REINO ADICIONAL
LIT, L. W. C. van. The world of image in Islamic philosophy: Ibn Sīnā, Suhrawardī, Shahrazūrī, and beyond. Edinburgh: Edinburgh university press, 2017.
A inovação central introduzida por Suhrawardi em seu sistema de pensamento é a noção de “imagens suspensas” (muthul mu'allaqa), desenvolvida a partir da ideia de Avicena sobre o uso da imaginação após a morte e em contato com discussões epistemológicas, resultando em uma importante disrupção ontológica.
- Diferentemente de Avicena, para quem os corpos celestes eram a própria solução para as almas dos falecidos que ansiavam por uma conexão corporal, Suhrawardi desloca sua atenção dos sítios da imaginação para os objetos da imaginação, tornando as imagens produzidas a solução necessária e os corpos celestes apenas uma condição para experiência delas.
- Em sua obra “Hikmat al-ishraq”, Suhrawardi afirma ter tido experiências verdadeiras que indicam a existência de quatro mundos: luzes dominantes (intelectos), luzes gerentes (almas), barreiras (corpos) e imagens suspensas, criando assim uma quarta categoria ontológica ao lado das três tradicionalmente aceitas pelos filósofos.
- O termo “suspensas” significa que essas imagens não estão em um lugar nem em um substrato, possuindo uma relação frouxa com a coisa que as manifesta, sendo o espelho não um “lugar de inerência”, mas um “lugar de manifestação” (mazhar), onde a imagem existe por si mesma (qā'im bi-nafsihi).
- Suhrawardi demonstra que as imagens em espelhos não estão no espelho, nem no ar, nem no olho (refutando a teoria da impressão da forma na faculdade, defendida por Avicena), nem são resultado da extromissão de raios, nem são a própria forma vista por outro caminho, concluindo que devem existir por si mesmas.
- As imagens suspensas compartilham características tanto com os corpos (surgem e perecem, podem ser escuras e iluminadas, possuem magnitude, e permitem a percepção de gostos, formas, sons agradáveis, cheiros e até tato) quanto com os intelectos (são abstratas), mas, em última análise, não são nem uma coisa nem outra, distinguindo-se das Formas Platônicas por serem particulares e mutáveis.
- Suhrawardi refere-se ao domínio das imagens suspensas como um “mundo” ('ālam), o “oitavo clima” (al-iqlīm al-thāmin), onde se encontram as cidades míticas de Jabalq, Jabars e Hurqalya, e também como “lugar nenhum” (Nakoja-abad), sugerindo uma espacialidade ou topografia que não deve, contudo, ser concebida como um lugar separado vertical ou horizontalmente, mas sim como uma dimensão que forma uma emulsão com os outros mundos, estando em toda parte e em lugar nenhum especificamente.
- O relato de Suhrawardi sobre as imagens suspensas é corroborado por quatro tipos de autoridades: os filósofos antigos (como Platão), o Legislador (profetas), os peregrinos (místicos) e a experiência real, sendo que a experiência (mushāhada) tem precedência sobre a prova racional (hujja).
As imagens suspensas manifestam-se em diferentes contextos, incluindo a vida após a morte, a vida diária, os sonhos e durante a meditação, sendo experienciadas pela alma através do uso de corpos celestes ou da faculdade de imaginação.
- Após a morte, as almas anexam-se a corpos celestes para testemunhar imagens suspensas que existem realmente, e não são meras fantasias da imaginação, com as imagens boas estando de acordo com os desejos das almas purificadas e as más refletindo uma discrepância entre o que as almas más desejam e o que merecem.
- Suhrawardi rejeita a noção de ressurreição corporal no sentido do “retorno do inexistente” (i'ādāt al-ma'dūm) e nega um “Último Dia” (yawm al-qiyāma) literal, interpretando a ressurreição como uma figura de linguagem para o fim da vida terrena e afirmando que apenas a alma permanece após a morte.
