potência intelectiva ao ato, pressupondo a teoria aviceniana do intelecto — iluminado pelo intelecto agente — até que a alma se converta plenamente em Inteligência, realizando entre ambas uma unificação total.
- Avicena fornece a teoria do intelecto que recebe a iluminação do intelecto agente e se torna plenamente atualizado
- Mollâ Sadrâ é o filósofo que sustenta a tese de que, ao término de seu movimento, as almas são Inteligências
- A unificação total entre alma e Inteligência é expressa pelo termo ittihâd
- É necessário distinguir o caso das almas celestes do caso das demais almas, pois as almas celestes possuem criação e ressurreição, e sua duração de movimento circular constitui, à sua maneira, uma passagem da potência ao ato que culmina na união plena com sua Inteligência e no retorno a Deus.
- Mollâ Sadrâ retoma o esquema aviceniano que distingue e une o corpo da esfera celeste, a alma — ou “forma animadora” — e a Inteligência — aqui “forma inteligível”
- A forma animadora, na duração do movimento circular do astro e de sua esfera, conduz o corpo celeste em sua órbita e passa lentamente da potência ao ato
- Quando o céu desaparecer, no dia do juízo, as almas celestes terão concluído seu movimento intra-substancial, unindo-se plenamente à sua Inteligência
- O movimento circular possui uma finalidade assignada e termina em uma “ressurreição” que é unificação
- As almas se congregam em Deus segundo seu grau de intensidade — quanto mais intensa em perfeição, mais próxima de se unir à Inteligência —, e a alma pensante, tornada intelecto em ato, cessa de ser alma no sentido ordinário e se unifica ao intelecto agente, enquanto as almas deficientes, privadas do desejo contemplativo, decaem ao nível das almas animais.
- Mollâ Sadrâ desenvolve essa tese desde o início do capítulo dois do Tratado da ressurreição, retomada na versão dos Asfâr
- A alma pensante — nafs nâtiqa — é perfeita quando sua ipseidade passa do intelecto em potência ao intelecto em ato
- A citação central enuncia: “as almas perfeitas se congregam em Deus, e é Ele o objeto de sua busca”
- As almas pensantes deficientes podem desejar a perfeição inteligível sem alcançá-la, ou simplesmente não desejá-la
- Essa ausência de desejo decorre do princípio de sua natureza fundamental — asl al-fitra — e as reduz ao nível das almas animais
- O esquema reconhecido é aviceniano
- A teoria do retorno funda-se na do movimento intra-substancial: o retorno completa uma moção que começa na origem da alma humana, quando sua natureza fundamental corresponde aos primeiros estágios de desenvolvimento do indivíduo
- No começo, a alma está à beira do não-ser — pura potencialidade; de etapa em etapa, conquista o estado de perfeição que sua natureza fundamental lhe permite
- Cada fitra possui um princípio que determina seu movimento futuro
- A alma deficiente, determinada por sua fitra e por suas volições, esquece sua verdadeira destinação e não se intensifica até o limite do inteligível, congregando-se no mundo imaginal — pátria dos animais —, enquanto as almas perfeitas ascendem a um paraíso superior ao paraíso imaginal, tornando-se anjos próximos, e ao término último se absorvem na unidade do próprio ato de ser.
- O destino da alma deficiente é determinado por sua fitra e pelo que ela faz livremente com ela em função de suas volições e ações
- As almas menos intensamente almas se congregam no mundo das formas aparicionais — âlam al-ashbâh — dito da predestinação, e no mundo das formas sensíveis separadas
- O mundo imaginal é ainda um mundo corporal, feito de uma matéria espiritual — simultaneamente sensível e separado da matéria densa deste mundo
- Mollâ Sadrâ, fiel a Avicena, professa que as almas perfeitas gozam de um paraíso superior ao paraíso imaginal
- Além do corpo do outro mundo, os perfeitos tornam-se anjos próximos
- O paraíso sensível do mundo imaginal é grau intermediário entre o paraíso dos próximos — onde a alma se aniquila na contemplação unificante do Um revelado — e o mundo da natureza
- Ao término último, a alma perfeita se absorve na unidade do ato de ser
- As almas humanas se intensificam, pelo exercício de seu desejo fundamental, até esse aniquilamento — após a etapa em que se metamorfoseiam em Inteligências — ou decrescem em intensidade, literalmente se brutalizam, tendo sua ascensão detida no grau imaginal
- Para esclarecer o estatuto das almas, é preciso recordar que Mollâ Sadrâ recusa a existência separada das faculdades — expressões da alma, não seus serventes —, professando uma unidade monádica da alma que reflete o tawhid de Deus e que fundamenta o retorno do intelecto ao princípio, doutrina de raiz neoplatônica cuja origem provável está em Suhrawardi, com quem Mollâ Sadrâ diverge, porém, quanto à relação entre alma e corpo.
