NEOPLATONISMO
THE MYSTICS OF ISLAM. Reynold A. Nicholson. Routledge, Kegan Paul, London, 1914
Aristóteles, e não Platão, é a figura dominante na filosofia muçulmana, e poucos muçulmanos conhecem o nome de Plotino, que era mais comumente chamado de “o Mestre Grego” (al-Sheykh al-Yaunani). Mas, como os árabes adquiriram seu primeiro conhecimento de Aristóteles por meio de seus comentadores neoplatônicos, o sistema pelo qual se imbuíram foi o de Porfírio e Proclo. Assim, a chamada Teologia de Aristóteles, cuja versão árabe surgiu no século IX, é na verdade um manual de neoplatonismo.
Outra obra dessa escola merece destaque especial: refiro-me aos escritos falsamente atribuídos a Dionísio, o Areopagita, o convertido de São Paulo. O pseudo-Dionísio — que pode ter sido um monge sírio — cita como seu mestre um certo Hieroteu, a quem Frothingham identificou com Estêvão Bar Sudaili, um proeminente gnóstico sírio e contemporâneo de Jacó de Saruj (451-521 d.C.). Dionísio cita alguns fragmentos de hinos eróticos desse Estêvão, e uma obra completa, o Livro de Hieroteu sobre os Mistérios Ocultos da Divindade, chegou até nós em um manuscrito único que hoje se encontra no Museu Britânico. Os escritos dionisianos, traduzidos para o latim por João Escoto Erígena, fundaram o misticismo cristão medieval na Europa Ocidental. Sua influência no Oriente foi quase tão vital. Foram traduzidos do grego para o siríaco quase imediatamente após seu surgimento, e sua doutrina foi vigorosamente propagada por comentários na mesma língua. “Por volta de 850 d.C., Dionísio era conhecido desde o Tigre até o Atlântico.”
Além da tradição literária, havia outros canais pelos quais as doutrinas da emanação, iluminação, gnose e êxtase foram transmitidas, mas já foi dito o suficiente para convencer o leitor de que as ideias místicas gregas estavam no ar e eram facilmente acessíveis aos habitantes muçulmanos da Ásia Ocidental e do Egito, onde a teosofia sufi tomou forma pela primeira vez. Um dos que desempenhou papel principal em seu desenvolvimento, Dhu ’l-Nun, o egípcio, é descrito como filósofo e alquimista — em outras palavras, um estudioso da ciência helenística. Quando se acrescenta que grande parte de sua especulação coincide com o que encontramos, por exemplo, nos escritos de Dionísio, somos irresistivelmente levados à conclusão (que, como já apontei, é altamente provável por motivos gerais) de que o neoplatonismo infundiu no Islã uma grande dose do mesmo elemento místico no qual o cristianismo já estava imerso.
