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MAIÊUTICA SOCRÁTICA

Vitray-Meyerovitch, MPI

Dadas as diferenças de capacidades espirituais existentes entre os discípulos, o papel do mestre consistirá em se adaptar às suas aptidões.

  • Um hadith declara que se deve falar aos homens segundo a medida de sua compreensão, e não segundo a medida da própria compreensão, para que Deus e Seus mensageiros não sejam desmentidos.
  • Rumi alude com frequência à forma progressiva que o ensino deve revestir, afirmando que não é possível comunicar às pessoas mais do que a capacidade daquilo que as contém, como um rio não comporta o mar.
  • O mestre, lidando com uma criança, deve falar a linguagem adequada às crianças, prometendo comprar um pássaro ou trazer uvas, nozes e pistaches.
  • O fogo que convém ao ferro ou ao ouro não é bom para marmelos e maçãs, pois estes necessitam de um fogo suave, enquanto o ferro precisa de chamas fortes.
  • Kierkegaard definiu que ser mestre não é afirmar ou dar lições, mas verdadeiramente ser discípulo, começando o ensino quando o mestre aprende com o discípulo e finge se prestar ao exame.

Um trecho do Mathnawi descreve com precisão o método de ensino, com Moisés perguntando a Deus por que Ele cria a forma e depois a destrói.

  • Deus respondeu a Moisés que sabe que sua pergunta não provém da incredulidade, mas do desejo de descobrir a sabedoria e o sentido oculto nas ações divinas para ensinar ao vulgo.
  • Moisés questiona de propósito para poder desvendar a questão ao homem simples, pois o fato de questionar é a metade do conhecimento.
  • A pergunta e a resposta nascem do conhecimento, e Moisés se torna como um questionador ignorante para fazer compreender o mistério ao ignorante.
  • O mestre se coloca, portanto, no nível de compreensão daquele a quem quer fazer recuperar o conhecimento, como o pai balbucia sons para o recém-nascido, adotando sua linguagem.

Pouco a pouco, o murshid alimenta seu murid com o leite do conhecimento até que este possa prescindir de sua ajuda.

  • Quando o bebê desmamado é separado de sua ama, ele começa a comer e a abandona, devendo o discípulo esforçar-se para se desmamar alimentando-se de alimentos espirituais.
  • Deve-se beber a palavra da Sabedoria, que é uma luz velada para quem é incapaz de receber a luz desvelada, para que se possa contemplar sem véus o que está oculto.
  • O mundo é comparável à árvore, e os seres humanos são frutos meio maduros que se agarram firmemente ao galho, mas quando amadurecem e se tornam doces, já não se agarram tanto aos ramos.

Quando o mestre dá indícios justos, algo no espírito do discípulo lhe faz reconhecer a verdade, vindo então a certeza que não deixa lugar à dúvida.

  • O indício se torna um bálsamo para a alma doente, e o discípulo reconhece a verdade, pedindo ao amigo que vá adiante como guia.
  • O mestre exterior apenas ajuda o mestre interior, do qual fala Santo Agostinho, e a referência clássica é o diálogo do Mênon, onde Sócrates afirma que naquele que não sabe existem pensamentos verdadeiros sobre as coisas que ele não sabe, que se levantam nele como um sonho.
  • Trata-se de fazer nascer o espírito oculto em nós mesmos, pois a substância verdadeira está dissimulada na mentira, como o gosto da manteiga no soro do leite.
  • O corpo é o soro de leite visível, e o espírito é a manteiga que se aniquila no interior até que Deus envie um mensageiro que agite o soro na manteiga com método e habilidade.
  • A palavra de um servidor escolhido, que faz parte da palavra do Profeta, penetra no ouvido daquele que busca a inspiração, e o ouvido do verdadeiro crente conserva essa inspiração.
  • O ouvido da criança é preenchido pelas palavras de sua mãe, e se o bebê não tem uma boa audição, não ouve as palavras e se torna mudo.

O mestre exterior e o mestre interior não fazem mais do que um: é o próprio eu que fala, escuta e habita a casa.

  • Resta algo a dizer, mas é o Espírito Santo que fará o relato sem o mestre, ou é o próprio discípulo que dirá ao seu próprio ouvido, pois ele é o próprio mestre.
  • Quando se dorme, vai-se da presença de si mesmo à presença de si mesmo, ouvindo o que vem de si mesmo e acreditando que outro disse em sonho o que se ouviu.

A possibilidade da anamnese está ligada à pré-existência das almas, no dia do pacto preeterno (Alast).

  • Quem bebeu esse leite no Dia de Alast distingue o leite neste mundo, assim como Moisés distinguiu e reconheceu o leite de sua mãe.
  • Antes que houvesse jardim, vinhas ou uva no mundo, a alma já estava embriagada do vinho imortal.
  • A alma pergunta de onde lhe vem a inquietação e o batimento do coração, e responde que estava na manufatura divina quando o mundo de água e argila ainda não estava cozido.
  • A alma estava no dia em que os nomes não existiam, nem nenhum sinal de uma existência dotada de nome, e foi por ela que Nomes e nomeados foram manifestados.
  • A suavidade do clamor Não sou Eu vosso Senhor subsiste no coração de cada verdadeiro crente até a Ressurreição.
  • Quem sonhou com o dia de Alast está embriagado na via da devoção, mas quem não fez tal sonho não se torna servo nem buscador de Deus neste mundo.

As capacidades espirituais dos homens diferem, portanto, segundo a medida de sua lembrança, ilustrada pela parábola dos escravos negros trazidos das terras dos infiéis.

