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INTENSIFICAÇÃO

“Se rendre immortel suivi du “Traité de la résurrection” par Mollâ Sadrâ Shîrâzî”, Fata Morgana, 2000

  • O tema da intensificação, que domina o sistema do qual o Tratado da ressurreição é espelho, exige um desvio analítico para ser examinado em si mesmo, e com Mollá Sadrá esse conceito torna-se central na ética neoplatônica em meio islâmico, distinguindo-se do conceito grego de purificação.
    • O conceito ético central do neoplatonismo helênico é o de purificação — para Plotino, purificar a alma significa evadi-la do corpo
    • A fuga apresenta duplo sentido: há uma fuga positiva, pela qual a alma se purifica do mau infinito da matéria, e uma fuga negativa, que é a da própria matéria
    • A fuga má opera uma falsa conversão — em vez de multiplicar formas a partir do centro inteligível e retornar ao princípio, volta-se para a má multiplicidade, que é o ser do não-ser, isto é, a matéria
  • A grande originalidade de Mollá Sadrá consiste em subordinar a obra da purificação à da intensificação, cujas origens históricas remontam possivelmente ao Corpus Hermeticum e, no islã, à obra de Sohravardi.
    • A origem da intensificação estaria na teurgia, cuja importância em Mollá Sadrá já foi assinalada
    • No Corpus Hermeticum encontram-se metáforas próximas ao conceito, mas não o conceito propriamente dito
    • É preciso aguardar, no islã, a obra de Sohravardi para ver elaborar-se uma doutrina da intensificação que floresce magnificamente, cinco séculos depois, em Mollá Sadrá
    • A temática da Luz e da intensificação do ser como iluminação pode ser relacionada ao desenvolvimento de uma henologia da luz no meio siríaco do Pseudo-Dionísio
  • Há uma diferença fundamental entre a ética da purificação e a ética da intensificação: enquanto a primeira organiza a vida do sujeito em torno de técnicas de despojamento de si até o aniquilamento em Deus, a segunda supõe uma historicidade da alma que cresce e se transforma substantivamente em direção ao princípio.
    • A purificação leva ao fanâ fî'llâh — o aniquilamento em Deus —, mesmo que esse aniquilamento conduza a uma espécie de sobreexistência
    • A lógica da intensidade supõe que a alma parte do mais baixo e deve atingir, por uma série de etapas e graus, o grau último de proximidade ao princípio
    • No Tratado da ressurreição, a intensificação máxima coincide com o ponto último da purificação — o aniquilamento coincide com a sobreexistência
    • Na intensificação, longe de apenas se despojar, a alma se aumenta e se transforma qualitativa e substantivamente
  • A ética da intensidade é uma ética da metamorfose que supõe uma doutrina dos mundos pelos quais a alma peregrina, articulando viagem da alma, crescimento substancial e enriquecimento interior, além de fundar o conceito de governo de si e uma ontologia centrada na potência do Imã.
    • Em Sohravardi há um vínculo nítido entre a intensidade e a capacidade da alma regente de governar o corpo
    • O Imã é a manifestação completa da potência divina no mundo da manifestação — ele é o exemplo maior das potências emanadas de Deus segundo Mollá Sadrá
  • Sohravardi é o grande fundador da ética da intensidade no islã, e sua física dos corpos estabelece que a intensidade corporal possui dois versantes — um tenebroso e um luminoso —, sendo o versante luminoso aquele que prepara o corpo para a iluminação pela Luz regente.
    • Para Sohravardi, o corpo é uma substância nictífora, carregada de noite e de morte, que resiste à Luz espiritual da alma e ao mesmo tempo é seu receptáculo
    • O barzakh é a tela corporal material que o fogo, como todos os Elementos, possui — “esse fogo se converte em ar, e seu barzakh não persiste na intensidade de seu estado sutil, pronto para a epifania da Luz nele”
    • Como o barzakh é um não-ser de existência paradoxal, somente a Luz existe propriamente — o corpo tem apenas a espessura metafísica de um não-ser positivo
    • Os corpos vão do mais denso ao mais sutil, e a intensidade é, no corpo, uma propriedade que acompanha a sutileza
  • No Livro cinco da Sabedoria oriental, o conceito de intensificação se desdobra plenamente como um processo histórico-metafísico de ascensão das Luzes regentes em direção às Luzes arcanjos e à Luz das Luzes.
