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MITO E EPOPÉIA III

Georges Dumézil. Mythe et Epopée III. Paris: Gallimard, 1973

Introdução

  • O primeiro volume de Mito e Epopeia (1968) foi dedicado a um feixe de problemas homogêneos, mostrando como diferentes sociedades indo-europeias exploraram literariamente a ideologia das três funções.
    • A Índia desenvolveu a epopeia literária em versos (Mahabharata).
    • Roma desenvolveu a história das origens.
    • No Cáucaso, os descendentes dos Citas desenvolveram uma coleção de narrativas folclóricas (epopeia narte).
    • Cada sociedade o fez independentemente umas das outras, segundo as formas diversas que essa ideologia vivaz havia assumido nas sociedades filhas após a “dispersão”.
    • O objetivo foi observar, separadamente, a maneira como foi feita a exploração literária de um sistema de representações arcaicas.
    • A ideologia só continuava a comandar a realidade social de forma bem alterada na Índia, mas em toda parte era compreendida e utilizável como quadro de pensamento e filosofia.
    • O resultado foi três ensaios justapostos e a observação de divergências progressivas, em vez do aprofundamento das concordâncias originais.
  • O segundo volume (1971) abordou três problemas de outra natureza, tendo como único elo o fato de a Índia contribuir regularmente com um episódio substancial, porém secundário, do Mahabharata.
    • Pretendeu-se mostrar que cada episódio prolonga um conjunto épico que a comparação com epopeias, lendas ou romances de outros povos indo-europeus leva a considerar como pré-indiano.
    • No primeiro e terceiro casos, o conjunto é já indo-europeu; no segundo caso, é indo-iraniano.
    • Shishupala apresenta homologia com o escandinavo Starkadr e o grego Héracles.
    • A concordância dos nomes do indiano Kāvya Ušanas e do iraniano Kavi Usan se acompanha de traços concordantes no tipo e nas aventuras, reportando-se aos ancestrais comuns indo-iranianos (Arya do início do II milênio a.C.).
    • O paralelismo dos reis fabulosos Yayāti (Índia), Yima (Irã) e Eochaid Feidlech (Irlanda), especialmente a analogia entre o primeiro e o último (pais de filhos sem piedade e de uma filha notável cujo nome contém hidromel, Mādhavī/Medb), revela uma articulação de temas e concepções que dificilmente se constituiu várias vezes de forma independente.
    • O resultado foi localizar epopeias cuja matéria e forma parcial já existiam antes das primeiras ou últimas migrações pré-históricas.
  • O presente volume (terceiro) reúne três ensaios romanos, nos quais o “legado indo-europeu” está presente, mas a novidade está em trazer dados novos para o velho problema da formação da história dos primeiros séculos de Roma.
    • Os três ensaios baseiam-se: na concordância do “Neto das Águas” indo-iraniano e do “Sobrinho” irlandês; na Aurora védica; no quadro ideológico das três funções.
    • O velho problema é como se formou a história dos quatro primeiros séculos de Roma que se impôs aos fundadores da annalística e, através deles, aos escritores que se leem.
    • A importância desse problema apareceu desde os primeiros esboços das investigações comparativas.
  • Na guerra inaugural da República, dois heróis estranhos salvam o Estado: no início, o Caolho (Horácio) fulmina o inimigo com estupor; no final, o outro sacrifica o braço direito, tornando-se Maneta (Múcio), para enganar o inimigo que sitia Roma.
    • Um capítulo de Mitra-Varuna (1940) colocou em paralelo esse par de personagens humanos (Horácio e Múcio) com os dois deuses soberanos do panteão escandinavo: Odin (feiticeiro caolho) e Tyr (patrono da guerra e da assembleia, que sacrifica o braço direito para enganar o lobo Fenrir).
    • O que na Escandinávia é um pedaço de mitologia situado nos longínquos do Grande Tempo, em Roma se apresenta como um fragmento datado da crônica nacional.
    • A suspeita natural obrigou a ampliar o problema: se Horácio e Múcio vêm de “antes de Roma”, de uma mitologia perdida e recuperada pela história, o que há de histórico no evento que os emoldura (guerra de Porsenna, ligada ao fim da dominação etrusca e à passagem do regnum à libertas)?
  • Nos anos seguintes, o nascimento de Roma pela guerra, reconciliação e fusão de dois grupos étnicos (romanos de Rômulo e sabinos de Tito Tácio) foi esclarecido pela lenda escandinava da formação da sociedade divina completa.
