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MITO

DURAND, Gilbert. Champs de l’imaginaire. Grenoble: UGA Éditions, 1996.

  • A proposta desta conferência não é oferecer definições peremptórias nem tratar de estruturas em Hesíodo ou Ésquilo, nem dos temas dos gêmeos ou das relações entre a seita Moon e o budismo Zen, mas apresentar um modelo quase mecânico do funcionamento do mito — o “como” e não o “porquê” — a partir das mitologias veiculadas pela literatura francesa em torno e ao longo do século XIX.

A GESTA DE PROMETEU — “pensamento previdente”, pramith “o previdente”, sobrenome de Agni?

  • Os quatro termos do título — perenidade, derivações e desgaste do mito — necessitam de uma definição operativa mínima, pois quando o termo “mito” é empregado por helenistas, literatos, antropólogos de diferentes tendências, não se está sempre no mesmo contexto.
    • Jean-Pierre Vernant e Pierre Vidal-Naquet são mencionados como filósofos helenizantes que davam uma definição muito restritiva do mito
    • Jean Seznec evoca a integração do mito a propósito da Renascença europeia
    • Sigmund Freud em 1897, Otto Rank em 1904 e Carl Gustav Jung em 1916 relançaram e reintegraram o mito; Georges Sorel fez o mesmo do lado da politologia por volta de 1907
    • O mito aparece como: primeiro, discurso que coloca em cena nominalmente personagens, situações e cenários mais ou menos não naturais; segundo, esse discurso é segmentável em pequenas unidades semânticas — os “mitemas”, segundo Claude Lévi-Strauss; terceiro, o que diferencia o mito do simples conto é o que Ernst Cassirer chama de “pregnância simbólica”, uma espécie de engajamento pregnante no mito; quarto e sobretudo, o mito opera uma lógica especial — não a lógica da identidade e do terceiro excluído de tipo aristotélico — que alguns chamam de “pré-semiótica”, outros de “conflitorial”, e Lévi-Strauss tende a chamar de “dilemática”: uma lógica que faz coexistir, senão contradições, pelo menos contrários
    • Lucien Lévy-Bruhl é mencionado como aquele cujo termo “pré-lógica” era demasiado etnocêntrico
    • O repérage experimental do mito se faz pelo léxico — em particular pelo nome próprio, sublinhado por François Jouan e Jean Roudhart — e pelas articulações dos mitemas, que são redundantes, pois o mito, não estando nunca inscrito em uma lógica demonstrativa, é obrigado a repetir
  • A perenidade — conceito geralmente aplicado à filosofia ou à sabedoria, sophia perennis, philosophia perennis — foi deslocada pela psicanálise do lado do logos para o lado da afetividade, do pathos e até do ethos, e designa aquilo que se mantém em um mito apesar de todas as suas transformações.
    • A derivação é emprestada de Vilfredo Pareto, que opõe em seu sistema as “derivações” e os “resíduos” — a perenidade estaria do lado dos resíduos e as metamorfoses internas do mito do lado das derivações
    • O mito é um quadro que é incessantemente preenchido por elementos diferentes — a estrutura de um mito é sempre preenchida pela “raça, o meio e o momento”, segundo a fórmula grosseira mas ilustrativa de Hippolyte Taine
    • O desgaste designa os períodos de deflação e de ocultação do mito — o romance Malpertuis de Jean Ray ilustra o achatamento do Olimpo reduzido a um funcionamento obsoleto
    • Há dois tipos de desgaste do mito, ambos procedendo por disjunção entre denotação e connotação: por excesso de conotação ou por excesso de denotação
  • Ao examinar o mito como perenidade transformacional — expressão emprestada da linguística e de Lévi-Strauss —, toma-se o mito de Prometeu em seu “tipo ideal” weberiano, extraído do Lexicon de Roscher ou do dicionário de Pierre Grimal, e constata-se que, enquanto não houver perda excessiva de conteúdo, sempre se reconhecerá uma atitude prometéica.
