1 Templo
DETIENNE, Marcel. Apollon, le couteau à la main. Une approche expérimentale du polythéisme grec. Paris: Éditions Gallimard 1998 et 2009
Tenho a intenção de construir aqui um templo magnífico
1. Antes de pronunciar uma das frases mais decisivas de sua carreira, o jovem Apolo conhece a errância e a longa marcha em companhia da mãe, grávida e duplamente, de modo que a história desse grande deus começa pequena, com um nascimento às escondidas, longe do Olimpo de belas moradas, num canto perdido do mar Egeu, dando seus primeiros passos entre gente condenada a viver no desvario, os mortais.
2. Apolo é da raça de Zeus, sabe-o e o faz saber, mas é antes de tudo filho de Leto, a fugitiva, a amante grávida lançada pelas estradas, de alta linhagem, filha de Febe e neta do Céu e da Terra, eleita por Zeus para gerar o mais belo e poderoso de seus filhos, mas exposta ao ciúme de Hera, esposa legítima de Zeus, a terceira depois de Métis e Têmis, caminhando na noite como uma loba, cuja forma teria até tomado, e suplicando às planícies, montanhas e ilhas, umas após outras, que lhe dessem asilo, fossem a morada do filho e lhe permitissem fundar um rico santuário, enquanto todas, tomadas de terror, tremem e nenhuma tem coragem de acolhê-la, sendo as terras mais ricas e os sítios mais estabelecidos os primeiros a recusar a honra de receber o futuro Apolo, até que uma única ilha, a menor e mais miserável, ouve a prece de Leto e se declara pronta a tornar-se a terra de Apolo.
3. Essa ilha é Delos, rocha perdida no meio das ondas que serve de refúgio a focas e polvos, espécie de ilha flutuante, dirá Calímaco, que lança raízes no momento em que se torna sede e assento do novo deus, conhecendo antes de se comprometer um instante de inquietação, com medo de que Apolo a desprezasse e a enviasse com um grande pontapé ao fundo do mar, até que Leto a tranquiliza com o grande juramento dos deuses de que ali Apolo terá para sempre sua morada.
4. Depois de nove dias e nove noites de dores, de uma grande reunião das deusas mais nobres e da chegada de Ilítia, longamente retida por Hera, a criança irrompe para a luz, e Têmis se apressa a oferecer ao recém-nascido néctar e ambrosia, enquanto o filho de Leto, já apertado nas faixas, reclama a lira e o arco recurvo e anuncia que revelará aos homens em seus oráculos os desígnios infalíveis de Zeus, pondo-se em marcha, ebíbasken, sobre a terra de largos caminhos, longa marcha que o levará ao sítio escolhido para construir um templo magnífico e na qual se revelará, pelos gestos e peripécias do percurso de Delos a Delfos, a maneira apolínea de fazer território.
5. Desde a abertura do Hino que une a glória de Delos ao esplendor do santuário de Delfos, Apolo impõe a figura de um deus em marcha, cujo passo ressoa nos dois primeiros versos, em que o poeta promete lembrar Apolo e seu arco e o temor dos deuses na morada de Zeus ao ouvi-lo chegar, iónta, precedendo na encenação o Arqueiro impetuosamente o Citaredo, pois o deus que aparece primeiro no limiar do Olimpo exibe um arco retesado, titaínei, epifania de sua força, de seu poder e até de sua brutalidade, que dispersa a assembleia dos deuses até que a mãe vem desarmá-lo com palavras doces, conduzi-lo a seu lugar e empurrá-lo para o pai.
6. Uma segunda epifania contrasta com a primeira, quando o jovem Apolo adolescente, de cabelos longos sobre os ombros, dá os primeiros passos na terra de Delos, que se cobre de ouro na alegria de ter sido eleita morada do filho de Zeus e Leto, e o olhar de Febo, ainda chamado Arqueiro, pousa sobre Delos e suas festas, alegrando-se o deus com o espetáculo dos jônios reunidos numa ilha atordoada de cantos, danças e jogos, tão graciosos que poderiam ser Imortais e para sempre isentos de velhice, apagando-se insensivelmente, nessa mistura de visão e epifania, a distância entre mortais e imortais, pois a multidão em festa e panegíria parece oferecer ao deus o espetáculo de uma assembleia de Imortais no Olimpo entre os cantos e danças das Musas, até que, subitamente, o deus do arco se torna o Apolo da cítara, a caminho da rochosa Pitó, levado pela música, e, rápido como o pensamento, deixa a terra pelo Olimpo, chega à casa do pai e junta-se aos deuses reunidos, desta vez sem temor nem medo, pois os Imortais só pensam na cítara e nos cantos, e ao som da cítara o caminhante se torna dançarino de belo passo erguido, respondendo as Musas, filhas da Memória, com suas belas vozes e cantando os privilégios dos olímpicos e a sorte miserável dos que estão destinados a morrer, de modo que no alto do Olimpo as semelhanças efêmeras derretem como neve ao sol, pois os deuses conhecem bem demais as provas impostas a esses meio-vivos tão desprovidos que nem conseguem inventar remédio contra a morte ou recurso contra a velhice, abismo entre a raça humana e os olímpicos que o Apolo distante não deixará de lembrar, sendo isso por ora apenas um intermezzo entre o arco e a cítara, os dois instrumentos de poder reclamados pelo filho de Zeus e Leto.
