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Origens e História da Consciência

NEUMANN, Erich. The origins and history of consciousness. 1. issued in paperback; [Nachdr. der Ausg. von]1954 ed. London: Routledge, 2013.

  • A tentativa de delinear os estágios arquetípicos do desenvolvimento da consciência baseia-se na psicologia profunda moderna, constituindo uma aplicação da psicologia analítica de C.G. Jung, mesmo onde se busca ampliar essa psicologia ou ultrapassar especulativamente seus limites.
    • C.G. Jung é o fundador da psicologia analítica, quadro teórico central da investigação proposta
    • A abordagem não invalida a psicologia junguiana, mas a expande e, por vezes, a extrapola
  • A investigação se ocupa prioritariamente dos fatores internos, psíquicos e arquetípicos que determinam o curso do desenvolvimento da consciência, em contraste com métodos que consideram fatores ambientais externos.
    • Outros métodos legítimos e necessários analisam o desenvolvimento da consciência em relação ao ambiente externo
    • A escolha pelo interno não nega a validade do externo, mas delimita o escopo da presente abordagem
  • Os elementos estruturais do inconsciente coletivo são denominados por Jung “arquétipos” ou “imagens primordiais”, constituindo as formas imagéticas dos instintos, pois o inconsciente se revela à mente consciente por meio de imagens que, como nos sonhos e fantasias, iniciam o processo de reação e assimilação consciente.
    • Jung cunhou os termos “arquétipos” e “imagens primordiais” para nomear esses elementos estruturais
    • O inconsciente não se comunica abstratamente, mas por meio de imagens concretas
    • Sonhos e fantasias são os veículos privilegiados dessa comunicação
  • As imagens de fantasia possuem seus análogos mais próximos nos tipos mitológicos, o que leva a assumir que correspondem a elementos estruturais coletivos — e não pessoais — da psique humana em geral, sendo herdados assim como os elementos morfológicos do corpo humano.
    • A mitologia funciona como repositório cultural das imagens arquetípicas
    • A herança dos arquétipos é análoga à herança biológica dos órgãos corporais
    • A natureza coletiva dos arquétipos os distingue dos complexos pessoais
  • Os elementos estruturais arquetípicos da psique são órgãos psíquicos de cujo funcionamento depende o bem-estar do indivíduo, e cuja lesão acarreta consequências desastrosas — sendo causas infalíveis de distúrbios neuróticos e até psicóticos, comportando-se exatamente como órgãos físicos ou sistemas funcionais orgânicos negligenciados ou maltratados.
    • A analogia com os órgãos do corpo sublinha tanto a necessidade funcional quanto a vulnerabilidade dos arquétipos
    • Neurose e psicose podem resultar do descuido com os processos arquetípicos
  • A tarefa central da obra é demonstrar que uma série de arquétipos constitui elemento principal da mitologia, que esses arquétipos guardam relação orgânica entre si e que sua sucessão estádica determina o crescimento da consciência — pois o ego individual percorre em seu desenvolvimento ontogenético os mesmos estágios arquetípicos que determinaram a evolução da consciência na história da humanidade.
    • O termo “estádico” refere-se à progressão por estágios ou fases bem definidas
    • O indivíduo recapitula em sua própria vida o caminho trilhado pela humanidade
    • Os arquétipos, como órgãos da estrutura psíquica, articulam-se autonomamente e determinam a maturação da personalidade de modo análogo aos componentes biológico-hormonais da constituição física
  • Além de possuir significado “eterno”, o arquétipo possui igualmente um aspecto histórico legítimo, pois a consciência do ego evolui passando por uma série de “imagens eternas” e, transformada nessa passagem, experimenta continuamente uma nova relação com os arquétipos numa sucessão temporal que se dá por estágios.
    • A capacidade de perceber, compreender e interpretar as imagens arquetípicas muda à medida que a consciência do ego se transforma ao longo da história filogenética e ontogenética do ser humano
    • A relatividade da imagem eterna em relação à consciência do ego em evolução torna-se progressivamente mais pronunciada
  • Os arquétipos que determinam os estágios do desenvolvimento consciente formam apenas um segmento da realidade arquetípica como um todo, mas a perspectiva evolutiva ou sinóptica permite identificar uma linha condutora que atravessa o simbolismo ilimitado do inconsciente coletivo e orienta a teoria e a prática da psicologia profunda.
  • A investigação dos estágios arquetípicos oferece também uma melhor orientação psicológica em diversas disciplinas auxiliares — como a história das religiões, a antropologia e a psicologia dos povos — que poderiam ser reunidas numa base psicoevolutiva capaz de promover uma compreensão mais profunda.
  • Surpreendentemente, as ciências especializadas não se deixaram até agora enriquecer suficientemente pela psicologia profunda — e menos ainda pela psicologia junguiana —, embora o ponto de partida psicológico dessas disciplinas se torne cada vez mais evidente e seja crescente a percepção de que a psique humana é a fonte de todos os fenômenos culturais e religiosos.
    • Jung é referenciado como o representante mais negligenciado pelas ciências humanas especializadas
    • O reconhecimento da psique como fonte dos fenômenos culturais e religiosos torna inevitável um ajuste de contas com a psicologia profunda
  • A exposição do mito proposta não se funda em nenhum ramo especializado da ciência — seja a arqueologia, a religião comparada ou a teologia —, mas exclusivamente no trabalho prático do psicoterapeuta, cuja preocupação é o pano de fundo psíquico do homem moderno.
