ROUDAKI : FRAGMENTOS DE SUA OBRA
HMAP
A vaidade deste mundo.
Todos os poderosos deste mundo pereceram; todos mergulharam a cabeça na morte. Todos partiram para o submundo, esses poderosos que ergueram todos aqueles grandes edifícios; e, de todos aqueles milhares de bens e prazeres, nada levaram consigo, a não ser um sudário, no fim. As roupas que vestiram e o que comeram, tudo o que receberam não passava de uma graça. (Badi'oz-Zamân, p. 3.)
Mesmo assunto.
Seja nossa vida curta ou longa, não teremos que morrer no fim? Nosso pescoço será preso pelo laço, mesmo que a corda seja longa. Quer você viva sua existência na dor e na adversidade, ou na tranquilidade entre bens e prazeres, quer receba poucas coisas deste mundo, ou tenha conquistado desde Rey até Tarâz, tudo isso não passa de vento que o diabo lança sobre nossa alma, é um sonho cujo valor é o de uma alegoria. No dia de tua morte, todas essas coisas terão o mesmo valor e não distinguirás mais uns dos outros todos esses bens. (Ibid.)
Mesmo assunto.
Neste mundo, vivemos exatamente como em um sonho; quem tem o coração desperto sabe disso muito bem. Todos os bens deste mundo são precários; as alegrias que ele oferece estão misturadas com preocupações. Por que, então, te fixar firmemente neste mundo, quando toda a sua obra carece de estabilidade? É belo, mas cruel para aqueles que o conhecem; parece-nos encantador, mas só causa o mal. (Citado em Balhaqi, Tarihr, ed. Teerã, 1324/1946, p. 11.)
Carpe diem.
Vive, pois, alegre, com as belas de olhos negros! O mundo deste lado não passa de sonho e de vento. É preciso saber contentar-se com o que vem; do que já passou, não se deve mais falar. Desfrutemos desta bela de cachos perfumados, de rosto lunar — uma das Huris! Feliz aquele que soube dar e aproveitar! Mas infeliz aquele que fez o contrário! Ai de mim, este mundo não passa de vento e nuvens. Dá-nos, pois, de beber! Aconteça o que acontecer! (Lobâb, II, p. 9,1. 5.)
Minha juventude, ai de mim!…
Meus dentes, que outrora brilhavam como uma tocha, se desintegraram e caíram todos; eram faixas de prata, eram pérolas e corais, ou a estrela da manhã, ou a gota de chuva… E todas agora estão gastas ou caíram! De onde vem esse azar? Sem dúvida de Saturno… Nem de Saturno, não! Nem do Tempo infinito. Eis a verdade: é o decreto de Deus! Pois o mundo está em constante evolução; ele sofre essa lei desde que foi criado; transforma em dor o que era remédio e, em muito pouco tempo, do novo faz o velho. Quantos jardins… risonhos se tornaram desertos sombrios! Como, então, saberás o que eu fui outrora, tu, minha beleza lunar de cabelos perfumados? Orgulhosa de teus cabelos cacheados, fazes caretas; mas não me viste quando eu tinha cabelos! Já passou aquele tempo: em que eu era sedutor, em que estava cheio de alegria, mesmo sem dinheiro. Muitas moças encantadoras tinham um fraco por mim; às escondidas, à noite, eu ia encontrá-las. Sempre alegre, eu ignorava o que era a tristeza; para o prazer, meu coração era um vasto circo. Quantos corações eu amoleci, graças à minha poesia, tão flexíveis quanto a seda, quando antes eram tão duros quanto a pedra ou a bigorna! Naquela época, eu não tinha nem mulher nem filhos; de tudo isso eu estava completamente livre. Minha bela! Tu vês apenas um Roudaki envelhecido; mas não me viste nos dias da minha juventude, naqueles dias em que eu ia, percorrendo as pradarias, semelhante ao rouxinol, cantando minhas poesias. (Ethe, Beiträge zur Kenntnis der ältesten Epoche der persischen Poesie, n.º 6, Göttingen, 1873.) .