Um deus põe-se a caminho
1. De volta a Delos, um deus põe-se em marcha com o projeto, que logo formulará explicitamente, de construir, estabelecer e fundar, começando o tempo de explorar com um primeiro reconhecimento dos arredores e uma visão panorâmica a partir de Delos, de onde Apolo descobre de uma vez as províncias de seu império, a Lícia, a amável Meônia e Mileto à beira-mar, reconhecimento a voo de pássaro dos pontos culminantes descendo pelas cadeias montanhosas até os vales e os rios que correm para o mar, tornando-se depois pedestre e caminhando a bom passo por regiões ainda desconhecidas, atravessando, costeando e alcançando lugares cujos topônimos desfilam numa geografia densa de percursos sobrepostos.
2. Na estrada que leva a Crisa, três sítios sucessivos marcam o caminho de um deus conhecido em todo o mundo grego como deus dos caminhos, aguieús, que, a partir de seu lugar de nascimento, abre uma estrada através de um espaço ainda virgem, de vastas extensões selvagens e paisagens vazias deixadas em branco, a começar pela Eubeia, a planície lelantina, triste planície onde ninguém quereria construir um templo, que Apolo atravessa com desprezo rumo a Micalesso, na direção de Teumesso, embora essa paisagem eubeia aparentemente insignificante encerre o sítio onde se ergue desde o século VIII, mais de um século antes da data alta do Hino, um importante santuário apolíneo, o Daphnēphoreîon, templo de loureiro, descoberto em Erétria pelos arqueólogos suíços, de modo que, em sua marcha rumo ao lugar onde realizará o projeto de construir um templo magnífico, Apolo não pode tomar nenhuma via já aberta e a planície lelantina é esvaziada de todo vestígio de ocupação tão cuidadosamente quanto o sítio de Tebas, segunda paisagem encontrada.
3. Desta vez uma grande floresta recobre o lugar da futura Tebas das Sete Portas, onde ainda não havia mortais, nem estradas, nem trilhas na planície tebana rica em trigo, apenas árvores cerradas, húlē, floresta virgem através da qual Apolo abre uma primeira passagem, floresta primitiva anterior a toda presença humana e sem medida comum com o bosque sagrado, álsos, bosquete arranjado e recortado à maneira de santuário que Apolo fala em construir, teúkhein, em várias etapas de seu itinerário, segunda paisagem em branco, Tebas antes de Tebas, quando nada ainda fala dos grandes deuses que a habitarão, nem do neto de Cadmo, Dioniso, nem de Isménio, o Apolo oracular pelos sinais do fogo.
4. Quando Apolo caminha da Eubeia rumo a Onquesto, Tebas ainda está enterrada sob a espessa floresta, tanto mais profundamente quanto, na memória grega, o simples nome de Tebas evoca a ideia de fundação e de cidade instituída, a Tebas dos gêmeos construtores de muralhas, Anfião e Zeto, a Cidade das Sete Portas onde estranhos Semeados, os Espartos autóctones nascidos do solo, se misturam a fundadores autênticos na epopeia de Homero, em eco a antigas Tebaidas.
Encontro com Posêidon
1. Onquesto já está à vista, sítio famoso também na Ilíada e no catálogo brasonado, com o bosque sagrado de Posêidon dominando a margem sul do lago Copais, e, ao contrário dos dois sítios anteriores, o terceiro é belamente arranjado, um bosque sagrado, domínio esplêndido de um deus senhor do carro e dos cavalos, onde Posêidon tem seus quartéis, vigiando as evoluções do potro recém-domado quando o condutor, à entrada do bosque, desce do carro e abandona o cavalo ao pavor do lugar e da caixa que ressoa, momento de verdade para o animal posidônico recém-atrelado ao carro sonoro, que ou atravessa calmamente o domínio arborizado de Posêidon, ou, desorientado pela ausência do condutor e pelo barulho do veículo, entra em pânico e despedaça o carro contra as árvores, de modo que em Onquesto, quando Apolo chega da Eubeia, Posêidon parece já absorto no exercício de um poder que concerne à humanidade e a seu domínio do carro atrelado, perfilando-se à sombra do senhor de Onquesto, cujos caminhos cruzarão mais de uma vez os de Apolo, os criadores de cavalos da terra beócia, sociedade tão discretamente evocada quanto os jônios passeando em trajes de festa nos adros de Delos.
2. O único deus, o único olímpico que o Apolo pioneiro e pedestre encontra diante de si é seu tio Posêidon, com quem partilhará belas e grandes fundações, a começar pela coabitação na morada de Delfos, parecendo Posêidon, como Senhor que detém e possui a terra, Gaiḗokhos, predisposto ao papel de deus do assento, daquele que já está ali quando se inaugura o projeto de construir e fundar.