    • Odin e os deuses Ases (magos e guerreiros) atacam os deuses Vanes (opulentos e voluptuosos) de Njord e Frey.
    • Após uma guerra de sucessos alternados, as duas partes se reconciliam e os principais Vanes vêm viver com os Ases, enriquecendo-os com suas vantagens.
    • O deus romano Quirino (terceiro termo da tríade Júpiter Marte Quirino) passa por ter entrado no panteão romano unitário por ocasião dessa paz, trazido pela componente sabina.
    • Os grandes Ases (Odin e Thor) formam com o Vane Frey a tríade central da mitologia escandinava.
    • Aqui novamente Roma apresenta como eventos humanos, nacionais, datados, animados por romanos de nomes conhecidos, o que a Escandinávia apresenta como mitos divinos.
  • A partir desses dois casos, outros “eventos” da Roma arcaica foram submetidos ao mesmo exame, e o presente livro expõe os últimos resultados dessa investigação ininterrupta.
    • As investigações pleiteiam um lugar no piritaneu dos historiadores, segundo a definição tradicional: aqueles que se esforçam por todos os meios razoáveis para estabelecer, datar e explicar fatos, mas se recusam a fazê-lo quando não têm os meios.
    • Os fatos determinados pertencem à história das ideias, não à história dos eventos, mas ajudam a desmascarar falsos eventos facilmente aceitos.
    • Reconhecer que a lenda da erupção do lago Albano no início da Canícula decorre da teologia de Netuno, cuja festa abre a série dos dias caniculares, e que essa teologia e lenda se juntam a concepções indo-iranianas e irlandesas.
    • Compreender que as relações de Camilo e Mater Matuta não se limitam a um voto formulado, atendido e pago, mas se expressam em muitas coisas narradas sobre Camilo.
    • Constatar que, nas biografias do mesmo Camilo e de Coriolano, a ideologia das três funções sugeriu quase uma dezena de “quadros tripartidos” a cada termo respondendo a uma intenção funcional imediatamente sensível.
    • Isso não revela os “planos” de Coriolano, Camilo ou do Senado, mas os dos homens de letras que compuseram essas narrativas.
  • Nenhum dos procedimentos empregados é tomado de outra prática que não a dos historiadores ou seus auxiliares indispensáveis: explicação de textos, determinação de constantes ou leitmotivs, paralelismos e oposições em série.
    • A comparação é familiar aos helenistas que comparam Dórios, Jônios, Arcádios e Aqueus.
    • O nível de aplicação é mudado, não o tipo de relações: Indo-Iranianos, Gregos, Latinos, Germanos, Celtas, etc., estão entre si como os Aqueus, Arcádios, Jônios e Dórios estão entre si e em relação aos homens pré-históricos que desceram das montanhas ou estepes do Norte.
    • Comparar Shishupala, Starkadr e Héracles e determinar seu ponto de partida comum é fazer, em um estágio mais antigo, o que os historiadores da fábula grega fazem com os Héracles de Argos, Tebas, Esparta e outros lugares.
  • Essas pesquisas consistem em grande parte em testar as fontes da informação, reconhecer exatamente o gênero e medir a quantidade de ensinamentos que elas fornecem.
    • O transbordamento do lago Albano e a criação de um rio efêmero na estação das Neptunais aparece como a forma romana de um mito cuja forma irlandesa é a produção do rio Boyne pelo transbordamento do poço de Nechtan em punição a um sacrilégio.
    • Camilo transpõe para o masculino, diante de Falérios, com o vil pedagogo que expulsa do acampamento sob vergastas e os pequenos garotos inocentes que honra, o que as matronas romanas mimetizam ritualmente a cada ano na festa de sua protetora, a deusa Aurora.
    • Toda a história do cerco do Capitólio pelos gauleses se mantém em três cenas claramente distribuídas sobre as três funções: o ato prodigioso de piedade de um Fábio, o sucesso de Mânlio contra a escalada noturna, os últimos pães atirados do alto da cidadela sobre as avançadas inimigas.
    • Esses fatos, todos revelados ou postos em valor pela comparação em diversos níveis, dissuadem, apesar das precisões de nomes de lugares e homens, de buscar eventos reais sob as narrativas consideradas, e engajam a restituí-las à literatura pura.
