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6 Dragonesa e Lâmia

FONTENROSE, Joseph. Python: a Study of delphic myth and its origins. Berkeley: University of California Press, 1980.

1. A presença de uma dragonesa chamada Delfine e de uma caverna Corícia tanto na narrativa cilícia de Tífon quanto na tradição délfica do combate de Apolo constitui uma correspondência particularmente significativa entre os dois mitos.

2. Delfine apresenta-se como uma criatura parcialmente animal ligada a Tífon, sendo sua ama na tradição do Hino Homérico e a guardiã dos tendões de Zeus na narrativa em que Tífon os deposita na caverna Corícia.

Equidna, Ceto

1. Equidna, companheira de Tífon e mãe de diversos monstros, possui uma forma híbrida de mulher e serpente, habita uma caverna subterrânea afastada dos deuses e dos homens e é descrita como imortal, embora as tradições divirjam quanto à paternidade de alguns de seus descendentes.

2. As genealogias de Equidna variam entre sua filiação a Fórcis e Ceto, a Tártaro e Gaia ou a Peiras e Estige, sendo a segunda versão responsável por apresentá-la como irmã de Tífon-Píton.

3. Equidna e Delfine compartilham a forma parcialmente feminina e serpentina, a residência em uma caverna Corícia junto de Tífon, a filiação à Terra e a agressividade contra os seres humanos, embora uma tradição argiva atribua a Argos Panoptes a morte de Equidna.

4. A localização do combate de Apolo em Hierápolis e a tradição cristã sobre o culto local de Equidna e de seus filhos serpentinos sugerem que a adversária do deus recebia ali o nome de Equidna, posteriormente substituindo-se Apolo por São Filipe na narrativa.

5. A identificação de Equidna e Delfine com Ceto apoia-se na alternância de seus nomes e companheiros nas genealogias monstruosas, na filiação comum à Terra e na associação de Ceto e Fórcis às criaturas e divindades marinhas.

6. As diferentes genealogias de Cila aproximam Fórcis, Tífon, Forbas e Deimos como variantes de uma figura paterna monstruosa, enquanto Crateis e Hécate ocupam posições maternas equivalentes, permitindo aceitar Forbas como uma denominação alternativa em vez de simples erro de transmissão.

7. Equidna, Delfine e Ceto podem ser compreendidas como nomes distintos de uma mesma mulher-serpente ou criatura marinha, relacionada de maneira ainda imprecisa a Hécate e acompanhada por Tífon ou por sua possível manifestação marítima, Fórcis.

Cila

1. Cila apresenta características que a aproximam de Equidna-Delfine, pois combina partes femininas e animais, habita uma caverna diante do Etna e captura e devora os navegantes que atravessam o estreito de Messina.

2. A tradição do retorno de Héracles com os bois de Gerião inclui o roubo de parte do rebanho por Cila, sua morte pelo herói e sua posterior ressurreição por Fórcis mediante o fogo.

3. O episódio de Cila possui correspondências com a narrativa de Caco e com a tradição cita em que uma mulher-serpente retém os cavalos de Héracles e exige sua união sexual para devolvê-los, gerando três ancestrais de povos das estepes.

4. A união de Héracles com a mulher-serpente corresponde à união de Zeus com uma jovem nascida da Terra, integrando narrativas citas em que o filho mais novo comprova sua superioridade por uma prova excepcional e se torna fundador da linhagem real.

5. Uma variante atribui a Héracles a origem dos celtas por sua união com Celtine, que esconde os bois para obter sua companhia e gera Celtos, posteriormente reconhecido como rei por conseguir retesar o arco deixado pelo pai.

6. A aparente contradição entre a beleza de Celtine e sua necessidade de reter o rebanho pode ser resolvida pela hipótese de que fosse originalmente uma mulher-serpente, bela na parte superior e monstruosa na inferior, cujo nome e função a aproximariam de Ceto e Cila.

7. Pirene, que gera uma serpente após unir-se a Héracles, aproxima-se de Celtine e de outras figuras maternas relacionadas a adversários do herói, como Diomedes e Lacínio, evidenciando a recorrência de nomes e motivos nas narrativas de guardiões de rebanhos e salteadores.

8. As histórias dos cavalos de Diomedes e dos bois de Gerião constituem um conjunto de variantes em que temas e nomes reaparecem, alternando adversários masculinos e femininos nos encontros de Héracles.