3. Apolo segue adiante, deixa para trás o bosque de Onquesto, alcança as águas do Cefiso, as terras de Haliarto e logo pisa a terra de Telfusa, lugar tranquilo e encantador onde decide parar, interpelando o sítio e dirigindo-se ao gênio do lugar com a declaração de que tem a intenção de construir ali um templo magnífico, e, dito e feito, Febo já lança as fundações do templo, diéthēke themeília, vastas e extensas, até que a voz de Telfusa vem perturbar o empreendimento, revelando os incômodos ocultos do sítio, o pisotear contínuo de cavalos, o ruído de carros e a multidão atarefada ao redor, mais barulho que em duas Onquestos, pois na realidade, como se sabe sem que Apolo o perceba, Telfusa quer guardar só para si a glória do sítio e elogia ao deus construtor as qualidades de um lugar próximo, ao pé das gargantas do Parnaso, Crisa.
4. Apolo avança de novo e, com um passo, chega ao país dos Flégios, o primeiro estabelecimento humano no horizonte de seu percurso, ardentes de orgulho e desmedida, encarnação da húbris que parece a lei dos mortais, como dirá Apolo no fim do Hino, tão grande que perecerão até o último numa expedição insensata para saquear o santuário de Apolo, e, com uma última passada, Apolo se encontra diante do Parnaso nevado, sítio que parece perfeito, a meio caminho entre o mar e a montanha, uma altura exposta ao sul, um vale profundo e altos rochedos ao fundo.
5. O deus construtor repete as mesmas palavras da etapa anterior, a intenção de construir ali um templo magnífico, mas sem dirigir-se a ninguém, como se o lugar não tivesse dono e estivesse inteiramente vazio, e de novo as fundações são lançadas e a construção se desenvolve, surgindo da sombra dois irmãos arquitetos, Agamedes e Trofônio, que instalam uma larga soleira de pedra, animando-se o canteiro com uma multidão inumerável de homens a serviço de Apolo que manejam a pedra talhada, e o santuário de Delfos, fundado ao fim do percurso, acolhe seu fundador e autoriza o exercício de sua palavra oracular, pela qual revelará os desígnios infalíveis de Zeus, de modo que a mântica apolínea em Delfos se institui no movimento do projeto de construir e fundar enunciado pelo jovem Apolo no solo de Delos.
6. Abrindo a estrada e traçando uma via, Apolo comporta-se como senhor dos caminhos, aguieús, que conhece também a arte de desbravar, atravessando a grande floresta primitiva que cobre o sítio da futura Tebas, onde ainda não havia estradas nem trilhas, e a tradição ateniense, por sua vez, encenará o desbravamento sob a direção de Apolo, já que o caminho mais curto para Delfos só pode passar por Atenas, segundo o prólogo das Eumênides de Ésquilo, em que o deus aborda as margens de Palas, encontra escolta e honras esplêndidas e os filhos de Hefesto lhe abrem um caminho e amansam para ele o solo selvagem, reivindicando os atenienses, diante da tradição do Hino homérico, uma anterioridade sem partilha, por já estarem ali quando Delos via nascer Apolo, e, para comemorar seu papel pioneiro na fundação do santuário ou na primeira ligação entre o oráculo e uma cidade grega, os orgulhosos filhos de Hefesto faziam marchar à frente da procissão oficial enviada de Atenas a Delfos portadores de machado duplo, a Pitaida, decretada ao surgir um relâmpago súbito no céu, que partia do pátio do santuário de Apolo Pítio, às margens do Ilisso, e chegava a Delfos por Elêusis e pela estrada do Citéron, seguindo o itinerário outrora percorrido pelo futuro Pítio, provando o machado duplo brandido pelos primeiros companheiros de Apolo a violência do desbravamento necessário para arranjar o espaço, civilizá-lo e nele lançar fundações.
Desbravar, fundar
1. Um verbo de ação une o conjunto dos gestos executados por Apolo desde seus primeiros passos, ktízein, verbo maior da fundação, sobretudo de cidades novas, ao longo da colonização das terras do Ocidente e das margens do mar Negro desde o século VIII a.C., de registro duplo, desbravar, cultivar e arranjar de um lado, construir, edificar e fundar de outro, sendo o sentido dominante dos termos derivados do radical kti- nas tabuinhas micênicas em linear B, desbravar, preparar o solo, semear e plantar, enquanto na etapa documental seguinte, no século VIII, os poemas homéricos desenvolvem paralelamente os sentidos de fundar e construir e de desbravar e cultivar.
2. Uma terra se desbrava e um terreno se arranja, tornando-se eira ou plantação, pomar bem cultivado, euktímenos, vinha de pés alinhados, e o mesmo ocorre com uma ilha ou um território quando os campos cultivados transformam a paisagem e substituem as terras selvagens, os lugares incultos e as florestas cheias de animais carniceiros, pois, ao contrário dos Ciclopes, brutos sem deuses nem leis, a humanidade dos comedores de pão, mal habita um lugar, o arranja com seu trabalho, impelida por um movimento por assim dizer natural a desbravar, arranjar e construir campos, pomares, casas, ruas e cidades, tudo pertencente ao ktízein, ao bem implantado, ao cuidadosamente traçado e ao belamente construído, sem ruptura entre o urbanismo das cidades e a arquitetura dos campos e das vinhas, num mesmo processo em que a narração mitológica ou épica distinguirá tempos sucessivos.
