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Ponte do Juízo (Pons Subtilis)

PSYCHANODIA

  • A hipótese dominante sobre a origem da “ponte do julgamento” nas apocalipses cristãs medievais, formulada por Miguel Asín Palacios em 1919 e retomada por P. Dinzelbacher, atribui sua entrada no Ocidente às lendas islâmicas do mi'raj de Maomé.
    • Dinzelbacher supõe que, ao passar pela Irlanda, as lendas árabes teriam reativado um foco folclórico autóctone de origem celta.
    • Nenhum estudioso havia questionado que o motivo islâmico provém do Irã, especificamente da ponte Cinvat das tradições páhlavi.
  • A cronologia das lendas cristãs constitui um problema espinhoso, pois Asín Palacios e Dinzelbacher as datam todas do século XII para sustentar a hipótese do trânsito dos motivos árabes pela Irlanda.
    • Dinzelbacher chega a forçar cronologias: como a origem irlandesa da Visio Tundali está provada, ele argumenta que ela foi composta antes da Visio Alberici, redigida pelo irmão irlandês Marcos em Ratisbona por volta de 1149.
    • O único manuscrito da Visio Alberici, do século XII, fixa em 1127 o ano em que Albérico, monge em Montecassino, reelaborou o relato de suas próprias visões, cuja redação original coube ao monge Guido.
  • Dinzelbacher cometeu erro mais grave ao afirmar, em sua tese de doutorado, que a Visio Esdrae latina depende da Visio Tundali, pois havia estudado apenas a “versão longa” publicada por Mussafia em 1871.
    • Existe um manuscrito da Visio Beati Esdrae na Bibliothek des Priesterseminars de Linz datado dos séculos X-XI.
    • Esse manuscrito pode subverter todas as certezas sobre a origem iraniana do motivo da “ponte estreita”.
  • O motivo da “ponte do julgamento” aparece em quatro textos cristãos do século XII e em Chrétien de Troyes: a Visio Alberici (1127), a Visio Tundali, a visão do “visionário de São Galgano” (ob. 1181) e o Tractatus de Purgatorio S. Patricii (1188-89).
    • Na Visio Alberici, a ponte sobre um rio de piche ardente é larga para os mais inocentes e vai se estreitando para os mais pecadores até a espessura de um fio, precipitando-os no rio, onde são cozidos e purgados.
    • Na Visio Tundali, a ponte está cheia de cravos sobre uma lagoa em ebulição com monstros; Tondale é obrigado a conduzi-la uma vaca que roubara e, com outro pecador, atravessa a ponte entre lágrimas e sangue.
    • No Purgatório de São Patrício, o cavaleiro Owein enfrenta uma ponte tão estreita que mal caberia um pássaro; ao invocar o nome do Senhor, a ponte se alarga o suficiente para duas carroças.
    • No Lancelot de Chrétien de Troyes, o herói atravessa a pés e mãos nus, com sofrimento e agonia, a ponte-espada.
  • A busca de uma “tradição celta” para o motivo da ponte estreita, postulada por Dinzelbacher, não encontra sustentação nos textos irlandeses e galeses disponíveis.
    • A Visão de Adhamhnan, do século XI, está visivelmente influenciada pelos relatos cristãos ou árabes, não pela tradição celta.
    • A ponte de vidro do Voyage de Mael Duin (séculos VIII-IX) repele os passantes, mas não tem relação com a ponte estreita ou a ponte-espada.
    • O personagem Osla Cyllellfawr do relato galês Culhwch et Olwen possui uma faca larga que serve de ponte para um exército, sem qualquer ligação com o motivo em questão.
    • Os exemplos do mundo germânico são ainda mais distantes do motivo do que os celtas.
  • Nas lendas árabes, a “ponte do julgamento” ou sirat possui as mesmas características das apocalipses cristãs: alarga-se para os justos e estreita-se para precipitar os ímpios no inferno.
    • A representação já aparece no século VIII em um dos hadits de Abu Sa'id al-Khudri, companheiro do Profeta.
    • A versão latina do mi'raj, traduzida do espanhol pelo notário Bonaventura de Sena no tempo de Afonso X, baseia-se na redação árabe de Maysara ibn Abd Rabbi-hi ou Umar ibn Sulayman (persas e damasceno do século VIII).
    • Nessa versão, o Azirat é uma ponte mais estreita que um cabelo e mais afiada que a lâmina de uma espada, com tenalhas e ganchos nos dois extremos; a ponte está dividida em sete compartimentos correspondentes às sete terras infernais.
  • A communis opinio deriva o sirat árabe da ponte Cinvat da escatologia iraniana, mas os textos do Avesta mais antigo não contêm qualquer indicação nítida sobre um julgamento na ponte.
    • O Videvdat 19,29, frequentemente citado como origem do motivo, não descreve uma “ponte estreita” no sentido das apocalipses: a alma simplesmente segue o caminho criado pelo Tempo pelo ponte Cinvat, onde a consciência e a alma reclamam a parte dos bens terrestres que lhes foi dada.
