HERMETISMO
Um dos resultados mais importantes do contato entre as tradições egípcia e grega em Alexandria foi o surgimento de uma escola de sabedoria específica conhecida como hermetismo, que deixou uma marca profunda na ciência e na filosofia do mundo ocidental e do Islã. Durante a Idade Média, cristãos, judeus e muçulmanos consideravam Hermes o fundador das ciências. Na verdade, os tratados atribuídos a ele foram estudados por estudiosos de quase todos os ramos da ciência. Naquela época, figuras muçulmanas como Jâbir ibn Hayyân, os lkhwân al Jildak, al Majrîtî, lbn Sînâ — Avicena — e Sohrawardî, bem como importantes pensadores europeus como Ramon Llull, Alberto Magno, Roger Bacon e Roberto Grosseteste, foram profundamente influenciados pelo hermetismo, os ocidentais principalmente por meio do contato com fontes islâmicas. Também durante o Renascimento observou-se um interesse renovado pela tradição hermética nos escritos de cientistas e filósofos tão célebres como Ficino, Agrippa, Paracelso e até mesmo Bruno. Vale acrescentar que os pensadores do Renascimento utilizaram o hermetismo para destronar a cosmovisão aristotélica dominante e, em certos casos, até mesmo o próprio cristianismo.
Mesmo no século XVII, apesar da mudança de perspectiva ocorrida nas ciências da natureza, o interesse pelo hermetismo foi mantido por figuras tão centrais da ciência moderna como Newton e Boyle, e persistiu na Inglaterra até bem entrado o século XVIII. Também na Alemanha, o grande gnóstico Jacob Boehme adotou a linguagem hermética. Por meio dele, a influência dessa escola pode ser percebida na poesia de Goethe, bem como na escola da Naturphilosophie. Em resumo, o hermetismo, com sua filosofia da natureza e sua cosmologia particulares, exerceu profunda influência tanto na civilização ocidental quanto no Islã. A investigação das origens e doutrinas dessa escola é, portanto, um meio de descobrir a natureza de um dos fios mais importantes da trama da vida intelectual tanto do Islã quanto do cristianismo. Tal investigação é particularmente relevante para a compreensão de uma forma especial de ciência e filosofia que se desenvolveu na época medieval e que subsistiu ao lado das disciplinas intelectuais aristotélicas mais conhecidas.