    • “Quando as Luzes regentes se separam de seus corpos, devido à intensificação de sua aproximação das Luzes arcanjos superiores e da Luz das Luzes, assim como pela amplitude de seu apego amoroso a elas, imaginam que são essas Luzes arcanjos — de modo que essas Luzes arcanjos se tornam formas epifânicas para as luzes regentes, assim como esses corpos eram seu lugar de aparição”
    • A purificação da alma é a etapa preparatória necessária ao movimento pelo qual a alma conhecerá a salvação ética, que é um ato da imaginação criadora
    • A partir da Luz das Luzes procedem as Luzes arcanjos primordiais, correspondentes às Inteligências no esquema neoplatônico ou aviceniano
    • As Luzes arcanjos se dividem segundo uma ordem longitudinal e uma ordem latitudinal, e as Luzes se multiplicam exponencialmente no decorrer da processão
    • As Luzes-Espahbad, equivalentes ao hegemonikon dos estoicos, correspondem às almas ou Luzes regentes dos corpos — denominação de Sohravardi
  • A intensificação é conversão e remontada ao mundo das Inteligências, e consiste paradoxalmente não em acumular Luz mas em crescer em unidade e simplicidade, perdendo a obscuridade acumulada pelos reflexos depositados sobre a alma.
    • A intensificação é aproximação — a intensidade é proximidade (qurb)
    • Ao descer da Luz das Luzes para as ordens sucessivas de Luzes, há multiplicação da Luz — quanto mais inferior na ordem da emanação, mais carregada de radiância
    • Ao contrário, quanto mais a Luz se eleva, mais vazia de radiância, até atingir a limpidez das Luzes arcanjos
    • A fonte da Luz não possui luminescência alguma — ela é pura aparição, além de todo atributo, mesmo o de Luz
    • Essa transparência da Luz se traduz em amor, doçura e gozo — tal é o esquema que anima o tema do recolhimento em Mollá Sadrá
  • A ética da intensificação de si não é exatamente uma ascese, pois o amor e o prazer são privilégios da alma aproximada da Inteligência, e a ética sohravardiana é uma ética do gozo, cujos efeitos a doutrina sadriana conservará nos limites de uma doutrina da imaginação criadora.
    • Para Sohravardi, para que o amor seja o mais poderoso, deve estar misturado à potência dominadora — o amor misturado à potência aumenta em função da intensificação da alma
    • A alma bem-aventurada terá sacrificado os prazeres ilícitos durante a vida do corpo material e se purificado das vãs paixões
    • Na tumba, quando o corpo de morte se desfaz, a alma luminosa configura seu corpo espiritual, que conhece o gozo infinito do paraíso imaginal, antes de conhecer o paraíso inteligível, a unificação do ato de ser
    • “A ascese prepara o gozo, e o prazer dos sentidos espirituais dá seu sentido à promessa concreta da retribuição corânica”
  • A intensificação de si é a prática da autêntica liberdade, que não se pensa em termos de livre-arbítrio nem de respeito a uma legislação universal, mas como autonomia da Luz em relação ao corpo — potência de subsistir por si mesma —, e é um processo, não um estado.
    • Sohravardi escreve: “Como a Luz subsistiria por si mesma? Ora, basta que uma única Luz seja independente de um substrato para que todas o sejam. Essa teoria é, portanto, desprovida de todo fundamento, pois a autonomia (istighnâ) da Luz tem por causa sua perfeição, e sua perfeição se deve àquilo mesmo que faz sua substância”
    • A alma domina o corpo e é livre — sofre o efeito tenebroso do corpo e é serva — e esquece então sua liberdade, que é sua própria subjetividade
    • Quanto mais a Luz está próxima do princípio, mais é perfeita e mais é livre
    • A teoria da liberdade em Sohravardi e seus sucessores não é uma doutrina do querer, nem depende de legislação da razão — ela se desprende de todo legalismo
    • Mollá Sadrá, ao acolher e vivificar o tema da intensificação, exalta a liberdade do ato de ser — tanto mais intensa quanto mais forte é a substancialidade da alma, em função do vigor do movimento intra-substancial que a conduz ao inteligível
  • O xiismo espiritual, no rastro da filosofia iluminativa, desloca a questão teológica tradicional do livre-arbítrio para a questão das condições pelas quais uma Luz regente pode conquistar sua autarquia na intensificação de si mesma e na fidelidade ao evento de si.
    • A liberdade se mede por mínimos e máximos — o máximo de imperfeição, o mínimo de intensidade, corresponde à duração durante a qual a alma é destinada a reger o corpo material denso
    • Embora as Luzes, por sua natureza acidental (aradîya), caiam sobre seus substratos, elas não estão vinculadas a eles — podem sempre crescer em intensidade e perfeição
    • O devir pós-morte é uma Odisseia que as reconduz à sua verdadeira pátria — Mollá Sadrá identifica a liberdade não-acidental e substancial ao ato de ser e à unidade
    • Alain Badiou é evocado para designar a “fidelidade ao evento de si”
  • Sohravardi sustenta um infinito ontológico que é a intensidade da Luz das Luzes — perfeição absoluta do ser além de toda luminescência —, e Mollá Sadrá tentará integrar o corpo nesse processo infinito, deduzindo o finito do infinito e pensando-o como limite.
