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BUDISMO
THE MYSTICS OF ISLAM. Reynold A. Nicholson. Routledge, Kegan Paul, London, 1914
- Antes da conquista maometana da Índia no século XI, o ensinamento de Buda exerceu considerável influência na Pérsia Oriental e na Transoxiana, tendo florescido mosteiros budistas em Balkh, metrópole da antiga Báctria, cidade notória pelo número de sufis que nela residiam.
- Balkh era reconhecida como centro tanto do budismo quanto do sufismo na região
- O professor Goldziher chamou atenção para a circunstância significativa de que o asceta sufi Ibráhím ibn Adham aparece na lenda muçulmana como um príncipe de Balkh que abandonou o trono e se tornou dervixe errante — a história de Buda repetida
- Os sufis aprenderam o uso de rosários com monges budistas
- O método do sufismo, enquanto cultivo ético de si, meditação ascética e abstração intelectual, deve bastante ao budismo
- Embora haja traços comuns entre budismo e sufismo, os dois sistemas são diametralmente opostos em espírito, pois o budista se moraliza a si mesmo, enquanto o sufi se torna moral apenas pelo conhecimento e amor a Deus.
- A semelhança superficial entre os sistemas acentua, por contraste, sua diferença fundamental
- A concepção sufi do desvanecimento — fana — do eu individual no Ser Universal é de origem indiana, e seu primeiro grande expoente foi o místico persa Báyazíd de Bistám, que pode ter recebido tal doutrina de seu mestre Abú Ali do Sind.
- Báyazíd de Bistám: místico persa, considerado o primeiro grande expositor da doutrina do fana
- Abú Ali do Sind: mestre de Báyazíd, possivelmente responsável pela transmissão da ideia
- Dito de Báyazíd: “As criaturas estão sujeitas a 'estados' mutáveis, mas o gnóstico não tem 'estado', porque seus vestígios foram apagados e sua essência aniquilada pela essência de outro, e seus traços se perderam nos traços de outro.”
- Dito de Báyazíd: “Por trinta anos o Deus altíssimo foi meu espelho; agora sou meu próprio espelho” — o que significa, segundo seu biógrafo, que aquilo que era já não é mais, pois dizer “eu” e “Deus” nega a unidade de Deus; cessando o eu, o Deus altíssimo é seu próprio espelho
- Dito de Báyazíd: “Fui de Deus a Deus, até que clamaram de mim em mim: Ó Tu, Eu!”
- O fana sufi não se identifica sem reservas com o Nirvana budista, pois ambos implicam o desvanecimento da individualidade, mas enquanto o Nirvana é puramente negativo, o fana é acompanhado pelo baga — a vida eterna em Deus — e o êxtase do sufi se opõe à serenidade intelectual impassível do Arahat.
- Nirvana: extinção da individualidade, de caráter puramente negativo
- Fana: desvanecimento do eu, sempre acompanhado pelo baga, a permanência ou vida eterna em Deus
- Arahat: o iluminado budista, caracterizado pela serenidade intelectual sem paixão
- A influência do budismo sobre o pensamento maometano tem sido exagerada; muito do que se atribui ao budismo é indiano em sentido mais amplo, não especificamente budista
- O fana é antes um caso de panteísmo do Vedanta do que de budismo propriamente dito
- Os muçulmanos comuns tinham os seguidores de Buda em aversão, considerando-os idólatras, o que dificultava o contato direto
- Por quase mil anos antes da conquista maometana, o budismo foi poderoso na Báctria e na Pérsia Oriental, devendo ter influenciado o desenvolvimento do sufismo nessas regiões
- Embora o fana em sua forma panteísta seja radicalmente distinto do Nirvana, os dois termos coincidem de modo suficientemente próximo para que não se possam considerar inteiramente desconectados, pois o fana possui um aspecto ético — a extinção de todas as paixões e desejos — que encontra paralelo quase literal na definição de Nirvana proposta pelo professor Rhys Davids.