3. Duas grandes cidades monopolizam na memória épica os gestos da fundação de uma cidade e de seu território, Tebas e Troia, tendo Tebas das Sete Portas, a cidade enterrada pelo Hino a Apolo, papel inaugural, pois os gêmeos Anfião e Zeto arranjaram seu sítio, hédos ktízein, lançaram seus fundamentos e construíram suas muralhas, púrgos, prolongando a construção das portas, das muralhas e do recinto o arranjo do sítio e o desbravamento do território, prefigurando ousadamente os Dióscuros de Tebas a arte de fundar uma cidade na idade da colonização que começa, enquanto na Tróade a tarefa é partilhada entre três mestres de obra, Dárdano, gerado por Zeus, que fundou a Dardânia, ktízein, Ilo, epônimo de Ílion, que construiu a cidade, pólin polízein, e Posêidon e Apolo, a serviço sob o reinado de Laomedonte, o injusto, que ergueram em torno da cidade uma larga muralha que a tornaria inexpugnável.
4. Não há cidade fundada, bem fundada, euktímenos, que não seja ao mesmo tempo terra desbravada, território posto em cultivo, espaço domesticado e civilizado a partir do estado selvagem inicial, e nas Investigações, ditas Histórias, Heródoto de Halicarnasso conta longamente a um auditório ateniense apaixonado pela autoctonia as aventuras dos fundadores que, ousada ou imprudentemente, partiram para colonizar por mar e por terra rumo ao desconhecido e fundar cidades destinadas a tornar-se grandes e às vezes poderosas demais, cobrindo o verbo ktízein durante quatro séculos o conjunto das atividades civilizadoras, do primeiro desbravamento para uma passagem até a edificação dos monumentos arquitetônicos pelos fundadores de cidades.
5. No Hino homérico, o Apolo desbravador realiza-se como fundador no sítio de Delfos, mas nada em seu santuário oracular trai ainda sua atividade de deus arquegeta nem seu extremo prazer em fundar cidades uma após outra, aparecendo a noção de ktízein no Hino em duas ocorrências discretas, uma a propósito de Delos, a ilha hospitaleira, que, quando o nascimento de Apolo parece iminente e Leto lhe promete pelo grande juramento dos deuses que será a morada e o assento sobre o qual o filho de Zeus lançará os fundamentos de um templo para o qual convergirão as hecatombes de toda a terra, se torna a bem fundada, euktiménē, já base sobre a qual Apolo quer edificar sua morada, e outra ainda mais sutil, na qualidade do material escolhido para o primeiro templo de Delfos, pois os pedreiros do canteiro usam pedras talhadas, ktistoí, como convém a um edifício de grande valor, contribuindo cada talhador de pedra para a excelência da fundação e da construção.
6. Por ora o desbravador segue seu caminho, pois nesse primeiro tempo de sua existência Apolo está sempre em movimento, aguieús em ação reinando sobre aguiá e sua paisagem semântica disposta em torno do verbo ágein, levar e conduzir, designando agós o condutor e chefe e aguiá, particípio perfeito de ágein, a que vai a algum lugar, rua de passagem, via de circulação, estrada que conduz de um ponto a outro, e o Apolo aguieús, familiar do urbanismo, está diante da porta de uma casa, de um templo ou de uma cidade sob a forma de um altar ou de uma pedra cônica que figura o deus e lhe dá forma, sendo, segundo as glosas indígenas, o objeto material o próprio deus, mas em posição estática, em repouso no espaço do movimento.
Terrível é o passo de Apolo
1. Antes do relato sobre Delos e Delfos, a Ilíada mostra Apolo atuando no espaço de modo mais técnico que na travessia dos bosques em torno da futura Tebas, pois o plano de Zeus exige sua intervenção na batalha, já que a pressão troiana não pode diminuir e os aqueus devem conhecer a angústia do inimigo chegando ao muro erguido em torno de seu acampamento, e Apolo aproxima-se de Heitor, seu protegido, que acaba de levar um golpe duro, vem diante de seu rosto, promete-lhe ajuda, faz crescer nele imensa fúria e anuncia que aplainará o caminho indo à frente dos condutores de carro, propároithe kiṑn… kéleuthon pâsan leianéō, e avança, derrubando sem esforço com um pontapé o talude no meio do fosso, sobre o qual lança uma ponte, uma calçada longa e larga, pontapé de deus que a ilha de Delos evoca ao acolher Leto, com medo de que Apolo em seu orgulho a fizesse afundar no mar, de modo que, deus caminhante e deus que empurra, Apolo mostra desde a Ilíada a potência de seu pé, abrindo diante de si uma calçada da largura do alcance de um dardo lançado por um guerreiro que põe à prova sua força, tornando supérfluos os machados dos desbravadores atenienses, pois de um só golpe abre um caminho e constrói uma estrada brincando com os obstáculos, derrubando o muro como uma criança à beira-mar que faz com a areia brinquedos pueris e se diverte depois em derrubá-los com um pontapé ou um revés da mão.