Lâmia

1. A atribuição de Lâmia como mãe de Cila coloca-a na posição ocupada em outras tradições por Hécate ou Equidna, enquanto suas narrativas mais difundidas se localizam na Líbia, apesar da presença de Lâmia-Síbaris na tradição délfica.

2. A Lâmia líbia transforma-se de rainha bela e amante de Zeus em criatura monstruosa após Hera destruir seus filhos, passando a raptar e matar crianças por inveja e sofrimento e recebendo de Zeus a capacidade de retirar os próprios olhos para escapar da insônia.

3. Síbaris compartilha com Lâmia a condição de criatura cavernícola que captura seres humanos e animais, aparentemente com predileção pelos jovens, como indica a escolha do adolescente Alcioneu para o sacrifício.

4. Gerana, rainha dos pigmeus também chamada Énoe, sofre a transformação em grou por desafiar a autoridade de Hera e perde o filho, passando a hostilizar seu povo depois de ser afastada das casas que rondava em busca da criança.

5. Gerana e Lâmia compartilham a beleza inicial, a rivalidade com Hera, a transformação animal e a perda dos filhos, cuja dor se converte em hostilidade contra os seres humanos.

6. A relação de Gerana com Cicno e com o rio Síbaris reforça sua aproximação a Lâmia, enquanto a tradição que liga a cidade italiana à fonte délfica transformada a partir de Lâmia-Síbaris demonstra uma conexão lendária entre locais homônimos, embora não constitua informação histórica segura.

7. A narrativa do combate de Eutimo contra o espírito de Têmesa exemplifica a transformação de uma personagem histórica em herói mítico, atribuindo-lhe filiação fluvial e versões de desaparecimento nas águas ou de retorno à vida após vencer a morte.

8. O espírito de Polites, morto pelos habitantes de Têmesa após violentar uma jovem, exige um culto e o sacrifício anual de uma donzela para cessar seus ataques, até que Eutimo se apaixona pela vítima, derrota o demônio em seu túmulo e o expulsa para o mar.

9. Os episódios de Eutimo e de Euríbato apresentam a mesma estrutura de ameaça demoníaca, consulta oracular, sacrifício humano, intervenção amorosa do herói e desaparecimento do monstro nas águas, diferenciando-se principalmente pela inversão dos sexos do adversário e da vítima.

10. As variantes em que o demônio exige riquezas e Eutimo desaparece nas águas revelam a mobilidade dos motivos narrativos e podem refletir a substituição de um culto heroico local por outro em decorrência de conflitos entre comunidades.

11. A referência a uma cidade italiana chamada Lâmia pode resultar de uma associação com a cidade dos lestrigões e com sua rainha, reintegrando essa figura ao conjunto de episódios encontrados na viagem de Héracles em busca do rebanho de Gerião.

12. As relações entre Síbaris, Gerana, Cila e a Lâmia líbia sugerem que personagens posteriormente organizadas como parentes eram originalmente variantes da mesma figura monstruosa, associada também a adversários locais de Héracles.

Poine e Psâmate

1. As tradições de Argos e Mégara apresentam Poine ou Ker como outra manifestação da mulher demoníaca, derrotada por Corebo em uma narrativa cujas versões conservadas parecem derivar de uma composição de Calímaco.

2. A união de Apolo com Psâmate, a morte de seu filho Lino e a execução da jovem pelo pai provocam o envio de Poine contra Argos, seguida por uma peste após Corebo matar o monstro, até que sua disposição de assumir sozinho o sacrifício exigido pelo deus resulta no perdão e na fundação de um santuário em Tripodiscos.

3. Poine-Ker corresponde a Lâmia e participa da mesma estrutura narrativa de Síbaris e do espírito de Têmesa, reunindo monstruosidade corporal, ataques a crianças, exigência de sacrifícios e substituição voluntária das vítimas por um herói.

4. A aparência de Poine aproxima-a de Equidna, enquanto sua devoração de crianças recorda Lâmia, e sua função vingadora após a morte do filho de Psâmate permite relacionar esta última às mulheres que se unem a Héracles e abandonam a casa paterna para dar à luz.

5. A Psâmate argiva pode corresponder originalmente à nereida homônima, companheira de Éaco e mãe de Foco, que se transforma em foca e, após perder o filho, envia um lobo monstruoso contra os rebanhos de Peleu.