- Existe uma estação inteligível da alma, assim como existe uma estação sensível, sendo as percepções o ponto de combinação entre as diferentes perspectivas da alma
- Deve-se professar um tawhid da alma — que reflete o tawhid de Deus — atestando a unidade fundamental dos poderes que vão do mais material ao mais intelectivo
- Essa unidade monádica é a razão profunda do retorno do intelecto ao princípio, pois o retorno é movimento que atravessa o conjunto das estações da alma
- Suhrawardi sustenta a independência ontológica da alma e do corpo — a alma sendo Luz, o corpo sendo substância tenebrosa
- Mollâ Sadrâ, ao contrário, considera sempre a alma e o corpo na unidade de um único e mesmo movimento
- Segundo Suhrawardi, a alma pensante é uma Luz situada abaixo das Luzes imateriais — as Luzes dominadoras supremas e as Luzes arquiangélicas formatrizes —, e sua unidade fundamental se manifesta no fato de que para governar o barzakh é preciso que a alma, ou Luz regente, seja fundamentalmente una, governando por intermédio do pneuma vital difundido no conjunto do corpo.
- As Luzes que governam os barzakhs não estão impressas nos barzakhs
- A citação de Suhrawardi enuncia: “Procedem de cada senhor de espécie em sua sombra corporal, em função de uma dimensão superior que é sua dimensão de Luz, enquanto os barzakhs resultam de uma dimensão de indigência”
- Segundo Suhrawardi, essas Luzes não preexistem a seus corpos
- Suhrawardi realiza uma meditação sobre o pneuma vital — rûh — e sua afinidade com a Luz
- As faculdades são solidárias entre si, como o prova a unidade unificadora do sensório
- A alma é, desde o grau inferior, poder de configuração
- Tanto em Suhrawardi quanto em Mollâ Sadrâ há convergência profunda com a lição platônica do Teeteto
- A citação final de Suhrawardi enuncia: “a totalidade das faculdades corporais se reconduz, na Luz regente, a uma faculdade única, cuja essência é ser Luz e efundir por si mesma”
- A unidade da alma é a da própria essência — ser é conhecer-se a si mesmo —, e é enquanto apreensão de si que a alma conhece o outro, de modo que a consciência de si não é desenvolvimento da consciência do outro, mas a presença a si do existente Luz que condiciona, a jusante, sua consciência de outrem.
- Mollâ Sadrâ é fiel a Suhrawardi nesse ponto, integrando uma linhagem que inclui Plotino, Proclo e Leibniz
- A consciência de si não é o desenvolvimento da consciência do outro — da sensação, da percepção, da luta à morte das consciências
- A situação é antes a inversa: é a presença a si do existente Luz que condiciona sua consciência de outrem
- Essa posição pode ser formulada como: sum ergo cogito
- Segundo Mollâ Sadrâ, há unidade fundamental da alma e inexistência das faculdades separadas, e a alma, que começa na matéria como pura potência, intensifica-se continuamente em ser — diferentemente de Aristóteles, para quem não há intensificação do ato de ser da alma —, de modo que não há mistério na transição ao estágio de Inteligência, pois a alma jamais cessou de ser de natureza inteligível.
- Mollâ Sadrâ diverge de Aristóteles: para este, não há intensificação do ato de ser da alma, mas apenas aperfeiçoamento das modalidades de suas potências; para aquele, a perfeição crescente corresponde a uma intensificação cujo motor é o movimento intra-substancial, afetando a alma em seu próprio ato de ser
- Em função da lei do movimento intra-substancial, a alma começa na própria matriz — pura potência — e cresce em intensidade de ser enquanto o corpo se forma e cresce
- A unidade da alma é a de seu auto-superamento permanente
- Não há, portanto, nenhum mistério no momento em que a alma se torna Inteligência, pois jamais cessou de ser de natureza inteligível, crescendo desde o estágio da potencialidade e da materialidade até sua metamorfose em Inteligência
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