2. Há também na Ilíada muralhas prestes a ruir, e Apolo derruba o muro dos aqueus com tanto mais convicção quanto os gregos, ao cavar o fosso e erguer a muralha, esqueceram de oferecer aos deuses adequados os sacrifícios de costume, queixa já feita por Posêidon com tanta aspereza que Zeus teve de prometer ao irmão que um dia próximo o mar, com uma só onda irrepreensível, apagaria todo vestígio da muralha ímpia, mas por ora Posêidon se cala, pois é o dia de Apolo.
3. Terrível é o passo de Apolo, que à entrada do Olimpo faz os deuses empalidecerem e, quando os Argonautas, exaustos, desembarcam ao romper do dia, faz tremer a ilha de Tínia, atingindo o alvo com um só passo tão seguramente quanto a flecha disparada pelo melhor arqueiro, e, quando aparece em Cirene no dia de sua chegada, de sua epidemia, ao santuário, o coro que o acolhe evoca seu pé batendo na porta do templo, sendo representado em Patras, em seu santuário voltado para a ágora, nu e com o pé sobre um crânio bovino e visto por Estrabão na Tróade, em Esminto, pisando num rato, alcançando com um só passo seu posto, como na abertura da Ilíada, silhueta negra de Apolo irado, de arco tenso, que ia semelhante à noite e se posta afastado das naves, o arqueiro tomando posição, ou, noutra silhueta da tradição cultural do século IV, deus que vem como civilizador, percorrendo a terra, civilizando a humanidade e desviando-a dos alimentos selvagens à maneira pomposa de Deméter ou de Triptólemo na imagística edificante de Elêusis.
4. No Hino homérico, Apolo caminhante e desbravador desenvolve uma atividade expressa pelas formas verbais e compostas do movimento denotado por baínein, nem ir e vir nem ir e partir, mas operar uma passagem de um lugar a outro, ou, mais precisamente, pôr o pé sobre, seja embarcar ou desembarcar, escalar o muro de uma cidade ou seguir as pegadas de alguém, gesto que implica uma dimensão estática, pôr o pé, com uma conotação de estabilidade legível numa série de derivados da mesma raiz, bēlós, a soleira, bêma, a tribuna onde o orador sobe para falar, embás ou bēlá, calçado ou sandálias, bébēlos, o espaço pisado, às vezes no sentido de profano, e bébaios, o que é firme, sólido e bem assentado, de modo que plantar-se e manter-se firme sobre os pés é a posição inaugural de Apolo, o deus da Ilíada que protege, amphibaínei, Crisa ou Ísmaro na Odisseia, mantendo-se firmemente de um lado e de outro, Apolo do assento e da estabilidade conferidos a uma cidade ou a um território.
5. Esse é o passo específico de Apolo, que transpõe um limite ou obstáculo, assegura a firmeza sobre o solo e estabelece solidamente a via aberta, enquanto seu irmão mais novo Hermes, outro excelente caminhante, usa um passo completamente diferente, pois, na própria noite de seu nascimento, transpõe a soleira da morada da mãe apenas para dar meia-volta e regressar de sua expedição de rapina apagando as próprias pegadas e invertendo as marcas do gado roubado dos rebanhos dos deuses nas montanhas da Piéria, práticas pedestres que desconcertam bastante Apolo lançado na pista de ladrão tão audacioso.
6. O caminho familiar do passo de Apolo guarda na memória o fim e o começo, traçado acabado, via aberta por um deus cujas passadas dão forma a uma estrada bem construída ou a uma via, aguiá, solidamente arranjada, euktiménē, sancionando o Apolo aguieús a virtude civilizadora dos caminhos e estradas na organização do território, cuja importância para as cidades gregas é conhecida, pois em Esparta são os dois reis que têm jurisdição sobre tudo o que concerne aos caminhos públicos, hodoì dēmosíai, enquanto na Ática os atadores de bois, os Buziges, exercem a seu modo uma jurisdição vizinha à do rei, o arconte que vela pelas impurezas do sangue derramado sobre a terra, lançando maldições que dizem a importância dos caminhos traçados para proteger a vida cultivada, que conhece também a necessidade vital da água e do fogo partilhados, e, assim como em português os caminhos são traçados, em grego são recortados, témnein, de modo que só bárbaros como os citas nômades habitam um território de estradas não recortadas, sendo da ordem das coisas que a terra da cidade seja objeto de um recorte, operação confiada a especialistas e não alheia à autoridade de Apolo, e os caminhos não são apenas recortados, mas também construídos, démein, eúdmētos, como uma ferramenta, um muro ou uma casa.
