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FESTAS ROMANAS

Georges Dumézil. Fêtes romaines d'été et d'automne, suivi de Dix questions romaines. Paris: Éditions Gallimard, 1975

  • Este livro se formou a partir da confluência de diversas necessidades intelectuais e práticas de pesquisa acumuladas ao longo de décadas.
    • A teologia romana arcaica, objeto de análises e comparações ao longo de trinta anos, revelou-se insuficiente para capturar algo essencial da experiência religiosa
    • A teologia constitui um corpo de ideias articuladas, cujas divisões, pontos singulares e articulações cabe determinar
    • A prática religiosa, ao contrário, é um continuum vivido que se adapta às circunstâncias periódicas ou acidentais
    • A prática apoia-se na teoria — sem a qual nada teria sentido — mas com grande flexibilidade nas escolhas, combinações e sequências
    • Para a religião pública, o principal quadro dessa prática é o calendário e, dentro dele, o tableau das festas fixas
    • Tornou-se necessário acompanhar a teologia em sua distribuição anual, que por vezes a desacomoda, a tensiona e a desarticula, mas que não deixa de ser sua justificação e a razão de sua duração
  • O calendário romano tem sido objeto de inúmeros estudos ao longo de um século, mas o férial como conjunto de festas fixas recebeu menos atenção do que a organização dos meses.
    • Agnes Kirsopp Michels é autora de The Calendar of the Roman Republic, Princeton, 1967 — uma das contribuições mais importantes sobre o tema
    • O calendário interessa ao historiador da religião sobretudo pelo férial
    • Um dos resultados mais consolidados dos estudos do calendário indica que, antes da reforma estabilizadora de Júlio César — e mesmo antes do último estado pré-juliano, já relativamente estável, testemunhado pelos Fastos de Âncio — os meses não estavam firmemente vinculados às estações naturais
    • Os meses pareciam disputados entre o ritmo da lua e o do sol
    • Procedimentos de correção, como intercalações de forma e amplitude variáveis e sem periodicidade definida, anulavam de tempos em tempos esse deslizamento perpétuo
    • Em épocas de perturbação ou negligência, a disparidade podia chegar a várias semanas ou até vários meses
    • Isso parece solapar um dos principais apoios para a interpretação de qualquer férial: seria possível falar de festas de equinócios, de solstícios ou de festas agrárias ligadas a um momento preciso do ano?
    • Toma-se como exemplo as Divalia, festa de Diva Angerona: Angerona carrega em seu nome os “angusti dies” — os dias mais “estreitos” do ano — e seu único traço singular remete a representações associadas a momentos de alarme solar, como o início do inverno ou um eclipse
    • No calendário juliano, as Divalia ocupam teoricamente o dia do solstício de inverno; mas esse estado de coisas é considerado recente demais para iluminar o valor original da deusa e de sua festa
    • Essa objeção, porém, não se sustenta: os romanos tinham bom senso e sabiam observar o céu
    • Fora dos casos de grande desordem que os eruditos modernos tendem a destacar, as intercalações intervinham com frequência suficiente para que as festas não perdessem o sentido que necessariamente tinham no ano
    • As Parilia de 21 de abril — festa dos rebanhos e época recomendada para o acasalamento das ovelhas — não podiam se afastar muito desse ponto da primavera sem se tornarem absurdas
    • As Consualia e as Opiconsivia de 21 e 25 de agosto só se concebiam no momento real da colheita armazenada
    • As Vinalia rustica de 19 de agosto, destinadas a afastar as tempestades dos cachos em amadurecimento, não poderiam abandonar seu posto sem serem rapidamente repostas no lugar
    • O estudo da distribuição das festas — seus eventuais vínculos de solidariedade ou oposição — é, portanto, possível, não apenas para as festas de terceira função ligadas aos ritmos da natureza, mas igualmente para os rituais de segunda e primeira funções, de Marte e Júpiter, distribuídos entre elas
  • A escolha de iniciar o estudo pelos meses de verão e outono resulta de circunstâncias mais pessoais de pesquisa.