  • O escravo trazido em tenra idade e que envelheceu entre os muçulmanos esquece inteiramente o país onde nasceu.
  • Se era um pouco mais velho, restam-lhe pequenas lembranças, e se era sensivelmente mais velho, restam-lhe mais lembranças.
  • As almas estiveram na presença de Deus quando Ele perguntou Não sou Eu vosso Senhor e elas responderam Sim, sendo sua nutrição a palavra de Deus sem letras e sem sons.
  • Quando são trazidas a este mundo como crianças, ao ouvir essa palavra não se lembram e se veem estranhas a ela: esses são os velados, mergulhados na impiedade e no desvio.
  • Aqueles que se lembram muito pouco, mas nos quais a ardor e o ímpeto para o outro lado surgem, são os crentes.
  • Existem homens nos quais, ao ouvir a palavra divina, o estado anterior reaparece, os véus caem e eles se encontram na união.
  • Rumi conclui que não se deve revelar tais coisas àqueles que não são dignos.

Aqui se encontra, junto à noção corânica do pacto preeterno (mîthâq), a doutrina platônica segundo a qual a reminiscência é considerada prova da pré-existência das almas.

  • No Fédon, afirma-se que se conhecer é se lembrar, então a alma pré-existiu ao corpo, provando-se pelo exemplo do ignorante que é interrogado e que recupera, à medida que é interrogado, um saber inato como adormecido nele.
  • A passagem de Fihi-ma-fihi citada se aproxima de uma página de Ghazali para quem a educação moral e religiosa do homem pode ser concebida como a evocação de lembranças vagas, mas inatas.
  • Ghazali afirma que a fé em Deus foi implantada nas almas na fitra, e os homens se dividem em dois grupos: os incrédulos, que se desviaram esquecendo seu estado primordial, e aqueles que refletiram e se lembraram desse estado.

É por terem pré-existido juntas que certas almas estão ligadas por uma misteriosa afinidade espiritual, reconhecendo-se pelo odor, como os cavalos se reconhecem entre si.

  • Quando o espírito de um reconhece plenamente o espírito do outro, ambos se lembram de terem sido um no passado, e na terra se misturam como o leite e o mel, assim como Moisés e Aarão.
  • Aquele que se lembra está oculto dentro de si mesmo, como um papagaio inteligente, intérprete do pensamento mais íntimo, que disse desde a origem qual parte caberia em bem e em mal.
  • O papagaio cuja voz provém da inspiração divina e cuja origem era anterior à origem da existência está oculto no indivíduo, sendo seu reflexo que foi visto nas coisas do mundo fenomênico.

Um provérbio diz que o elefante se lembrou do Hindustão, mas para que se lembre é preciso que seja um elefante, pois o asno não se lembra porque nunca veio de lá.

  • Se não se é um elefante, deve-se buscar a transmutação, considerando os alquimistas do céu e escutando o som das palavras dos fabricantes espirituais da pedra filosofal, que trabalham para cada um.
  • A cada instante, uma tocha é posta sobre a compreensão do indivíduo, para que ele contemple as plantas que crescem novamente em sua terra.
  • São necessárias nuvens e relâmpagos para produzir a água e o fogo que farão amadurecer o fruto; é necessário o relâmpago que ilumina o coração e a chuva das lágrimas para que o jardim se torne radiante e a terra manifeste os segredos ocultos em seu seio.
  • Essas graças são o sinal de um Testemunho, os traços dos passos de um homem consagrado ao serviço de Deus.
  • Só quem viu o Rei é rejubilado por esse sinal, pois quando não se O viu não há reconhecimento.
  • O espírito daquele que no tempo de Alast viu seu Senhor e ficou embriagado e fora de si conhece o perfume do vinho porque bebeu antes, e a Sabedoria é como um camelo extraviado que conduz aqueles que o encontram e reconhecem à presença dos reis.

A alma que glorifica a Deus neste mundo é porque O glorificou em sua pré-existência, e, ao fazê-lo, leva a se lembrar aqueles que esqueceram o dia de Alast.

  • A glorificação é o sinal do dia de Alast, e se alguém esqueceu essa glorificação rendida a Deus por seu espírito, deve escutar a glorificação que os sábios rendem.
  • O melhor comentário sobre a atenção aos sinais da sabedoria inspirada é a observação de Ibn-ul-Arabi de que os estados místicos não podem ser explicados, mas apenas indicados simbolicamente àqueles que começaram a tê-los em experiência.

Rumi, como Platão, fala dessas reminiscências que nascem no espírito como um sonho, comparando também essa redescoberta à de traços de passos.

  • A presença de um amigo de Deus é um livro, e o livro do Sufi não é composto de tinta e letras, mas de um coração branco como a neve.
  • A provisão do sábio consiste em signos traçados por uma pena, enquanto a provisão do Sufi são traços de passos, seguindo as pegadas do gamo almiscarado como um caçador.
  • Durante algum tempo, os traços são um indício para o Sufi, mas depois é a própria bolsa de almíscar do gamo que o guia.

Indícios, pegadas, signos de reconhecimento ou palavras confusas descrevem a démarche progressiva da alma que termina por reencontrar o que ela ignorava possuir, tratando-se sempre da recriação de uma unidade perdida.

  • O objetivo de toda maiêutica é atualizar as potencialidades latentes, sendo o despertar para uma tomada de consciência, na realidade, a redescoberta de um tesouro perdido há muito tempo.
  • Na experiência mística do Zen, não é uma consciência nova que é despertada, mas uma consciência antiga que dormia em nós.
  • Tais coisas não devem ser pensadas, mas devem crescer novamente a partir das sombrias profundezas do esquecimento, para expressar o extremo pressentimento da consciência e a intuição mais elevada do espírito.
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