    • Carl Gustav Jung, Vladimir Propp, Étienne Souriau e Algirdas Julien Greimas são evocados como referências para uma leitura que recusa as polêmicas estéreis e se define como “estruturalismo figurativo” — não se pensa que a estrutura seja apenas a forma
    • Em alemão há Aufbau — organização dinâmica — e Gestalt, distintos do mero Form; é do lado do Aufbau que se coloca a “estrutura” — do latim struere, “construir” —, pois sem matéria não há construção e o estruturalismo frequentemente foi apenas um formalismo, como critica Jean Servier
    • No esquema do mito de Prometeu, são elementos indispensáveis: o “ladrão de fogo”, o abutre ou pássaro monstruoso — filho de Equidna —, a jarra ou o recipiente de Pandora, e a arca; uma forma vazia que se aplique a tudo não tem sentido
    • O mito se integra em famílias: uma família muito geral governada pelo mitema da “transgressão às ordens divinas”; a família mais restrita dos titãs — em que o homem é neto ou filho de Titã, conforme se siga Ésquilo ou a linhagem de Jápeto; e famílias por aliança com outras travadas mitológicas culturais, como o Prometheus Christus — já em Tertuliano e depois em Edgar Quinet — que é o protótipo do progressismo cristão, com um Cristo revolucionário contestador, descrito por Roger Trousson como “alistamento na brigada dos adversários de Deus de seu próprio filho”; Alfred de Vigny o ilustra em Le Mont des Oliviers
    • As três grandes colunas do quadro de Prometeu se enquadram nas três rubricas ideológicas que percorrem o século pós-Revolução Francesa: igualdade reivindicada pelos Titãs contra os deuses, fraternidade do ingênuo progressismo humanitário e liberdade
    • O momento prometéico por excelência não é tanto o de Ésquilo — cujas duas outras tragédias da trilogia se perderam — mas o Prometeu romântico: Friedrich Schlegel, Victor Hugo, Andrieu, Lord Byron, Percy Bysshe Shelley; Jacques de Lacretelle declarou: “Prometeu é o primeiro romântico”; Hugo, no prefácio de Cromwell, exalta o Prometeu Acorrentado de Ésquilo
    • Uma análise quantitativa do catálogo de Trousson confirma: há uma curva ascendente com apogeu romântico sob a Monarquia de Julho, e períodos de deflação no século XVII, no século XVIII e no século XX
  • A derivação se faz por modificação do consenso majoritário dos mitemas — alguns desaparecem, são substituídos ou acrescidos —, e figuras como Manfredo em Byron, Caim e Fausto podem se assemelhar ao Titã Prometeu, mas cada uma perde uma coluna mitêmica e portanto constitui apenas uma derivação prometéica.
    • Manfredo em Byron não é em nada filantropo — é o egoísmo mesmo —, o que o torna apenas uma derivação; Caim é puramente negativo em seu papel; Don Juan, sobretudo no século XVIII até Byron, põe o acento quase unicamente na transgressão — é por isso que os finais de todos os Don Juans são sempre pouco coerentes, seja em Molière, Mozart ou Byron
    • Fausto é demoníaco, não titânico — há toda uma literatura sobre o demonismo de Fausto; é um Prometeu amplificado que aparece genialmente em Goethe no fim do século XVIII, mas cujo momento estatístico é antes o fim do século XIX — Hector Berlioz, Charles Gounod, Arrigo Boito; os grandes Faustos do século XX: O Doutor Faustus de Thomas Mann e O Mestre e Margarita de Mikhail Bulgakov — Mefistófeles no Komintern
    • No Segundo Fausto de Goethe, não é mais Prometeu mas Orfeu que ocupa o papel mítico — a nékya, a descida às Mães, opera essa mudança
    • Fausto é desencantado, solitário, egoísta, sempre dobrado de Mefistófeles, e não defende senão seu próprio desejo; Prometeu é solitário, mas social — o que agradava ao humanitarismo romântico
    • Jean Valjean dos Miseráveis é uma espécie de Prometeu mesclado ao irmão de Prometeu, Atlas — no início ele é graciado por ter sustentado nas costas as Cariátides de Pierre Puget; depois rouba não exatamente a luz, mas um castiçal, e não de Zeus, mas do bispo de Digne
    • Napoleão Bonaparte endossou todos os mitos, incluindo o de Prometeu acorrentado em seu rochedo roído pela pérfida Albion — Jean Tulard é evocado pelo livro O Mito de Napoleão
    • A derivação por modificação se faz por perda pura e simples de mitemas — “derivação por esquematização ou empobrecimento” —; ou por “derivação por amplificação”, caso de Fausto; ou por anastomose, captação de outras séries míticas próximas — como Prometeu que vai buscar na Bíblia e até anexa o Cristo
  • O desgaste é uma derivação que vai longe demais de suas bases, e há dois tipos: um por excesso de denotação com ruptura da conotação, e outro por excesso de conotação com abandono ou perda do nome próprio ou do atributo preciso.