Ser seu próprio arquiteto
1. Na versão do Hino em que se cumpre como palavra oracular a decisão apolínea de construir ali um templo magnífico, o deus, chegado ao pé do Parnaso, inaugura em pessoa as fundações de seu santuário, sendo seu próprio arquiteto, enquanto outros se apressam ao redor, os assentadores da soleira, Trofônio e Agamedes, e depois os talhadores de pedra, sendo primeiro o templo de pedra, ao passo que na tradição escrita de Pausânias em Delfos a construção de pedra vem por último, depois de três outras, a cabana de loureiro, a montagem de cera e asas e o edifício de bronze, mantendo-se então Apolo em segundo plano e separando-se o deus do oráculo do deus arquiteto, pois um arquiteto vindo do país dos Hiperbóreos, chamado Aguieús, reivindica a conclusão do primeiro templo de Apolo, sem que se saiba se era feito de loureiro trançado, com ramos colhidos no vale de Tempe, onde Apolo teria ido purificar-se após matar a serpente Píton, arquiteto hiperbóreo que leva o nome do Apolo caminhante e vem acompanhado de Págaso, outro hiperbóreo cujo nome evoca outro aspecto de Apolo, o deus chamado Pagásios, postado em Págasas, na Tessália, ponto de partida da expedição dos Argonautas, deus do embarque que mostra a Jasão os caminhos do mar e que, evocado pelo construtor Págaso, aparece também como deus irado.
2. A estrada que leva ao santuário de Delfos está fechada por Cicno, Kúknos, filho de Ares, que despoja violentamente os que conduzem grandes hecatombes a Pitó e faz guerra impiedosa aos fiéis de Apolo, até que Héracles vem desafiá-lo no próprio santuário do deus de Págasas e pôr fim a suas obras de morte, guerreando a serviço de Apolo, cuja cólera é tão grande que ordena ao rio Anauro, inchado por uma chuva de tempestade, que faça desaparecer todo vestígio do túmulo erguido pelos seus em honra de Cicno, de modo que Págaso, companheiro de Aguieús e segundo arquiteto vindo da Hiperbórea, lembraria pelos relatos de Págasas a desmedida odiosa e funesta dos que negam aos caminhos o direito de ser livremente percorridos pelos que respeitam o Apolo Aguieús e sua rede de vias que ligam casas, santuários e cidades em toda a extensão do mundo civilizado.
3. Os Hiperbóreos, longínquos e misteriosos, cujo caminho maravilhoso para suas festas ninguém poderia encontrar por mar nem por terra, segundo Píndaro, que muito sabe a seu respeito, inacessíveis enquanto todos os caminhos levam a Delfos, não só dão origem a arquitetos, mas têm vocação para os longos percursos e as vias de procissão, dedicando-se ao transporte a longa distância de oferendas cerimoniais, viagens pelas vias sagradas que fazem deles emblemas míticos dos percursos chamados píticos, dafnefóricos ou, menos comumente, litofóricos, porte de pedras cônicas ou quadradas em vez de palha, feixes de trigo ou loureiro, em que, desta vez, os Hiperbóreos não parecem tomar parte.
Os cantores de Mileto
1. Em Mileto, no coração da Jônia, uma confraria chamada os Cantores, Molpoí, exerce um poder meio político, meio religioso na órbita do Apolo Delfínio, deus políade, e por volta do fim do século VI a.C., a cada ano, quando volta a primavera e com ela Apolo, uma procissão parte de Mileto para Dídimos por um itinerário balizado por uma litania de topônimos, santuários e nomes próprios, pontuado por cantos e sacrifícios, em que membros da confraria dos Molpos avançam levando duas pedras chamadas gulloí, a primeira erguida junto a Hécate, a Hécate que está diante das portas, à entrada da cidade, coroada e ungida de vinho puro em honra da divindade cujo altar o Apolo de Mileto abriga em seu santuário, e a segunda depositada dezessete quilômetros adiante diante das portas do santuário de Apolo em Dídimos.
2. Pedras cônicas ou quadradas, os gulloí de Mileto apresentavam-se provavelmente como pilares análogos aos que tornam presente o Aguieús, o Apolo das ruas e das vias de comunicação, pedras-altares que balizam a estrada entre dois templos de Apolo segundo a via sagrada percorrida pelos ministros do Delfínio, que cumprem as cerimônias, órgia, escritas na estela, pedras levadas de uma ponta a outra da via apolínea que representam o deus aguieús, o mesmo que Pausânias viu em Megalópolis sob forma quadrangular ou que se ergue em sua massa cônica no alto da via aberta por Bato de Cirene quando desemboca diante da entrada do santuário do deus arquegeta, o Apolo fundador da cidade com Bato, o Gago.
3. Nenhuma dessas formas exclui as outras, pois pedras de viação, estelas-altares em trânsito e cones monumentais fincados diante da porta de um santuário desdobram de modo convergente as virtualidades do arquiteto Aguieús, que alcança, nos passos de Apolo, o sítio enfim descoberto do oráculo délfico, e, chame-se Aguieús ou Págaso, o arquiteto apolíneo executa uma obra de construtor cuja gestualidade ativa engloba a gestualidade mais ritual de litóforo, portador de pedras, que realiza primeiro, à maneira de Apolo, as vias bem construídas e solidamente arranjadas, eco presente no colégio dos portadores de marcas, sēmiophóroi, companheiros do Apolo Fundador em Hierápolis da Frígia.