- Rhys Davids, T. W.: orientalista britânico que definiu o Nirvana como a extinção da condição pecaminosa e ávida da mente e do coração, que de outro modo seria, pelo grande mistério do Karma, causa de nova existência individual — extinção que se dá em paralelo com o crescimento da condição oposta da mente e do coração, completando-se quando essa condição oposta é alcançada
- A doutrina do Karma é alheia ao sufismo, mas, abstraída essa diferença, as definições de fana e Nirvana concordam quase palavra por palavra
- Conclui-se que a teoria sufi do fana foi influenciada em alguma medida tanto pelo budismo quanto pelo panteísmo perso-indiano
- A receptividade do islã a ideias estrangeiras é reconhecida por todo investigador imparcial, mas esse fato não deve levar a buscar nessas ideias a explicação integral do sufismo, nem a identificar o sufismo com os ingredientes externos que absorveu ao longo de seu desenvolvimento, pois sementes de misticismo já existiam dentro do próprio islã.
- Mesmo que o islã tivesse sido isolado de contato com religiões e filosofias estrangeiras, alguma forma de misticismo teria surgido em seu interior
- As fortes correntes de pensamento introduzidas no mundo maometano pelos grandes sistemas não islâmicos estimularam tendências internas ao islã que afetaram o sufismo positiva ou negativamente
- O tipo mais antigo de sufismo é uma revolta ascética contra o luxo e a mundanidade
- O racionalismo e o ceticismo prevalecentes provocaram contramovimentos em direção ao conhecimento intuitivo e à fé emocional
- Uma reação ortodoxa, por sua vez, impeliu muitos muçulmanos fervorosos às fileiras dos místicos
- Embora o islã esteja fundado no monoteísmo simples e austero de Maomé, o que tornaria aparentemente impossível conciliar a personalidade transcendente de Alá com uma Realidade imanente que seria a própria vida e alma do universo, o islã aceitou o sufismo, e os sufis estão solidamente estabelecidos na Igreja maometana.
- A Lenda dos Santos Muçulmanos registra os mais extremos excessos do panteísmo oriental
- A pergunta que se impõe é como uma religião de tal base pôde tolerar e mesmo incorporar tais doutrinas
- O Alcorão, pedra de toque infalível de toda teoria e prática maometana, não é inteiramente contrário ao misticismo, pois embora parta da noção de Alá como Deus único, eterno e onipotente — distante das aspirações humanas, juiz severo, Deus do temor mais do que do amor — Maomé também sentia Deus como próximo e imanente, senhor que age no mundo e na alma do ser humano.
- O Alcorão, Sura 2, verso 182: “Se meus servos te perguntarem sobre Mim, eis que estou perto”
- O Alcorão, Sura 50, verso 15: “Nós (Deus) estamos mais perto dele do que sua própria veia jugular”
- O Alcorão, Sura 51, versos 20-21: “E na terra há sinais para os que têm fé verdadeira, e em vós mesmos. Acaso não vedes?”
- O aspecto transcendente de Alá é o mais proeminente no ensinamento de Maomé, mas seu instinto mais profundo ansiava por uma revelação direta de Deus à alma
- A consciência muçulmana, assombrada por visões aterradoras da ira vindoura, despertou lenta e dolorosamente para o significado dessas ideias libertadoras
- Embora o Alcorão como um todo não seja favorável ao misticismo, ele fornece base suficiente para uma interpretação mística do islã, a qual foi elaborada em detalhe pelos sufis, que trataram o Alcorão de modo muito semelhante ao que Fílon fez com o Pentateuco — e sua vitória junto à massa dos muçulmanos religiosos se explica em parte pela alternativa oferecida pela ortodoxia escolástica, que reduzia a natureza divina a uma unidade formal, imutável e absoluta, uma vontade nua desprovida de afetos, com a qual nenhuma criatura humana poderia ter comunhão ou intercâmbio pessoal.
- Fílon de Alexandria: filósofo judeu-helenístico conhecido pela interpretação alegórica do Pentateuco, cujo método é comparado ao dos sufis em relação ao Alcorão
- O Deus da teologia maometana escolástica era uma força tremenda e incalculável, sem qualquer possibilidade de comunhão com o ser humano
- Diante dessa alternativa, o professor D. B. Macdonald — uma das maiores autoridades no assunto — observou que todos os muçulmanos que pensam religiosamente são místicos
- Macdonald acrescentou: “Todos são também panteístas, mas alguns não o sabem”
- A relação dos sufis individuais com o islã varia desde a conformidade mais ou menos plena até a mera profissão nominal de fé em Alá e Seu Profeta, pois o sufi, possuindo uma doutrina derivada imediatamente de Deus, não reconhece nenhuma autoridade externa que decida o que é ortodoxo ou herético — e ao ler o Alcorão com meditação atenta, os sentidos ocultos da Palavra Sagrada se revelam ao olho interior por meio do que os sufis chamam de istinbat.
