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IBN ARABI

RSKPT

A doutrina akbariana sobre o Absoluto cristaliza-se como efeito da realização mística, não como preparação para ela, manifestando-se como expressão extrínseca e provisória das realidades apreendidas nos mais altos estados de contemplação.

  • A abertura mística de Ibn Arabi ocorreu antes de qualquer disciplina espiritual metódica, por meio de uma atração extática divina singular.
  • Ibn Arabi reconhece exceções à regra geral sufista da preparação espiritual prévia e afirma que seu próprio caso constituiu precisamente tal exceção.
  • A abertura se deu ao amanhecer, na entrada de sua primeira retirada espiritual — “Minha abertura foi uma única atração naquele momento.”

Ibn Arabi descreve essa abertura como visão da Face de Deus, da qual toda a sua doutrina posterior é apenas a diferenciação de uma realidade totalizante captada num único olhar sobre a Realidade Una.

  • “Bati incessantemente à porta de Deus, esperando atentamente, sem distração, até que apareceu ao olho a glória de Sua Face, assim como um chamado que me era dirigido, e nada mais.”
  • “Tudo o que mencionamos em todos os nossos discursos após essa visão da glória da Face de Deus não é senão a diferenciação da realidade toda-inclusiva contida nesse olhar sobre a Realidade Una.”
  • A doutrina é expressão exteriorizada da mais alta realização, e não um pré-requisito indispensável a ela.

O encontro de Ibn Arabi com Ibn Rushd ilustra a possibilidade excepcional de se atingir a realização sem estudo prévio, confirmando simultaneamente a validade geral do estudo doutrinário como regra.

  • Ibn Rushd agradeceu a Deus por ter visto em sua época alguém “entrar em retirada ignorante e sair dessa forma — sem estudo, discussão, investigação nem leitura.”
  • A exceção confirma a regra: o estudo doutrinário possui validade e utilidade gerais, sem que se lhe atribua necessidade absoluta, dados os imponderáveis da graça divina.
  • Ibn Arabi atingiu o conhecimento da Realidade divina sem tê-lo explicitamente buscado — “Deus se abriu a mim sem consideração ou leitura racionais, mas por uma retirada em que estava só com Deus, mesmo não buscando tal Conhecimento.”

A doutrina da Realidade divina guarda incomensurabilidade essencial com a própria Realidade tal como ela é em si mesma, pois nenhum livro poderia conter a totalidade do que foi dado ao cognoscente.

  • O que está depositado em cada capítulo das volumosas Futuhat é uma gota d'água comparada ao oceano.
  • As Fusus contêm apenas o que Deus ditou a Ibn Arabi, não tudo o que lhe foi dado — “nenhum livro poderia conter a totalidade.”
  • Uma definição completa da Realidade é impossível, embora isso não prive o estudo doutrinário de todo valor.

O estudo aprofundado da doutrina revela significados e ramificações espirituais implícitos, de modo análogo ao estudo das Escrituras reveladas e seus níveis de sentido mais profundos.

  • “Quando as Escrituras falam da Realidade, o fazem de maneira que fornece à generalidade dos homens o significado imediatamente aparente.”
  • “A elite, por outro lado, compreende todos os significados inerentes ao enunciado, quaisquer que sejam os termos em que é expresso.”

Há duas razões sólidas para tomar as doutrinas de Ibn Arabi como pontos de partida conceituais sérios: sua origem em iluminação transcendente ao esforço individual, e o caráter inspirado do próprio processo de diferenciação do olhar único.

  • As doutrinas reivindicam ser expressão de uma iluminação concedida ao indivíduo como tal, ultrapassando-o.
  • As Fusus foram “ditadas” a Ibn Arabi, e as Futuhat teriam sido escritas sem que uma única letra fosse produzida sem ditado divino e projeção senhorial.
  • As concepções doutrinárias podem atualizar a receptividade a tipos de contemplação, funcionando como pré-requisitos para realizações correspondentes — mas sem alcançar o nível transcendente.
  • Doutrinas e crenças também podem constituir obstáculos ao nível transcendente, na medida em que “ligam” o Divino a concepções particulares.

A distinção crucial dentro da ordem divina opõe o Nível ou Divindade à Essência, sendo esta última a sede exclusiva da Realidade absoluta, acessível apenas por via apofática.

  • Todas as realidades existenciadas e relativas encontram seu princípio imediato no Nível da Divindade.
  • A Essência não pode ser designada por afirmações positivas — “Aquele que supõe ter conhecimento de atributos positivos do Si o supõe erroneamente. Pois tal atributo O definiria, enquanto Sua Essência é isenta de definição.”

A Realidade, em sua totalidade, só pode ser una, de modo que o ser relativo não pode ser separado, em sua essência, do que não admite delimitação — e a própria infinitude do Real implica necessariamente uma dimensão de finitude.