    • Carl Spitteler — cujos dois grandes poemas Prometeu e Epimeteu e Prometeu o Paciente foram editados e traduzidos em francês por Charles Baudouin — já denuncia pelo adjetivo “paciente” uma perversão interna, pois mesmo o Prometeu Acorrentado de Ésquilo e o Prometeu romântico não são pacientes
    • No Prometeu de Spitteler, o nome subsiste, mas o personagem não tem mais nada a ver com o tipo ideal extraído de Roscher — há até inversão: Prometeu é individualista e é Epimeteu quem tem a consciência da coletividade; o esquema é absolutamente contrário ao conteúdo do tipo ideal; o Prometeu de Spitteler tem parentesco com o Zaratustra de Nietzsche; Jung comentou Spitteler em sua tipologia
    • Em Proust, ao fim de O Tempo Reencontrado, o barão Charlus é apresentado acorrentado em uma cama sendo fustigado alegremente — e Proust diz: “é Prometeu acorrentado”; mas não há nada de prometéico ali — Charlus é Hermes, hermafrodita, ambíguo, andrógino e psicopompo, que conduziu o narrador de uma extremidade à outra da obra; trata-se de um contrassenso de denotação — Chantal Robin demonstrou isso em seu livro sobre Proust e o hermetismo
    • Em Baudelaire, o poema O Tirso, dedicado a Franz Liszt, confunde simbolicamente o tirso — emblema de Dionísio, bâton envolto de hera, planta com semente de efeito embriagante e mortífero, símbolo do grande cambio iniciático — com o caduceu; Baudelaire define o tirso como “bastão reto” e diz que se enrolam em torno “guirlandas de flores”, não hera; e descreve a música de Liszt como aliando o rigor apolíneo ao aspecto ctônico de uma invocação tenebrosa à natureza — trata-se de uma confusão entre Apolo, Hermes e Dionísio
    • Jung identificou com fineza e coragem que no Zaratustra de Nietzsche não há nenhum símbolo dionisíaco — há apenas símbolos herméticos: a serpente e o pássaro, vindos da Pérsia; Zaratustra é o símbolo da coincidência dos contrários, que não é dionisíaco; Dionísio é o símbolo da hybris, do transbordamento; Nietzsche morreu pensando que era Dionísio, mas se enganou — e isso é impressionante para um sociólogo, pois mostra que em uma época dada há uma oposição a instrumentar um certo mito
    • O mito de Fausto aparece no século XVI com quarenta edições do Volksbuch onde o doutor Faustus é danado; mas antes de Christopher Marlowe não há encenação de Fausto, e mesmo em Marlowe é uma boa danação em devida forma; o mito foi constantemente bloqueado pelos “tempos fortes” da cristandade ainda em vigor e só pôde se exprimir plenamente a partir de Goethe
    • No Prometeu mal acorrentado de Gide (1899), os mitemas clássicos desaparecem: não há mais titanomaquía; Zeus não tem sua águia — o único a não tê-la; Prometeu diz “não amo o homem, amo o que o devora” — o contrário de toda tradição prometéica; “A crença no progresso, era a águia deles”; e, finalmente, Prometeu come sua águia — é quase um anti-Prometeu; além disso, o Prometeu gidiano é responsável mas não culpável — contrário a toda a tradição
    • Roger Bastide — sociólogo do Candomblé da Bahia e do sincretismo sul-americano — escreveu o pequeno livro Anatomia de Gide e mostrou como um mito pode se desgastar de duas formas: por excesso de denominação, e por excesso de conotação sem possibilidade de denominar
    • Bastide identificou em Gide o bloqueio de um mito absolutamente anticristão que não chega a se formular, pois Gide, impregnado da Bíblia e de uma ética puritana, nunca encontrará uma denominação salvadora em relação a sua própria ambiance social
    • Toda a tradição moral e metafísica ocidental cristã e mesmo hegeliana gira em torno do “torna-te o que és” — predicatum inest subjecto, em termos aristotélicos; em Gide é o contrário: “tu não encontras senão o que não procuras”; Saul parte ao deserto para procurar suas jumentas, encontra Jônatas e Davi, e volta com uma coroa
