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VIDA GLORIOSA: IBN ARABI
EMDC
- A descrição minuciosa e pitoresca da vida gloriosa segundo Ibn Arabi — que preenche muitas páginas do Futuhat — começa com os bem-aventurados reunidos em torno da cândida colina em cujo cume há de ter lugar a epifania da divindade, e depois de ocuparem cada grupo seu grau próprio, de pé em seus respectivos assentos e vestidos de gloriosas túnicas de incomparável beleza, uma bela luz os ofusca e os faz cair prostrados.
- Essa luz se propaga rapidamente através dos olhos exteriormente e das inteligências interiormente, penetrando até as partículas todas de seus corpos e os mais sutis recantos de suas almas, de tal modo que cada bem-aventurado se transforma todo ele em olho e ouvido, vendo com sua essência inteira sem que a visão se restrinja a uma parte determinada de seu ser
- Vem em seguida o Profeta e lhes diz: “Preparai-vos para a visão de vosso Senhor, pois eis que se vos vai manifestar”
- Três véus ocultam Deus aos olhares das criaturas — o véu da glória, o da majestade e o da grandeza — e quando Deus ordena que se descerrem, a Verdade se lhes manifesta como única e simples, embora manifesta sob a dupla epifania de seus dois nomes: O Formoso e O Bom
- Todos os eleitos o veem como se todos fossem uma só vista, um só olho; o relâmpago daquela luz se difunde sobre todos eles e circula através de suas essências; a beleza do Senhor os deixa estupefatos e o brilho daquela santíssima beleza comunica seu esplendor às essências de todos os eleitos
- A visão beatífica, una e a mesma em si para todos, possui diferentes graus acidentais segundo o modo pelo qual cada eleito conheceu a Deus em vida — pela fé recebida de Deus, pela especulação racional, pela ilustração mística ou por uma combinação dessas faculdades.
- Cada profeta que recebeu de Deus a inspiração sobrenatural experimentará então a presença de seu Senhor vendo-o com o mesmo olho de sua fé
- O santo que seguiu no mundo as pegadas do profeta o verá no espelho de seu profeta; se adquiriu além disso um conhecimento especulativo de Deus pela razão, terá dois modos de visão beatífica — visão de ciência e visão de fé
- Os que em vida obtiveram de Deus somente a intuição mística ocuparão na glória um grau isolado e à parte de todos os outros eleitos
- A visão beatífica será como uma consequência das crenças e convicções dogmáticas professadas na vida terrena — aquele cujas ideias teológicas procedam a um tempo da razão pura especulativa, da ilustração mística e da submissão cega à autoridade do profeta verá a Deus sob cada um dos três aspectos correspondentes
- Os que foram homens de especulação racional serão inferiores na visão beatífica aos místicos ou contemplativos, porque o raciocínio, como véu, se interporá entre eles e a Verdade divina
- A visão beatífica pura de toda mistura estranha será patrimônio exclusivo dos profetas e dos místicos que gozaram, como eles, de uma ilustração sobrenatural
- A cada grau de visão, mais ou menos perfeita e pura, corresponde um grau proporcional de gozo, deleite ou fruição — haverá santos para os quais esse gozo será puramente ideal ou intelectual, para outros anímico ou emocional, para outros fisicamente sensível, para outros imaginativo, e assim por diante.
- Quanto ao vulgo dos fiéis, o deleite derivado de sua visão beatífica será proporcional ao que cada um foi capaz de compreender dos dogmas teológicos ensinados pelos doutores a cujas doutrinas se submeteram
- Como a mentalidade do vulgo é principalmente imaginativa, não tendo podido abstrair da matéria as representações mentais que formou acerca de Deus nesta vida, não lograrão outro deleite senão o imaginativo em sua visão beatífica
- Sorte análoga caberá à maioria dos homens de ciência racional, pois são poucos os que podem conceber a abstração absoluta ou universal de toda matéria
- Daí nasce que a maior parte das verdades reveladas por Deus na lei religiosa o foram em forma apta à compreensão do vulgo, embora sempre acompanhadas de vagas alusões inteligíveis somente à minoria seleta
- Ibn Arabi precisa e resume sua doutrina acrescentando que no ato da visão beatífica Deus se manifesta aos eleitos em uma epifania geral ou comum, diversificada segundo as várias formas que dependem das peculiares concepções mentais que de Deus se formaram em vida — a epifania é, pois, una e simples em si enquanto tal epifania, e múltipla por razão da diferença de formas sob as quais é recebida.
- Cada bem-aventurado aparece, se faz evidente, resplandece mediante a luz da forma divina que vê ou experimenta — quem possuiu em vida conhecimento de todos os dogmas divinos terá consigo a luz correspondente a todos eles, e quem só conheceu um determinado dogma possuirá unicamente a luz daquele dogma particular
- Essa iluminação visível que inunda os eleitos se difunde e comunica a seu exterior, de modo que tudo o que os rodeia aparece também tingido da luz que adquirem na divina epifania e que neles se reflete como em espelho
- Durante o momento da presença ou experiência da visão beatífica, os eleitos caem no êxtase, perdem a consciência de seu próprio ser e por isso não experimentam o gozo de sua visão — o deleite que começam a sentir no instante primeiro da epifania divina os subyuga com tal império que os priva da consciência de sua própria fruição e de sua individualidade, de modo que estão gozando sem se dar conta de que gozam, em força da intensidade do gozo
- Quando depois veem aquela forma da manifestação divina refletida em suas mansões e nos demais eleitos, então experimentam aquela mesma fruição de modo mais fixo ou permanente e sem a inconsciência do êxtase
- As diferenças de grau de glória — a maior ou menor claridade na visão beatífica, o gozo mais ou menos intenso, o esplendor mais ou menos refulgente das almas e corpos, a maior ou menor proximidade em relação a Deus — não engendram nem podem engendrar pena, desgosto ou inveja no espírito dos que ocupam graus inferiores, pois cada indivíduo conhece seu grau próprio com conhecimento necessário, tende para ele como o ferro para o ímã, e nele encontra o cume e meta de suas esperanças e aspirações.
- Ibn Arabi desenvolve essa ideia com a seguinte precisão: “Cada eleito vê que naquele grau que ocupa chegou a conseguir o cume e meta de suas esperanças e aspirações. Com paixão natural, essencial, ama o grau de glória e de gozo que possui, sem que seu espírito conceba sequer algo melhor do que aquilo. Se assim não fosse, o céu não seria céu, mas mansão de dor e de amarga desilusão, não morada de bem-aventurança. Não obstante, a fruição do grau superior inclui a dos inferiores.”
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