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1 Escatologia Celeste
- A escatologia celeste, embora represente um motivo de data mais antiga, só se impõe com os mitos de Platão, e sua origem e transformações têm sido objeto de inúmeras discussões que serão resumidas na sequência.
- A primeira alusão grega à imortalidade celeste parece ser a epígrafe dos guerreiros mortos em Potideia em 432 a.C.
- Ideias análogas aparecem em versos falsamente atribuídos a Epicarmo, conhecidos por Eurípides, e em A Paz de Aristófanes.
- Um complexo mítico e ideológico difundido no século V a.C. relaciona a alma humana com as alturas celestes.
- L. Rougier defendeu a hipótese da origem pitagórica da crença na imortalidade celeste das almas, baseando-se na revolução científica pitagórica que teria levado a uma teoria dualista do mundo e à concepção de uma alma de origem supralunar e essência ígnea.
- A descoberta pitagórica da astronomia geométrica permitiria explicar os movimentos planetários por combinações de movimentos circulares uniformes, projetando trajetórias em esferas.
- Essa astronomia conduzia à oposição entre o mundo celeste incorruptível e o mundo sublunar corruptível.
- A alma, aparentada aos astros, seria de origem supralunar e essência ígnea, tendo caído no corpo por uma falta original e devendo reintegrar a pátria celeste após a morte.
- Os pitagóricos também conheceriam a doutrina da metensomatose e a ideia de um purgatório sublunar.
- A tese de L. Rougier, aprovada por P. Boyancé, foi criticada por F. Cumont, que não nega a existência do complexo mítico no pitagorismo, mas atribui origem iraniana ao dogma da imortalidade celeste e origem babilônica à ordem planetária.
- W. Burkert destrói as teses de Rougier ao enfatizar as influências orientais e, sobretudo, o aporte das representações arcaicas, mostrando que a associação deus-céu, a ideia da origem divina da alma e seu retorno ao céu, a divinização dos astros e a noção de ascensão celeste são anteriores e mais difundidas que o pitagorismo.
- A ideia da associação deus-céu é arcaica, coexistindo com a representação homérica do Hades.
- A imortalidade e a essência ígnea ou aérea da alma são encontradas em diversos pensadores pré-socráticos, como Anaxágoras, Parmênides, Heráclito, Leucipo, Demócrito e Anaxímenes.
- Conclui-se que no século V a.C. ocorre na Grécia o início da cristalização de um complexo mítico arcaico sobre as relações entre almas e corpos celestes, processo que não é obra exclusiva dos pitagóricos, sendo apenas nos diálogos platônicos que a escatologia celeste assume importância capital.
- Os mitos escatológicos de Platão situam o inferno no abismo do Tártaro, que atravessa a terra esférica, enquanto reservam o céu para a existência feliz do filósofo, cuja alma recupera as asas perdidas na descida ao corpo.
- A alma do filósofo pode continuar sua existência em duas zonas celestes: na superfície da “Verdadeira Terra” ou ilhas aéreas dos Bem-Aventurados, e em uma região superior onde contempla diretamente as essências hiperurânias, as ideias.
- As tentativas de ver influências iranianas e babilônicas no mito de Er, no livro X da República, carecem de evidências suficientes, uma vez que a síntese platônica transcende a soma de seus elementos singulares, muitos dos quais preexistem no folclore arcaico e nas especulações pré-socráticas, não havendo razões para buscar sua origem no Oriente ou atribuir aos pitagóricos o mérito exclusivo da elaboração da escatologia celeste.
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