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PURGATÓRIO: IBN ARABI
EMDC
- Ibn Arabi, glosando em seu Futuhat as palavras atribuídas a Maomé sobre o tema, afirma que as almas que não entrarão no inferno serão detidas no sirat, onde serão chamadas a estreita conta de suas culpas e receberão castigo, e que o sirat ou sendeiro estará sobre o dorso do inferno, sendo somente por ele que se poderá entrar no paraíso.
- Sirat: sendeiro ou ponte sobre o inferno que as almas devem percorrer para chegar ao paraíso, segundo a tradição islâmica
- Em outro lugar Ibn Arabi precisa que o sirat se erguerá da terra em linha reta até a superfície da esfera das estrelas, e que seu término será uma pradaria que se estende ao exterior dos muros do paraíso celestial — denominada paraíso das delícias — para onde os seres humanos entrarão primeiramente
- Esses traços topográficos correspondem com precisão à montanha do purgatório dantesco, que também se ergue retamente da terra até tocar a esfera celeste, e em cujo cume se situa o jardim do paraíso terreno como vestíbulo do céu
- Outras lendas desdobram esse sirat único em dois, supondo que, percorrido o sendeiro principal por todas as almas, serão novamente encarceradas em um segundo sirat as que saíram ilesas da primeira prova sem cair no inferno — e mais concretamente esse desdobramento aparece nas tradições que concebem o segundo passo como um edifício altíssimo chamado cântara, entre o inferno e o céu, que serve de lugar de expiação temporal.
- Cântara: edifício altíssimo entre o inferno e o céu que serve de lugar de expiação temporal segundo certas tradições islâmicas
- Na cântara as almas ficam detidas até que restituam mutuamente as dívidas contraídas com suas culpas neste mundo e se tornem limpas e puras
- Uma vez concluída a expiação, os anjos as acolhem com frases de benevolência, dão-lhes os parabéns por poderem entrar puras no céu para toda a eternidade e as guiam pelo caminho até que nele penetrem
- A semelhança entre o purgatório islâmico e o dantesco torna-se identidade quando, nas mãos dos místicos, a primitiva cântara ou lugar de expiação se desdobra e multiplica em um número variadíssimo de estâncias, câmaras, recintos e moradas em que as almas vão progressiva e separadamente purificando-se de seus vícios.
- Ibn Arabi é quem com maior riqueza de pormenores conservou a extensa lenda profética que descreve escrupulosamente essa subdivisão do purgatório islâmico, pondo-a na boca de Ali — genro de Maomé — mas como narrada por este
- Ali: genro do Profeta Maomé, a quem é atribuída a narração da lenda do purgatório islâmico conservada por Ibn Arabi
- Cinquenta são no total as estâncias enumeradas nessa lenda, distribuídas em quatro agrupamentos principais
- A mais relevante para o cotejo com Dante é a última, pois à semelhança do purgatório dantesco consta de sete câmaras ou recintos diferentes que Ibn Arabi denomina pontes ou passos escorregadios cheios de árduos e difíceis obstáculos, para superar os quais a alma haverá de ir subindo uma após outra sete íngremes rampas cuja elevação hiperbólica se mede por milhares de anos
- O critério de classificação para distinguir essas diferentes mansões de prova e expiação é também exatamente igual ao dantesco — um critério ético baseado nos sete pecados que são capitais dentro do islã, a saber, os opostos a seus sete preceitos religiosos: fé, oração, jejum, esmola, peregrinação, ablução e injustiça contra o próximo
- A fantasia e inventividade popular, uma vez nessa direção, não se satisfez com essa topografia exígua e além das sete mansões expiatórias dos pecados capitais concebeu outros purgatórios parciais cujas estâncias, câmaras ou recintos em número variado de dez, doze ou quinze obedecem a iguais critérios éticos, embora nem sempre brilhe neles a lógica e o sistema característicos do filósofo ou do teólogo, e sim o pruído casuístico do moralista que tende a não deixar sem expiação condigna nenhum vício, grande ou pequeno.
- Nessas classificações desordenadas mesclam-se os mais heterogêneos pecados e defeitos
- A escatologia islâmica havia concebido o lugar de expiação com tão rica e profusa variedade de descrições topográficas — todas pertencentes ao mesmo tipo posteriormente concebido por Dante — que a presumida originalidade deste deve ficar reduzida a proporções muito exíguas no que toca à topografia
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