    • A tese clássica da ontologia medieval sustenta que não há infinito em ato — Sohravardi a contesta com um infinito ontológico
    • Os atributos que exprimem o infinito da Luz das Luzes — dominação, conhecimento, potência — fundam uma ontologia das subjetividades infinitas: intensidade, potência e liberdade são uma única e mesma realidade
    • As Luzes arcanjos — os Querubins, os aproximados — têm intensidade infinita, e delas emanam efeitos ilimitados — “o infinito procede do infinito”
    • Em Sohravardi, a finitude é deportada ao reino tenebroso dos corpos, segundo uma lógica dualista
    • A quiddidade será o traço abstrato, a existência mental desse limite — segundo Mollá Sadrá
  • O universo sohravardiano é fechado por um número limitado de esferas, mas o número de Luzes excede infinitamente o número das esferas, e Mollá Sadrá conceberá no Tratado o desaparecimento do universo físico numa ascensão de todos os existentes à fonte infinita do ato de ser.
    • Alexandre Koyré e suas teses em Do mundo fechado ao universo infinito são evocados como referência cosmológica
    • As almas, como Luzes regentes no sistema sohravardiano, têm um limite — aquele que Mollá Sadrá pensará como a sombra de sua quiddidade
    • Sohravardi escreve: “Se a Luz regente possuísse uma energia infinita, não estaria retida cativa nas algemas das trevas, em seres finitos, cuja potência de atração e força do desejo natural são igualmente limitadas. O cuidado dos corpos não a desviaria do mundo luminoso”
    • A Luz regente é uma efusão definida do infinito — mas seus efeitos são finitos, aprisionados pelo corpo finito
    • Toda uma dramaturgia do arrancamento e do exílio ocidental se articula aqui — o périplo da alma do Ocidente ao Oriente das Luzes, simbolizado pela peregrinação espiritual
    • Mollá Sadrá será tributário dessa dramaturgia, assim como toda a gnoseologia xiita, ao pensar o movimento da alma fiel rumo à terra da ressurreição ou ao séjour do Imã oculto
  • O problema do governo de si se coloca porque a Luz regente deve não apenas evadir-se das trevas e purificar-se do corpo, mas também governá-lo enquanto nele permanece, e só pode governá-lo libertando-se dele pela intensificação — substituindo uma relação de captação por uma relação de governo e dominação.
    • A liberdade infinita do princípio se traduz na alma pela intensificação, condição do governo de si e do corpo
    • Sohravardi demonstra que a alma não preexiste ao corpo — tese que Mollá Sadrá combaterá
    • “Antes de serem confiadas a suas cidadelas, essas Luzes separadas não teriam nada para se distinguir umas das outras segundo o grau de intensidade ou de fraqueza, pois cada grau de intensidade ou de fraqueza é algo não-numerável”
    • Ao esquema da união hilemórfica se substitui uma metáfora política ou militar — a alma ou está retida cativa na cidadela, ou está no posto de comando
    • É nesse ponto que se constitui uma política espiritual da alma — a única política que Mollá Sadrá reterá
  • Após o longo desvio pelo exame da intensificação em Sohravardi, o tema do espelho da alma emerge como complemento necessário: intensificar o ato de ser equivale para a alma a polir o espelho que ela oferece à emanação ativa de seu princípio.
    • O modelo do espelho é mobilizado em dois domínios: o dos cuidados consagrados à alma e o da Inteligência em sua relação intelectiva com o Real divino
    • Avicena, nos Isharât, oferece uma representação do processo de purificação: “Quando supera os exercícios espirituais até o dom, seu íntimo se torna um espelho polido — os gozos superiores se efundem sobre ele em abundância e ele se alegra com o que lhe advém do traço do Real nesse espelho. Ele contempla o Real e contempla sua alma”
    • Nasiroddín Tusí, em seu comentário, mostra que o termo dos exercícios espirituais é a auto-suficiência da alma — a mesma autarquia identificada à autêntica liberdade: al-istighnâ
    • Há duas percepções ou contemplações (nazar): uma orientada para o Real, que produz a alegria na alma, e outra para a ipseidade da alma que recebe o gozo do Real divino
    • Ibn Arabi é evocado como um dos autores maiores de referência constante em Mollá Sadrá — especialmente nos Fosus al-hikam, capítulo 4, dedicado ao verbo de Henoc (Idris)
  • O nó entre o tema do reflexo no espelho da alma e o da purificação se exprime em Ghazali, numa perspectiva muito próxima à de Mollá Sadrá, que motiva purificação e intensificação pelos imperativos do retorno e do recolhimento em Deus.
    • Ghazali escreve: “A alma é semelhante a um espelho cuja perfeição é deixar aparecer as imagens belas, tais como nele se refletem, sem curvatura nem deformação, e isso ao tê-lo purificado de toda escória e todo traço de ferrugem e ao orientá-lo para as formas belas. A alma é então um espelho onde se imprimem as formas da existência inteira, desde que seja pura e polida pela eliminação dos vícios”
    • A filosofia da ressurreição de Mollá Sadrá pretende salvar a letra das profecias divinas — o retorno da alma à Inteligência parece contradizer a salvação corporal
    • Mollá Sadrá critica a posição dos filósofos — especialmente a de Fârâbî e a de Avicena — sobre esse ponto
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