  • Há pouca esperança de que o pedido do autor seja levado em consideração, pois os estudos se encontram em uma posição particularmente desconfortável, pressionados entre uma recusa e uma anexação.
    • Muitos historiadores do mais velho passado de Roma, especialmente os mais em vista, continuam a condenar sumariamente esses estudos ou a ignorá-los, mesmo que façam empréstimos discretos.
    • Os elementos novos de apreciação que esses estudos trazem, os “fatos comparativos”, perturbam convenções tácitas e abalam ou destroem construções respeitadas.
    • Eles são mal recebidos porque frequentemente põem em relevo conjuntos significativos, cujos elementos isolados estavam habituados a tratar separadamente.
    • O autor relembra a primazia dos conjuntos sobre seus constituintes e a urgência de levar em conta as intenções que os organizam na apreciação dos detalhes.
    • Essa observação de bom senso já fez algum caminho, mas engajou esses estudos em um outro debate, alheio a eles.
  • A palavra “estrutura” tornou-se ambígua, pois adquiriu um emprego técnico muito mais ambicioso em um sistema filosófico hoje em moda (estruturalismo), gerando confusão.
    • O trabalho do autor é frequentemente classificado entre as manifestações ou prodromos do estruturalismo, o que é um elogio ou uma censura conforme os autores.
    • O autor não é, nem tem que ser ou não ser, estruturalista. Seu esforço é de um historiador, não de um filósofo.
    • Ele se limita a observar os dados primários em domínios geneticamente aparentados e, pela comparação, a remontar aos dados secundários (protótipos comuns), sem ideia preconcebida e sem esperança de resultados universalmente válidos.
    • O chamado “teoria de Dumézil” consiste em lembrar que existiram Indo-Europeus e, no rastro dos linguistas, pensar que a comparação das mais velhas tradições dos povos seus herdeiros permite entrever as grandes linhas de sua ideologia.
    • O autor não conhece “estruturas” senão aquelas inscritas nos documentos e resultantes de sua comparação. Nenhuma é imposta a priori.
  • O autor reconhece que quem consagra sua vida ao estudo dos produtos do espírito humano se justifica por uma espécie de fé, mas deve saber que o dia em que os mecanismos do espírito se tornarem matéria de uma ciência não está à vista.
    • A época atual, embriagada de velocidade, parece esquecer essa reserva. As ciências humanas, intoxicadas pelo avanço prodigioso das matemáticas e das ciências da matéria, abandonam-se ao sonho de sondar o fundo de seus problemas em uma geração.
    • O autor se satisfaz em contribuir para a futura ciência do espírito (ou cérebro) liberando fatos que, embora numerosos, são apenas ínfima parte do que é preciso descobrir, classificar e meditar.
    • Para distinguir claramente as duas démarches heterogêneas, as palavras “estrutura” e “estrutural” não aparecerão mais neste trabalho nem nos seguintes.
  • Onze capítulos deste livro foram preparados em dez seminários sobre religião romana realizados na Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), em janeiro, fevereiro e março de 1971.
    • O autor expressa sua viva reconhecimento a Jaan Puhvel, Wayland D. Hand e Philip Levine por lhe terem proporcionado a oportunidade de discutir ideias novas com jovens interlocutores ativos, críticos e benevolentes.
    • O professor Jaan Puhvel (fundador da seção de estudos indo-europeus da UCLA) e o professor C. Scott Littleton (Occidental College) tiveram a amizade de participar dessas reuniões.
    • Uma parte do último capítulo foi proposta em um colóquio de estudos indo-europeus na Universidade da Califórnia, Santa Bárbara (Departamento de Religião, professores Walter H. Capps e Gerald J. Larson).
    • Um resumo da primeira parte foi apresentado na Universidade de Oxford em novembro de 1971 como O’Donnell Lecture, por convite do professor I. Ll. Foster.
    • Vários pontos da terceira parte foram precisados em seminários na Universidade de Liège (Fundação Francqui) durante o trimestre de outono de 1972.
    • Três apêndices foram anexados sobre Mater Matuta e um exemplo das discussões sobre a ideologia trifuncional.
    • O autor agradece a Myles Dillon (falecido), Marcel Renard e Georges Redard por terem permitido utilizar amplos extratos de artigos publicados em suas revistas e coleções (Celtica, Latomus, Kratylos).
    • O autor assina Georges Dumézil.
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