  • O Real não delimitado não pode ser delimitado, por sua própria não delimitação, a não poder assumir o ser delimitado.
  • A ausência do finito limitaria o Infinito, tornando-o imperfeito — donde a manifestação de realidades delimitadas ser expressão necessária da Possibilidade infinita.
  • Ibn Arabi estabelece a distinção entre a incomparabilidade divina — não delimitação — e a similitude divina — delimitação: “Não O declares não delimitado, e por isso mesmo delimitado pelo fato de ser distinguido da delimitação! Pois se Ele é distinguido, então é delimitado por Sua não delimitação.”

Os dois aspectos do Divino — incomparabilidade e similitude — devem ser simultânea e intuitivamente afirmados, de modo que a relatividade seja vista como dimensão intrínseca do Absoluto e não como algo exterior a ele.

  • A dimensão da similitude corresponde à Ipseidade imanente que penetra tudo o que existe e sem a qual nada poderia existir.
  • O plano da Manifestação é relativo e delimitado, enquanto a Realidade essencial do que é manifestado não é senão o Absoluto Uno.
  • A não delimitação ou infinitude do Real pressupõe a manifestação de realidades delimitadas — o relativo é identificado ao Absoluto na unidade essencial da Realidade, mas claramente distinguido dele quanto à realidade exclusiva da Essência.

A perfeição do ser exige necessariamente um aspecto aparente de imperfeição, pois sem imperfeição a própria perfeição da existência seria imperfeita.

  • “Faz parte da perfeição da existência a existência da imperfeição em seu seio, pois se não houvesse imperfeição, a perfeição da existência seria imperfeita.”
  • O termo arabe wujud deve ser traduzido rigorosamente como “ser”, distinguindo-o de “existência” — o que existe é o que “se encontra fora do” ser.
  • Deus como Criador identifica-se ao Ser e é fonte de toda existência; Deus como Essência transcende de tal modo o cosmos criado que não se pode dizer que tenha qualquer relação com ele.
  • A inacessibilidade da Essência corresponde à noção de tanzih; a dimensão da relação e da similitude corresponde ao tashbih.

A Divindade ou Nível pode ser identificada ao Ser, princípio primordial que determina e compreende em si tudo o que pode possuir um grau de ser, sendo o ato criador do Deus pessoal nesse nível o que existencia todos os existentes relativos.

  • O ato criador é a injunção divina “Kun!” — “Sê!” — dirigida a uma possibilidade que assim adquire existência.
  • O termo árabe para cosmos, al-kawn, refere-se diretamente a essa ordem existenciadora — o cosmos é o que vem à existência pela palavra divina.
  • O Nível da Divindade é o desdobramento da Essência em vista de sua Auto-manifestação; todos os Nomes divinos — Criador, Juiz etc. — pertencem ao Nível, não à Essência.
  • “Não é exato que o Real e a criação se unam de qualquer modo sob o aspecto da Essência, mas somente sob o aspecto da Essência designada pela Divindade.”

É apenas quando a Essência é dotada de um grau de forma — a Divindade — que se torna possível qualquer relação entre o Real e o mundo, conferindo ao mundo um grau aparente de realidade e ao Real um grau aparente de relatividade.

  • Somente na Essência e enquanto Essência o Real abstrai-se da realidade implicada na relação com o mundo múltiplo.
  • O cosmos, enquanto diferenciado de modo múltiplo, é “imaginação” ou “outro que Deus”; é dito real apenas quanto à existência única que lhe é concedida.
  • A relação entre o mundo e Deus é comparada à de uma sombra com aquele que a projeta — “O cosmos é, em relação à Realidade, como uma sombra em relação ao que a projeta.”

As essências imutáveis — os arquétipos ou entidades — não manifestadas em si mesmas e existentes apenas como possibilidades puramente inteligíveis, determinam todos os estados das coisas às quais o Ser empresta existência.

  • A sombra do Ser, inseparável do Ser e portanto real em relação à fonte de sua projeção, assume natureza múltipla quando considerada em relação às essências sobre as quais se projeta.
  • “A sombra não é nada além d'Ele. Tudo o que percebemos não é senão o Ser da Realidade nas essências dos seres contingentes.”
  • “Em referência à Identidade da Realidade, ela é Seu Ser; em referência à variedade de suas formas, é constituída das essências dos seres contingentes.”

Tudo o que recebe um grau de ser é simultaneamente real e ilusório — real em sua participação interior no Ser, mas ilusório por ser efêmero e por ser exteriormente uma forma entre uma multiplicidade.

  • “O cosmos não é senão uma coisa imaginária sem existência real.”
  • “Sabe que tu és uma imaginação, como é uma imaginação tudo o que consideras como outro que ti mesmo.”
  • “Toda existência é uma imaginação dentro de uma imaginação, sendo a única Realidade Deus, como Si e como Essência, não no que concerne a Seus Nomes.”
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