6. A condição marinha de Psâmate, sua transformação animal e o nome do filho sugerem uma figura feminina de corpo aquático semelhante a Ceto ou Cila, também relacionada a Proteu.

7. A introdução da foca na narrativa parece vinculada à explicação popular do nome da Fócida, embora variantes textuais e associações vocabulares preservem possibilidades de transformação em peixe ou de ligação a animais marinhos classificados pelos gregos como peixes.

8. A vingança da nereida por meio de um lobo que mata animais e homens corresponde à atuação de Poine em favor de Psâmate e Lino, enquanto a propiciação por preces e oferendas e as relações com rebanhos heroicos reforçam as correspondências entre essas tradições.

9. As associações da cidade de Lâmia com uma rainha local e com a mãe de uma Sibila permitem aproximar a Lâmia líbia, filha de Posêidon, da Psâmate marinha, situando ambas em tradições da mesma região costeira.

10. A atribuição do nome da cidade a Lâmio, filho de Héracles e Ônfale, introduz a narrativa da servidão do herói à rainha lídia, durante a qual assume vestimentas femininas, torna-se seu amante e derrota diversos inimigos monstruosos.

11. Ônfale aproxima-se das sedutoras demoníacas encontradas por Héracles, sobretudo pela tradição em que atrai estrangeiros e os mata, enquanto a servidão e a feminização do herói expressam uma morte temporária e sua permanência no domínio de uma mulher simultaneamente desejável e perigosa.

12. A identificação lídia de grandes ossos com Gerião ou com o deus fluvial Hilo sugere a existência de objetos sagrados locais atribuídos a uma personagem nativa posteriormente assimilada ao adversário de Héracles.

13. A alternância entre Hilo como deus fluvial e como filho de Héracles e Ônfale permite supor uma identidade original, reforçada pela possível associação de Ônfale à deusa terrestre e pela relação de seu nome com o umbigo e o centro da Terra.

14. A cura de Héracles pelas águas de um deus identificado a Gerião pode conservar uma narrativa de ferimento e ressurreição, enquanto Hilo, Iolau e Hilas parecem desdobramentos de um nome comum e a figura do filho oscila entre auxiliar do herói e descendente da mulher demoníaca ligada ao adversário.

15. A serpente vencida por Héracles junto ao Sangário pode representar o deus fluvial e uma variante regional de Hilo-Gerião ou Tífon, permitindo compreender Ônfale como uma Equidna lídia associada à Terra e aos mortos.

16. As correspondências entre nomes e lugares da Lídia e da região do Esperqueu indicam localizações paralelas da narrativa de Ônfale, aproximando-a de Dejanira e relacionando Lâmio a Hilo como filhos regionais equivalentes de Héracles.

17. A alternância entre Lâmia e Lâmio como companheiros, irmãos ou mãe e filho exemplifica mudanças de parentesco frequentes nas tradições míticas, enquanto Psâmate, Ônfale e Síbaris podem representar nomes locais da mesma figura feminina posteriormente dividida em amante divina e monstro vingador.

18. Lino aparece tanto como criança morta por cães e origem de um canto fúnebre e agrícola quanto como músico derrotado por Apolo, reunindo formas distintas do tema do confronto entre uma divindade e um rival mortal.

19. A narrativa em que Héracles mata seu mestre Lino com a lira transforma em episódio cômico uma estrutura anterior de confronto, colocando o herói na posição de Apolo como vencedor de um adversário.

20. O episódio de Litierse, que impõe competições de ceifa e mata os vencidos até ser derrotado por Héracles, reforça a relação entre cantos agrícolas, desafios mortais e a intervenção do herói como libertador de vítimas ameaçadas.

21. A história de Sileu, que obriga estrangeiros a trabalhar em sua vinha e é morto por Héracles após tentar submetê-lo, aproxima-se das narrativas de reis salteadores que oferecem refeições antes de impor competições fatais, sendo vencidos pelo herói disfarçado.

22. Xenódoque, filha de Sileu, alterna entre vítima de Héracles e amante que o auxilia e morre após sua partida, revelando uma figura feminina associada à morte e à sedução comparável a Ônfale e integrada ao mesmo conjunto de aventuras.

23. A separação entre Psâmate e Poine resulta da composição de tradições que originalmente reuniam a mulher vingadora e a sedutora, enquanto as relações de seus filhos e companheiros conectam o episódio a outras variantes do combate heroico, preservando como núcleo o monstro que perde a criança, devora outras e é morto pelo herói que se oferece em sacrifício.