    • Lafcadio — o herói do ato gratuito mais famoso de Gide — ilustra que, quando se faz algo, desencadeia-se um sobredeterminismo que não é aquilo que se queria desencadear; é uma moral do paradoxo que se repete sem chegar a se fixar sob uma denominação
    • Em L'Immoraliste, o herói leva a esposa ao Sul argelino para tratá-la e acaba abandonando-a no deserto e voltando com meninos; nos Falsos Moedeiros, os personagens nunca vão aonde querem ir; Édipo de Gide não encontra nunca o que procura e se cegará para tentar abandonar as luzes falaciosas que sempre o guiaram aonde não queria ir
    • O Prometeu mal acorrentado reúne as duas formas de desgaste: uso abusivo do nome que não recobre mais a mercadoria, e mitemas que se alinham sem encontrar sua denotação — Saul, Cristóvão Colombo, Édipo, Prometeu, o herói de L'Immoraliste
  • Um mito só existe por uma série de mitemas qualitativos — “figurativos” — quantitativamente constantes, e a fragilidade do mito é inversamente proporcional à sua riqueza mitêmica: Proteu tem praticamente um único mitema — a metamorfose —, sendo pouco mais que uma alegoria.
    • Desde que há flutuações nos mitemas, pode-se falar de derivação — e sempre há flutuações, pois o mito nunca se conserva em estado puro; não há um momento zero do mito, um começo absoluto
    • As derivações se fazem por perda pura e simples — empobrecimento até a alegoria — ou por anastomose, captação de outras séries míticas próximas
    • Um mito se desgasta quando deriva demasiado e há um limiar crítico de derivação — que não é o mesmo segundo os mitos — mas nunca desaparece, pois os mitemas são em número finito, como mostraram Lévi-Strauss, Souriau e Propp; Étienne Souriau em Les 200 000 Situations dramatiques demonstrou que se trata de uma combinatória de algumas situações nucleares simples; Pierre-Simon Ballanche evocou a “palingenesia” do mito — há mitemas em número limitado que se combinam em um número limitado, mas maior, de mitos; paradoxalmente, todo mito é sempre novo pois é investido em uma cultura e em uma consciência, mas seu esquematismo nunca o é
  • A grade mítica se propõe a estudar escrupulosamente o “como” do mito, deixando de lado, para interpretações mais ambiciosas, a descoberta do “porquê” — e esse “como” é, afinal, o único “porquê” possível, o que é difícil de dizer no Ocidente onde se cultua o real desde Aristóteles até Karl Marx, cujas “duas mamas” são a percepção aristotélica e a análise silogística ou matemática.
    • Herbert Marcuse não fala mais de Prometeu, mas de Eros; Ivan Illich combate conscientemente Prometeu e lhe opõe Epimeteu — embora se engane, pois não é Epimeteu mas provavelmente Hermes o mito emergente
    • A Escola de Frankfurt — Ernst Bloch, Walter Benjamin, Theodor Adorno, e na Itália Antonio Gramsci, e finalmente Marcuse — basculou a infraestrutura e reconheceu o papel da superestrutura, contextualizando uma liquidação do prometeismo em curso
    • Prometeu é o homem da infraestrutura, o Tubalcaim, o homem da tecnocracia, em um contexto onde o “real” é definido por um conjunto perceptível e um conjunto de aparelhamentos lógico-matemáticos; esse contexto está progressivamente a rachar
    • O que certos chamam de “festa”, outros de natureza, de ecologia, de esquerdismo, de pentecostismo são travadas do retorno do imaginário que estava sendo proscrito — e o mito, isto é, a proscricão do imaginário desaparecendo, faz desse imaginário, como dizia Jean Servier, a estrutura absoluta e o porquê último
    • A descrição, classificação e estudo do aparelho mítico pode ser de precioso socorro para o antropólogo no repérage das ideologias, das Weltanschauungen e das terminologias de uma sociedade e de uma época — o que se chama mitanálise quando se trata de antropologia e mitocrítica quando se trata de texto literário
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