    • A representação de uma “ponte estreita” parece surgir no Irã apenas por volta do século VI d.C. e toma contornos precisos nos escritos páhlavi redigidos no século IX: Bundahishn, Dadestan-i denig e Menok-i khrat.
    • Na geografia mítica desses escritos, o pico do Julgamento (Cakad-i Daitik) é o ponto de onde se lança a ponte Cinvat, que se alarga para a alma do justo e se afina como lâmina de navalha para precipitar o ímpio no Inferno.
  • É mais coerente rastrear o motivo em ambientes judeus e cristãos do que persas, pois as lendas do mi'raj têm como fonte mais provável a literatura apocalíptica judeo-cristã e a mística judaica da merkabah.
    • No 4º Esdras, apocalipse do século I ou início do século II composta em hebraico ou aramaico e traduzida em várias línguas, aparece uma “entrada” e um “caminho” estreitos entre o fogo e a água, tão estreito quanto a planta de um pé humano.
    • Na Historia Francorum de Gregório de Tours, escrita antes de 577, a visão do abade Sunniulfus descreve uma ponte sobre um rio ígneo tão estreita que mal cabe a largura da planta de um pé, pela qual passam os diligentes e da qual caem os preguiçosos.
    • Um ponte inteiramente semelhante aparece nos Dialogi de Gregório Magno (580-604).
    • No judaísmo, a tradição está presente no Midrash Yalqut in Is. 603, e Scheftelowitz considera que é anterior ao Islã.
  • A divisão em sete do sirat islâmico, correspondendo às “septem viae” do 4º Esdras, reforça a hipótese de que o motivo islâmico foi tomado do judaísmo.
    • Nas Visões de Ezequiel, midrash místico composto na Palestina no século IV ou V d.C., aparece pela primeira vez a tradição das “sete terras infernais”, que desempenha papel importante nas lendas do mi'raj.
    • Em Islã, a tradição das sete terras remonta a Ibn Abbas, companheiro do Profeta, e é transmitida por Ka'b al-Akbar, judeu convertido, e por Wahb ibn Munabbih, tradicionalista do século VIII.
    • O apócrifo 4 Esdras é o primeiro texto a dividir os castigos dos ímpios e as recompensas dos justos em sete categorias, o que pode ter influenciado a cosmologia das sete terras infernais.
  • A Visio Beati Esdrae latina, cujo manuscrito mais antigo data do final do século X ou início do XI, representa provavelmente a chave do problema, pois entre os três escritos medievais que dependem da tradução grega do 4º Esdras é o mais próximo de sua fonte.
    • A Visio Beati Esdrae contém o motivo canônico da ponte estreita: uma ponte larga o suficiente para setenta pares de bois que se estreita como um fio de teia de aranha quando chegam os pecadores, que caem no rio confessando seus pecados.
    • Esse episódio foi interpolado entre os séculos X e XI, mas sua fonte é, muito provavelmente, cristã.
    • A modificação do trecho do 4º Esdras sobre o “caminho estreito” teria ocorrido entre o século II e o VI, e Gregório de Tours e Gregório Magno se inspiravam em uma representação já amplamente difundida em sua época.
    • Autores cristãos, redatores dos escritos páhlavi e contadores árabes teriam bebido na mesma fonte: um apócrifo cristão compilado no século II ou depois, mas antes da segunda metade do VI, que interpreta livremente a tradução grega do 4º Esdras.
  • Apesar disso, em casos concretos a transmissão do motivo para as apocalipses medievais pode ter ocorrido por intermédio das tradições do mi'raj, como demonstrado pela situação de Albérico de Settefrati em Montecassino.
    • Albérico entrou em Montecassino numa época em que a memória de Constantino, o Africano, primeiro tradutor latino de textos árabes, era ainda muito viva.
    • O amigo de Albérico, Pedro, o Diácono, coautor da versão da apocalipse de 1127, ocupou-se de perto da personalidade de Constantino e compôs a lista de suas obras.
    • Constantino, morto em 1087 e versado em cultura árabe, pode ter discutido as lendas do mi'raj com um jovem monge que Pedro, o Diácono, nascido em 1107, ainda teria podido conhecer.
    • Albérico teve sua visão aos dez anos, durante uma catalepsia de nove dias, e em 1027, com vinte a vinte e seis anos, pode ter sido persuadido a incorporar ao relato episódios sugestivos que o impressionaram posteriormente.
  • A Visio Alberici teria podido ser completamente independente da Visio Esdrae, cujo núcleo remonta ao menos ao século VI e que mais tarde seria incorporado aos relatos do mi'raj, os quais por sua vez influenciaram a apocalipse de Albérico.
    • A Visio Tundali situa-se fora dessa linha de transmissão.
    • O Purgatório de São Patrício pode ter-se ligado a essa tradição por intermédio da Visio Alberici ou, mais provavelmente, por intermédio da Visio latina de Esdras.
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