24. A narrativa de Apolo, Psâmate e Lino aproxima-se daquela de Apolo, Corônis e Asclépio pela gravidez ocultada, exposição da criança, morte da mãe e confronto com o pai, cuja figura ocupa a posição de um adversário equivalente a Píton.

25. Corebo apresenta correspondências com Héracles pela luta contra uma figura associada à morte e pelo transporte de um tripé délfico, embora permaneça um herói próprio de Mégara e sua ligação com Delfos possa ser posterior.

Empusa, Mormo, Gelo

1. A designação Ker para a adversária de Corebo associa-a aos espíritos da morte, representados como entidades que transportam almas, disputam cadáveres e bebem o sangue dos guerreiros mortos.

2. As características devoradoras das Keres aproximam-nas de Lâmias, Empusas e Mormos, cujas variantes incluem sedutoras que destroem jovens, mães que devoram os próprios filhos e espectros que atacam crianças em vingança por uma morte prematura.

3. Os nomes Lâmia, Empusa, Mormo, Gelo e Carco designam figuras que ultrapassam sua utilização para assustar crianças, constituindo espíritos subterrâneos, manifestações de Hécate e entidades próximas das Keres, das Poines e das Erínias.

4. Hécate, responsável pelo envio de aparições, recebe nomes associados a essas figuras e pode manifestar-se como um espectro gigantesco de pés serpentinos, reunindo características de Lâmia, Empusa, Górgona e Equidna.

5. A alternância entre Hécate, Lâmia e Equidna como mãe de Cila reflete uma figura monstruosa comum, vinculada ao dragão masculino e capaz de assumir formas espectrais, animais e marinhas, cujas relações com serpentes, metamorfoses e seres aquáticos convergem para o domínio da morte.

6. Os cães que matam Lino, os demônios de peste em forma canina, os animais que acompanham Hécate e as manifestações de Empusa e Cila permitem reconhecer em monstro, cão e peste desdobramentos de uma mesma figura ameaçadora.

7. As dragonesas, os monstros marinhos e os demônios femininos subterrâneos formam um conjunto intimamente relacionado, acompanhado por um parceiro masculino e refletido também em Gaia e Hera, cujas funções nos mitos de combate incluem gerar ou instigar monstros e preservar associações com mortos, serpentes e aparições.

Adendo ao capítulo VI

1. A pintura descrita por Pausânias sobre o demônio expulso por Eutimo admite a presença de Hera sem necessidade de alteração textual, enquanto o nome do adversário pode ser corrigido para uma forma relacionada a Álibas e aos mortos, permanecendo incerta a identificação da figura chamada Lica.

2. A composição pode distribuir Síbaris e Hera como apoiadores de Álibas, enquanto Calabro, Lica e Têmesa acompanham Eutimo, em consonância com o papel instigador de Hera em outros combates míticos.

3. A ordem das figuras na descrição favorece uma disposição em pares correspondentes, contrariando a hipótese que coloca Hera e Síbaris ao lado de Eutimo e justificando a sequência que reúne os apoiadores de cada combatente.

4. Síbaris pode representar a forma aquática assumida pelo demônio após a derrota, conservando associações com morte e pesadelo, enquanto outras tradições relacionam seu nome a uma mulher unida a um dragão e à origem de uma linhagem serpentina.

5. A versão representada na pintura pode ter feito o adversário desaparecer na terra e transformar-se na nascente do rio Síbaris, conciliando essa metamorfose com a tradição de seu desaparecimento no mar.

6. As relações de Cicno, Gerana, Lacínio e Alebião com Síbaris, Hera e as aventuras de Héracles reforçam a circulação regional dos mesmos motivos e a possível correspondência entre nomes de adversários monstruosos.

7. A descrição do demônio como homem negro e aterrorizante vestido com pele de lobo indica uma figura de lobisomem, em vez de um lobo literal, possivelmente representada de modo semelhante a Héracles com sua pele de leão.

8. A personagem chamada Têmesa pode personificar a cidade e simultaneamente representar a jovem exigida pelo demônio, permitindo conciliar versões que divergem quanto ao objeto do combate.

9. A tradição segundo a qual Eutimo escapou à morte e retornou ao convívio humano sugere outra versão do episódio, na qual o combate contra Álibas corresponde à luta ou ao aprisionamento da própria Morte para preservar a vida do herói.

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