- Istinbat: dedução intuitiva — influxo misterioso de conhecimento divinamente revelado em corações purificados pelo arrependimento e preenchidos pelo pensamento de Deus, e o efluxo desse conhecimento pela língua que interpreta
- As doutrinas extraídas por meio do istinbat não concordam nem com a teologia maometana nem entre si
- A discordância é explicada pelos próprios sufis: teólogos que interpretam a letra não podem alcançar as mesmas conclusões que os místicos que interpretam o espírito
- A variedade da verdade mística corresponde aos múltiplos graus e modos da experiência mística
- Muitos sufis foram bons muçulmanos, muitos mal o foram, e uma terceira parte — talvez a maior — foram muçulmanos a seu modo, sendo que o islamismo ortodoxa em sua forma presente deve muito a Ghazali, que era ele próprio um sufi.
- Ghazali: teólogo e místico muçulmano que harmonizou a interpretação sufista do islã com as exigências da razão e da tradição, sendo por isso menos valioso do que místicos de tipo mais puro para o estudo do que o sufismo essencialmente é
- Durante a Alta Idade Média, o islã era um organismo em crescimento, transformado gradualmente por diversos movimentos, dos quais o próprio sufismo era um
- As inúmeras definições de sufismo que ocorrem em livros árabes e persas são historicamente interessantes, mas sua principal importância está em mostrar que o sufismo é indefinível, como ilustra Jalaluddin Rumi em seu Masnavi com a parábola do elefante num quarto escuro, em que cada pessoa que o toca descreve apenas a parte que palpou.
- Na parábola, quem tocou a tromba disse que o animal se assemelhava a um cano d'água; quem tocou a orelha disse que devia ser um grande leque; quem tocou a perna pensou que era uma coluna; quem tocou o dorso declarou que a besta se assemelhava a um imenso trono
- Não há fórmula concebível que abranja todos os matizes do sentimento religioso pessoal e íntimo
- Diversas definições de sufismo ilustram, com conveniência e brevidade, certos aspectos e características do fenômeno, ainda que nenhuma o abarque por completo.
- “O sufismo é isto: que ações estejam se passando sobre o sufi — sendo realizadas nele — conhecidas apenas por Deus, e que ele esteja sempre com Deus de um modo conhecido apenas por Deus.”
- “O sufismo é inteiramente autodisciplina.”
- “O sufismo é não possuir nada e não ser possuído por nada.”
- “O sufismo não é um sistema composto de regras ou ciências, mas uma disposição moral; pois se fosse uma regra, poderia ser adquirido pelo esforço árduo, e se fosse uma ciência, poderia ser aprendido por instrução; ao contrário, é uma disposição, conforme o dito: Formai-vos segundo a natureza moral de Deus — e a natureza moral de Deus não pode ser alcançada nem por regras nem por ciências.”
- “O sufismo é liberdade, generosidade e ausência de constrangimento de si.”
- “É isto: que Deus te faça morrer para ti mesmo e te faça viver Nele.”
- “Contemplar a imperfeição do mundo fenomênico — mais ainda, fechar os olhos a tudo o que é imperfeito na contemplação Daquele que está distante de toda imperfeição — isso é sufismo.”
- “O sufismo é o controle das faculdades e a observância dos sopros.”
- “É sufismo pôr de lado o que tens na cabeça, dar o que tens na mão, e não recuar diante do que quer que te aconteça.”
- O sufismo é uma palavra que une muitos significados divergentes, e ao esboçar seus traços principais é preciso compor um retrato composto que não representa nenhum tipo particular de modo exclusivo, pois os sufis não são uma seita, não possuem sistema dogmático, e as tarikas — os caminhos pelos quais buscam Deus — são em número igual ao das almas dos homens.
- Tarikas: caminhos ou ordens sufis, variando infinitamente, embora guardem entre si uma semelhança de família
- A essência do sufismo se manifesta melhor em seu tipo extremo, que é panteísta e especulativo, em vez de ascético ou devocional
- Esse tipo extremo foi intencionalmente colocado em primeiro plano na análise do fenômeno
- Para uma apreciação justa do misticismo maometano, os tipos moderados — aqui tratados de forma insuficiente por falta de espaço — precisam também ser considerados
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