    • Na primeira parte de Mythe et épopée III, intitulada “La saison des rivières”, obtiveram-se algumas clarezas sobre a intenção das Neptunalia de 23 de julho e entraram-se em vista relações entre essa festa e as que lhe são vizinhas
    • Em ensaios mais antigos, foram abordados certos aspectos do October Equus das Idas — cerimônia central de outubro, apenas uma das cerimônias marciais do mês
    • Foi também esclarecido o paralelismo e a inversão que justificam a coexistência dos dois grupos formados pelas Consualia e Opiconsivia de agosto (21 e 25) e pelas Consualia e Opalia de dezembro (15 e 19)
    • O projeto aqui realizado, em linhas gerais, é o de abranger sob um único olhar toda a metade do férial anual que se estende do solstício de verão ao solstício de inverno
    • Duas reservas são feitas: as Nones Caprotinas de 7 de julho foram deixadas de lado no início — retomadas em apêndice — por duas razões: Paul Drossart as interpretou de forma brilhante antes, e tal interpretação as vincula não ao que se segue, mas ao que a precede, o que foi chamado de “La saison de l'Aurore”
    • Simetricamente, as Saturnalia de 17 de dezembro foram deixadas de lado porque parecem se vincular não ao que as precede, mas ao que as segue — o grande abalamento de todas as coisas marcado pelo solstício — e porque ainda não foi possível precisar essa impressão
  • Duas outras conveniências conduziram a este estudo particular: a lacuna de Ovídio nos Fastos e o estado obscurecido das festas do segundo semestre romano.
    • Ovídio — denominado o grande mestre — não pôde ou não quis continuar seus Fastos além do mês de junho, e os últimos livros, do sétimo ao décimo segundo, não foram escritos
    • Pareceu caridoso e útil começar precisamente por essas estações órfãs
    • A maioria das festas que preenchem esse período permaneceu até então como autênticos enigmas, aceitos como tais, ou foram submetidas a tratamentos pelas escolas das últimas gerações que tornaram as coisas mais claras obscuras
    • O propósito é enfrentar as esfinges e desmontar os artifícios
    • Esse deciframento e essa limpeza conduzem, para o segundo semestre da vida religiosa de Roma, a uma visão de conjunto certamente mais simples e mais coerente do que aquela que o primeiro semestre parece impor
  • Os meios de exploração variam naturalmente com a matéria, sob a regra comum de que nenhum elemento desses dossiês geralmente escassos seja negligenciado.
    • Para as festas agrupáveis sob a rubrica dos Trabalhos e os Dias, a solução é buscada sobretudo na filologia latina, fornecida pelos tratados dos agrônomos: basta considerar os trabalhos que se realizam ou se iniciam no momento preciso em que os ritos são celebrados
    • A análise dos “mitos de festas” — assim para as Lucaria e as Neptunalia — pode completar ou matizar a imagem assim formada
    • A etimologia só é utilizada quando é evidente, como para as Meditrinalia; nos outros casos, se uma interpretação sugerida por outras razões propõe uma explicação para um nome até então rebelde, essa explicação constitui um reforço, não um fundamento — assim para as Furrinalia
    • Para o October Equus, a análise direta dos dados romanos revela bem a intenção da festa, mas somente a comparação com uma cerimônia indiana homóloga assegura sua antiguidade
    • O “Sacrifício do Cavalo” védico, situado numa teoria geral e estruturada dos sacrifícios reais, permite reconhecer em Roma, além do verão e do outono, homólogos arcaicos dos outros rituais reais da Índia
    • Sem pertencer a nenhuma escola, os elementos de explicação foram tomados onde se apresentavam, com atenção para situar cada problema em seu verdadeiro nível: puramente romano aqui, já indo-europeu ali
    • Em todos os casos, o trabalho se limitou a esboços detalhados, mas sem pretensão à eternidade: o importante era dar as linhas mestras dos raciocínios, os meios de uma demonstração, os apoios de uma hipótese
