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BEM E MAL

SMDI

  • A psicologia mística do Islã aborda a figura de Satanás como uma potência necessária e instrumental nas mãos da divindade, transcendendo a mera concepção de mal absoluto.
    • Iblīs é descrito no Alcorão como um anjo caído ou um jinn criado do fogo, desempenhando um papel central no mito da criação.
    • Sayyid Sulṭān, no poema Iblīsnāme, apresenta Satanás como o instrutor original dos anjos, estabelecendo um paralelo com a obrigação do discípulo de honrar seu mestre, independentemente da conduta deste.
    • A tradição que situa Satanás no sangue dos filhos de Adam permite sua identificação com o nafs, o princípio inferior ou a carne.
    • Iblīs permanece como uma criatura de Deus, destituída de poder absoluto, capaz de seduzir mas incapaz de suplantar a resistência humana.
  • Certas correntes místicas, iniciadas por Ḥallāj, buscaram uma reabilitação de Satanás fundamentada em um monoteísmo radical e paradoxal.
    • Satanás recusa prostrar-se perante Adam por considerar que apenas a divindade é digna de adoração, tornando-se, na perspectiva de Ḥallāj, o tesoureiro da ira divina enquanto Muhammad é o da graça.
    • A rebeldia de Iblīs é interpretada como uma declaração de santidade a Deus, situando-o em um impasse trágico entre a vontade eterna e a ordem imediata do Criador.
    • Ele foi jogado na água, com as mãos atadas às costas, e Ele disse a ele: “Cuidado para não se molhar”.
  • A grandeza trágica de Iblīs inspirou poetas como Sanāʾī a retratá-lo como uma vítima de um estratagema divino eterno, onde Adam serviu apenas como isca para sua queda.
    • O coração de Satanás é descrito como o ninho para o Sīmurgh do amor, lamentando que o Adam de barro tenha sido apenas uma desculpa para a condenação preestabelecida.
    • Ele colocou a armadilha oculta em meu caminho — Adam foi o grão no anel desta armadilha. Ele queria me dar a marca da maldição — Ele fez o que quis — o Adam terreno não passava de uma desculpa.
  • Aḥmad Ghazzālī e ʿAṭṭār consolidaram a imagem de Satanás como o amante perfeito que aceita a maldição divina como um manto de honra, preferindo a separação willed pela divindade à união egoísta.
    • Quem não aprende o tauḥīd de Satanás é um infiel, afirmou Aḥmad Ghazzālī, provocando a ortodoxia e influenciando o sufismo posterior.
    • Estar amaldiçoado por Ti é mil vezes mais caro para mim do que desviar minha cabeça de Ti para qualquer outra coisa, conforme a tradição hallajiana em ʿAṭṭār.
    • Sarmad exortou os homens a imitarem o método de servidão de Satanás, escolhendo uma única qibla e recusando prostrações diante de qualquer outra coisa.
  • Em oposição à reabilitação, Rūmī argumentou que a recusa de Iblīs proveio de uma limitação intelectual e falta de amor, vendo apenas a forma de barro de Adam e ignorando o sopro divino.
    • Satanás é o representante de um intelectualismo caolho que se gaba de sua origem ígnea, negligenciando a imagem de Deus gravada no homem.
    • Iqbal retoma essa visão multifacetada, apresentando Satanás como o intelectual que anseia ser vencido e quebrado pelo homem perfeito para encontrar a salvação.
    • O Satanás de Iqbal assume também o papel de sedutor, materialista e destruidor, integrando os dilemas entre o bem e o mal.
  • O problema da satanologia está intrinsecamente ligado ao debate sobre predestinação e livre-arbítrio, constituindo um mistério divino impenetrável pelas criaturas temporais.
    • A predestinação é o segredo de Deus com o qual nem um anjo próximo nem um mensageiro enviado estão familiarizados, conforme citado por Rūzbihān Baqlī.
    • O receio do Dia do Julgamento e da vontade divina inescrutável permeava a vida dos primeiros ascetas, apesar de sua devoção rigorosa.
    • Estes para o Inferno, e Eu não me importo, e aqueles para o Paraíso, e Eu não me importo — sentença que ilustra a soberania absoluta e arbitrária na visão teológica.
  • A introdução do princípio do amor permitiu aos místicos tardios experimentar a coincidência da vontade humana com a divina, resultando no conceito de jabr maḥmūd ou constrangimento agradável.
    • Rūmī rejeitou o uso da predestinação como desculpa para a indolência ou o crime, ilustrando a responsabilidade humana através da parábola do ladrão no jardim.
    • O adágio de que a pena secou é interpretado não como convite à preguiça, mas como a garantia de que as boas ações nunca serão perdidas.
    • Vista aquela matéria que você mesmo teceu e beba o produto do que você plantou.
  • A ação humana em conformidade com a natureza dada por Deus é vista como uma identificação com o propósito divino, onde o homem se situa entre os dois dedos do Misericordioso.
    • Cada ação possui faces contraditórias, assim como a divindade se manifesta através de nomes de majestade e de bondade para a manutenção da criação.
    • O místico deve discernir o vento por trás da poeira e o fundo do mar por trás da espuma, compreendendo que a luz absoluta exige meios materiais para ser percebida.
    • Através do oposto da luz reconhece-se a luz, permitindo o entendimento de que a ira divina é, frequentemente, misericórdia disfarçada.
    • Quantas inimizades foram amizade, quantas destruições foram renovação!
  • A eficácia das ações divinas revela-se ambivalente conforme o receptor, assemelhando-se ao vento que foi assassino para o povo de ʿĀd e carregador para Salomão.
    • O veneno que constitui a vida da serpente transporta a morte para outros seres, assim como as ações de Khiḍr ocultam sentidos profundos sob aparências ilógicas.
    • A resolução do dilema entre destino e liberdade não reside no intelecto, mas no amor e na entrega absoluta que abre caminhos ocultos na profundidade de Deus.
    • E se Ele fechar diante de você todos os caminhos e passagens, Ele mostrará um caminho oculto que ninguém conhece.
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