4. Caminhos, altares de caminho, santuários, templos com altares, portas e muralhas são trabalhos à medida de um deus que exprime desde seus primeiros passos o desejo de fazer-se uma habitação, oikía thésthai, e que não cessa, caminhando, de repetir a fórmula da intenção de construir ali um templo magnífico, havendo em Apolo um gosto inato pelas construções monumentais, como testemunha seu sacerdote humilhado, que o invoca ao longo da praia levando o cetro e os ornamentos do próprio deus e lembra a atenção dada à morada de Apolo, se alguma vez ergueu um teto para seu templo ou queimou em sua honra gordas coxas de touros e cabras, teto de Crises que talvez não fosse o madeiramento de cipreste imputrescível oferecido ao deus de Delfos pelos Alcmeônidas com fausto inesquecível para o mundo grego, mas ao menos um desses tetos de alto acabamento comemorados aqui e ali por dedicatórias arcaicas, como na Tessália, por volta de 550 a.C., numa estela em que dois personagens se gabam, um de ter feito o telhado, outro de ter feito a cavilhação, isto é, provavelmente, a fixação das peças do madeiramento com cavilhas, ou na região do Granico, a meio caminho entre Cízico e Lâmpsaco, numa dedicatória gravada nas caneluras de uma coluna jônica que lembra que um personagem, anônimo por culpa de uma quebra, mandou fazer a cobertura de um santuário, ajudado pelos companheiros, que pagaram as despesas com as rendas dos domínios sagrados e a venda das peles das vítimas.
5. Os numerosos templos de Apolo não exibem apenas altos madeiramentos e importantes telhados, mas gabam-se também de soleiras largas e poderosas, de uma só peça, como provavelmente a assentada por Trofônio e Agamedes, já que a soleira é a pedra maior do edifício e é em torno dela que os mestres da pedra talhada fazem subir os muros do templo de Delfos, podendo atingir seis metros de comprimento por dois de largura e pesar cerca de dez toneladas, como a do templo do século IV em Delfos, parte do santuário apolíneo mais frequentemente evocada, transposta por Agamêmnon para consultar o oráculo, como lembra Demódoco no palácio dos Feácios, sobre a qual Creso, libertado, depõe as correntes de sua escravidão e onde o assassino suplicante se senta à espera do deus de Cirene, e cujo duplo nome arcaico revela dois traços da gestualidade apolínea, oudós, que designa a base e o assento sobre os quais o arquiteto fundará o edifício, e bēlós, que traz a marca do pé que vem pousar e assegurar firmeza.
Primeiros altares, primeiros ofícios sacrificiais
1. Muralhas e cidades pertencem ao reino de Apolo quando se afirma fundador e arquegeta, mas, sem sair do recinto inaugural do Hino desde Delos, as primeiras formas arquitetônicas que Apolo faz nascer em seu rastro são altares, já evocados por Leto desde as primeiras palavras para convencer a ilha hospitaleira, à qual prometia a exclusividade dos altares odoríferos em torno da morada de Apolo, para onde o mundo inteiro se reuniria para conduzir hecatombes, e jurava solenemente que Febo teria ali para sempre seu altar odorífero e seu santuário, sem que Leto possa impedir e sem que Apolo pareça capaz de separar o lugar ocupado do movimento que o arrebata.
2. Na primeira etapa, Telfusa, há o projeto de um oráculo e de um altar bem construído, eúdmētos, como um caminho ou uma via bem traçada, contrariado pela malevolência do sítio, ao qual Apolo voltará para transtornar o lugar telfusiano e construir para si um altar no meio do bosque sagrado, junto à fonte, diante do qual todos o chamam Apolo Telfúsio para lembrar a humilhação infligida à ninfa ciumenta, e, chegado a Crisa e construído o templo, os altares estão ali, irrigados pelo fluxo das hecatombes, de onde sobe sem cessar uma espessa fumaça de carnes gordas, altar arquitetônico que exige a competência do fundador e em torno de cuja mesa, de cujo recinto, Apolo, ávido de vítimas, procede à execução da primeira cena sacrificial, com servidores, instrumentos de culto e gestos rituais, cena inaugural que cabe a um deus explicitamente qualificado, mais tarde mas com autoridade retroativa, de supremo responsável por todas as consagrações, hidrúseis, fundações de cultos, festas e sacrifícios para o conjunto do mundo grego.
3. Diante do santuário oracular, Apolo pergunta-se que gente poderia trazer para fazer dela os oficiantes, orgiônes, de seu culto em Pitó, já que as florestas que atravessou e os países que percorreu estavam desertos, com a espécie humana ausente ou invisível, salvo alguns Flégios à parte, ardendo de orgulho insensato, e precisa olhar para outro lado, para o mar, onde aparece um navio carregado de cretenses partidos de Cnossos, que serão os ministros de seu culto, farão os sacrifícios, hierá rhézein, e darão a conhecer as têmistes, as palavras fundadoras do oráculo, e, tomada a decisão, Apolo metamorfoseia-se em golfinho, salta sobre o convés, cortando a respiração da tripulação, e o golfinho monstruoso dirige o barco, impelido pelo vento numa trajetória que desafia o bom senso das instruções náuticas, até que Crisa aparece e Apolo surge subitamente, brilhante como um astro, o fogo incendeia o santuário e o deus avança entre uma dupla fileira de trípodes, para terror do povo de Crisa, subitamente aglomerado na via sagrada, cujas mulheres e filhas soltam gritos agudos, a ololugḗ que saúda a epifania de Apolo e anuncia a aproximação do sacrifício e das degolas entre as trípodes.