    • As notas serão esparsas e as controvérsias raras e breves
    • Uma das doenças da erudição moderna é a hipertrofia das notas: referências alinhadas às dezenas constituem espécies de bibliografias caudas que, não sendo nem classificatórias nem críticas, encobrem a metade inferior das páginas como vastos depósitos de lixo nos arredores de certas cidades
    • Impõe-se reagir contra essa forma especiosa de poluição e não citar tudo o que se conhece e que não concerne diretamente ao ponto examinado
    • Quanto às controvérsias personalizadas, uma longa experiência convenceu da sua pouca utilidade; não cabe considerar-se obrigado a refutar toda objeção ou a enfrentar toda opinião contrária
    • Nenhum debate será aqui travado com vários dos mais recentes historiadores de Roma primitiva ou da religião romana: entre os natu minores — os de geração mais jovem — Robert E. A. Palmer, autor de The Archaic Community of the Romans, Cambridge, 1970, e Udo W. Scholz, autor de Studien zum altitalischen und altrömischen Marskult und Marsmythos, Heidelberg, 1970; entre os aequales — os contemporâneos — Andreas Alföldi, amigo e autor de Die Struktur des voretruskischen Römerstaates, Heidelberg, 1974, apesar da sedução de uma grande obra: já no segundo capítulo — “Matriarchale Gesellschaftsordnung und Dreiteilung” — fica claro que há divergência na leitura e na enunciação dos mesmos dados
  • Dez Questões Romanas são anexadas a este pequeno livro.
    • As quatro primeiras, relativas ao October Equus, complementam o que terá sido dito sobre esse sacrifício na segunda parte do estudo do férial
    • Com novos meios, todas tratam de um mesmo ponto fundamental — um contrassenso multifacetado repetidamente denunciado e continuamente renascente: a interpretação do deus Marte, em particular de seu ritual das Idas de outubro, na linha de Wilhelm Mannhardt
    • Marte agrário, Marte deus da vegetação, o Cavalo doador de fecundidade, a estranha solidariedade suposta entre o sacrifício de outubro e as Parilia de abril encontram sempre defensores ardentes ou engenhosos — e suas razões serão examinadas
    • As Questões 5 e 6 — as únicas que retomam artigos já publicados — aplicam a duas divindades enigmáticas, Helernus e Vacuna, a regra enunciada acima: utilizar simultaneamente, sem nada negligenciar, todos os dados de dossiês evanescentes
    • A Questão 7 concerne a uma deusa mais conhecida, Fortuna, mas num contexto que, há três séculos, constrange — indevidamente — os exegetas de Horácio
    • As Questões 8, 9 e 10 são prolongamentos da segunda e da terceira parte de Mythe et épopée III
    • A nona Questão não é de autoria própria: reproduz essencialmente o artigo em que Paul Drossart soube dar sentido a uma estranheza da lenda que justifica a festa das Nones Caprotinas
  • Os capítulos do estudo do férial e as Questões Romanas estão repartidos em seções, cada uma introduzida por um breve prefácio comum.
    • A matéria do livro é de tal natureza que será certamente mais consultada do que lida de forma contínua
    • Deseja-se que os consulentes não se limitem à página, ao capítulo ou à Questão que os interessa diretamente, mas que os deixem ao menos enraizados no pequeno conjunto que contribui para justificá-los
    • É insuficiente, por exemplo, para a compreensão das Lucaria, ler apenas o capítulo a elas dedicado: é necessário observá-las em seu lugar na seção coberta pelo título mais geral “As águas e os bosques”
    • Da mesma forma, as quatro Questões relativas ao Cavalo de Outubro são inseparáveis e a ordem de exposição não é sem importância
  • Uma parte deste livro foi preparada em seminários na Universidade de Los Angeles em 1971, e outra em uma série de conferências na Universidade de Liège em 1972.
    • Jaan Puhvel e Jacques Duchesne-Guillemin são agradecidos por terem proporcionado esses encontros frutíferos
    • O texto é datado de Vernonnet, agosto de 1975
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