- Na vida diária, as imagens suspensas manifestam-se extraordinariamente quando fazem com que gênios e demônios se manifestem neste mundo, podendo ser igualmente visíveis para qualquer pessoa presente, embora as mãos dos homens não possam alcançá-los.
- Em sonhos e durante meditação (“transe divino”, al-subātāt al-ilāhiyya), as imagens suspensas permitem que anjos se manifestem em belas formas humanas ou estátuas esculpidas, e que pessoas especialmente preparadas (profetas, santos, ou mesmo os débeis mentais, como crianças e mulheres) exerçam controle sobre qual imagem suspensa estão experimentando, numa estação especial chamada “Sê” (kun).
- Um dos principais obstáculos para a experiência direta das imagens suspensas é a imaginação, descrita como uma “montanha obstrutiva” entre a alma e o mundo do intelecto, que, no entanto, serve para proteger a pessoa da obliteração pela luz excessivamente brilhante do Real, transformando o incompreensível em algo compreensível.
A teoria do conhecimento de Suhrawardi, baseada no conceito de “conhecimento por presença” (al-'ilm al-hudūrī), fundamenta a realidade das imagens suspensas ao definir que o conhecimento é a presença da coisa para o eu (dhāt) abstraído da matéria, sendo o eu “o sentido dos sentidos”.
- No conhecimento por presença, o eu conhece a si mesmo por si mesmo, sem o uso de uma faculdade ou de uma imagem, pois uma imagem do “eu” é sempre um “isso” e nunca pode ser o “eu” que se conhece diretamente.
- Os particulares (objetos materiais) são percebidos pela alma ou pela presença de suas próprias essências no exterior, ou pela ocorrência de sua forma em uma coisa presente à alma (como uma imagem suspensa em uma faculdade corporal), sobre a qual a alma emite uma iluminação.
- Suhrawardi afirma que teve experiências confiáveis (tajārub saḥīḥa) que o levaram ao conhecimento do mundo das imagens suspensas, tendo sido, nas suas próprias palavras, outrora zeloso na defesa do caminho peripatético em negar tais coisas até que viu a “demonstração de seu Senhor”.
As fontes para a ideia de imagens suspensas permanecem incertas, com influências sugeridas do zoroastrismo, do ismaelismo, do sufismo e de al-Ghazzali, mas o contexto filosófico mais imediato e promissor parece ser o de Abu l-Barakat al-Baghdadi.
- Al-Baghdadi, em seu “al-Mu'tabar”, apresenta discussões notavelmente similares às de Suhrawardi, incluindo a ideia de que é a própria alma (dhāt) o verdadeiro percebedor de todas as percepções, a consciência de si mesmo por si mesmo, e os mesmos argumentos contra a teoria da impressão na visão e nas imagens em espelhos.
- Apesar das similaridades, Baghdadi não fala de imagens suspensas nem aceita a ideia de usar corpos celestes para a imaginação, e utiliza consistentemente o termo “consciência” (shi'r) onde Suhrawardi fala de “conhecimento” ('ilm), representando um afastamento significativo deste em relação aos filósofos contemporâneos.
A interpretação do pensamento de Suhrawardi sobre imagens suspensas é dificultada pela escassez de material e por questões não resolvidas em seus escritos, especialmente porque ele as discute e assume apenas em seu último capítulo, esquecendo-as no resto do “Hikmat al-ishraq”.
- Não está explícito se toda percepção sensorial se dá por imagens suspensas, nem o quanto da aparência delas pode ser comandado por aqueles que as testemunham em meditação.
- Não é claro se Deus pode se manifestar por meio de uma imagem suspensa ou apenas os anjos, nem como exatamente os gênios se manifestam no mundo terreno de forma intersubjetiva.
- Permanece obscuro qual é o papel das almas más na formação dos gênios, qual é seu destino final, e como as imagens suspensas vêm à existência e deixam de existir, especialmente se podem continuar existindo após a observação.