4. Apolo apressa-se, saúda os estrangeiros vindos pelos caminhos úmidos e convida-os a desembarcar, ekbaínein, iniciando-os com instruções de construir um altar, um bōmós, na praia, sobre a língua de areia e terra, na soleira de seu domínio, acender um fogo, pûr epikaíein, oferecer um sacrifício de farinhas brancas, álphita leukà thúein, e rezar mantendo-se em torno do altar, eúkhesthai… paristámenoi perì bōmón, primeiro altar em exercício a que é preciso dar um nome, já que, por ter saltado sobre eles sob a aparência de um golfinho, delphís, o invocarão sob o nome de Delfínio, e o próprio altar será Delfínio e visível para sempre, dando por fim aos futuros ministros o conselho de tomar a refeição, fazer uma libação aos deuses bem-aventurados senhores do Olimpo e depois segui-lo cantando o peã enquanto atravessam o país para tomar posse do rico santuário.
5. Apolo terminou e os cretenses estão instruídos, cabendo-lhes executar palavra por palavra o programa enunciado, construir um altar, fazer um primeiro sacrifício, dar um nome ao deus desse território e depois comer entre si sem esquecer os olímpicos, momento inaugural para a espécie humana que aparece no território arranjado por Apolo, em que a cena sacrificial se desdobra de uma vez, com os materiais do altar prontos, a lenha e o fogo à espera e os grãos dos cereais ali, sem nada a inventar, nem a semente do fogo nem os alimentos cerealíferos, surgindo os instrumentos e ingredientes diante dos ministros, concomitantes ao desejo de Apolo de ver os ritos se cumprirem, hierá rhézein, e os ritualistas põem-se logo à obra, executando em ordem as operações enunciadas pelo anfitrião, e, saciados, os cretenses põem-se a caminho com Apolo à frente, tocando cítara e levando-os de belo passo erguido.
6. Nesse altar liminar, à beira-mar, não há vestígio de sacrifício animal e sangrento, pois o deus das hecatombes e da fumaça gorda reserva-se para depois, consistindo esse primeiro ritual numa oferenda de cereais dada à língua de fogo sobre o altar, altar puro que se nutre de grãos de cevada sem partilhá-los com os oficiantes, que comem entre si depois de libar aos deuses, enquanto no sítio de Delfos, diante, senão dentro, do templo de Apolo Pítio, os oficiantes vindos de Creta executarão sacrifícios completamente diferentes, pois, quando se inquietam com o gênero de vida que os espera nessa terra rochosa sem vinhas nem pastagens, Apolo lhes dá nova palavra de ordem, que cada um brande seu cutelo, mákhaira, na mão direita e não pare de fazer jorrar o sangue da garganta dos carneiros, spházein, chegando as hecatombes prometidas, os odores de carne e o prazer das oferendas de ricas vítimas atraídas pela força centrípeta do outro altar, construído ao mesmo tempo que o templo de largas fundações, e nessa segunda cena sacrificial o ator principal já não é o fogo visível, epópsios, do altar, mas a faca de degolar exposta, sem estar escondida, como de costume, no cesto sob os grãos, visibilidade da faca ensanguentada de que Apolo se faz garante solene e violento.
7. Na paisagem délfica de Apolo, dois altares contrastam por decisão inaugural, opondo-se do mesmo modo que dois outros altares apolíneos situados na terra de Delos, que, à falta de oráculo, é rica em altares e hecatombes, pois é em Delos sobretudo que Apolo reina sobre um altar famoso pelos produtos simples e naturais oferecidos de toda parte, o do Apolo chamado Genétōr, que recebe exclusivamente em sua mesa os puros frutos da terra, cevada e bolos, malva e asfódelo, altar ao qual, diz-se, Pitágoras veio prestar homenagem a um deus caro entre todos, onde ninguém sacrificava vítimas animais, altar puro, não ensanguentado, situado atrás de outro, chamado Keratṓn, o altar de chifres, trançado de chifres de cabras pelo Apolo délio e alimentado pelos sacrifícios sangrentos, também os mais habituais.
8. No fim do caminho que parte de Delos, uma última imagem de Apolo, plantado diante do altar de seu templo magnífico, prometendo aos ministros ter sempre na mão direita a faca de degolar, gesto de violência final que faz ressoar dois traços lançados no início do Hino, o comportamento do jovem deus que entra no Olimpo de arco na mão, retesado, tenso, força em cólera, simples esboço posto em epígrafe, mas gravado e litografado pelas confidências de Delos a Leto, que treme do que se diz, que Apolo será de um orgulho sem limites e virá mandar como senhor em imortais e mortais, atásthalos, de orgulho ilimitado como os Titãs, tensos contra o céu e erguidos contra Zeus, prítane que faz de chefe e quer sempre impor sua vontade, deus violento, esse caminhante, construtor de altares e templos que vem instalar-se nas alturas de Crisa.