    • A conexão entre a psicologia do homem moderno e as camadas mais profundas da humanidade ainda vivas nele constitui o ponto de partida e o tema real da obra
    • O método dedutivo e sistemático de exposição pode inicialmente obscurecer o significado terapêutico das descobertas, mas quem é familiarizado com os eventos psíquicos em seu nível mais profundo reconhecerá a importância e a relevância dessas conexões
  • O método “comparativo” da psicologia analítica é complementado pela abordagem evolutiva, que considera o material do ponto de vista do estágio atingido pela consciência em desenvolvimento e, portanto, pelo ego em sua relação com o inconsciente — o que vincula a obra ao trabalho fundamental de Jung, A Psicologia do Inconsciente.
    • O método comparativo colaciona o material simbólico e coletivo encontrado nos indivíduos com os produtos correspondentes da história da religião e da psicologia primitiva, chegando a uma interpretação pelo estabelecimento do “contexto”
    • Jung é mencionado como autor de A Psicologia do Inconsciente, obra de referência fundamental
    • A psicanálise freudiana, ao adotar a abordagem evolutiva, chegou apenas a uma teoria concretista e estreitamente personalista da libido; a psicologia analítica, por sua vez, não aprofundou suficientemente essa linha de investigação
    • Freud é citado implicitamente como fundador da psicanálise, cujas limitações a psicologia analítica pretende superar
  • O surgimento do pano de fundo humano coletivo como realidade transpessoal obriga a reconhecer a relatividade da própria posição ocidental, tornando qualquer tentativa de orientação geral um empreendimento arriscado diante da multiplicidade de formas em que a diversidade infinita da psique humana se expressa.
    • A evolução da consciência como forma de evolução criativa é a conquista peculiar do homem ocidental
    • A evolução criativa da consciência do ego significa que, ao longo de um processo contínuo de milhares de anos, o sistema consciente absorveu cada vez mais conteúdos inconscientes e expandiu progressivamente suas fronteiras
    • O Ocidente logrou uma continuidade histórica e cultural em que cada cânone foi gradualmente integrado ao seguinte, e a estrutura da consciência moderna repousa sobre essa integração
  • O caráter criativo da consciência é uma característica central do cânone cultural do Ocidente, onde é possível acompanhar o desenvolvimento contínuo — embora frequentemente irregular — da consciência ao longo dos últimos dez mil anos, bem como no Extremo Oriente em parte.
    • Apenas no Ocidente o cânone do desenvolvimento estádico, coletivamente incorporado em projeções mitológicas, tornou-se modelo para o desenvolvimento do indivíduo
    • Em culturas estacionárias ou em sociedades primitivas onde se preservam os traços originais da cultura humana, os estágios mais primitivos da psicologia predominam a tal grau que os traços individuais e criativos não são assimilados pelo coletivo
    • Indivíduos criativos dotados de uma consciência mais forte chegam a ser estigmatizados pelo coletivo como antissociais
  • A criatividade da consciência pode ser ameaçada pelo totalitarismo religioso ou político, pois qualquer fixação autoritária do cânone conduz à esterilidade da consciência — fixações essas que, no entanto, só podem ser provisórias.
    • A vitalidade assimilativa da consciência do ego do homem ocidental é mais ou menos garantida
    • O progresso da ciência e a crescente ameaça representada pelas forças inconscientes impelem a consciência, de dentro e de fora, à autoanálise e à expansão contínuas
    • O indivíduo é o portador dessa atividade criativa da mente e permanece o fator decisivo em todos os desenvolvimentos futuros ocidentais
  • Qualquer tentativa de delinear os estágios arquetípicos a partir da psicologia analítica deve começar estabelecendo uma distinção fundamental entre fatores psíquicos pessoais e transpessoais — sendo os pessoais aqueles pertencentes a uma única personalidade individual, e os transpessoais coletivos, supra ou extrapessoais, a serem considerados não como condições externas da sociedade, mas como elementos estruturais internos.
    • O transpessoal representa um fator amplamente independente do pessoal
    • O pessoal — tanto coletiva quanto individualmente — é um produto tardio da evolução
  • Toda investigação histórica deve começar pelo transpessoal, pois tanto na história da humanidade quanto no desenvolvimento do indivíduo há uma preponderância inicial dos fatores transpessoais, e apenas no curso do desenvolvimento o domínio pessoal surge e conquista independência.
    • O homem consciente e individualizado da era atual é um homem tardio, cuja estrutura se assenta sobre estágios humanos primitivos e pré-individuais dos quais a consciência individual só se destacou passo a passo
  • A evolução da consciência por estágios é tanto um fenômeno humano coletivo quanto um fenômeno individual particular, podendo o desenvolvimento ontogenético ser considerado uma recapitulação modificada do desenvolvimento filogenético.
  • Essa interdependência entre coletivo e individual possui dois correlatos psíquicos: de um lado, a história primitiva do coletivo é determinada por imagens primordiais internas cujas projeções aparecem externamente como fatores poderosos — deuses, espíritos ou demônios — que se tornam objetos de culto; de outro, os simbolismos coletivos do ser humano aparecem também no indivíduo, e o desenvolvimento ou o desvio psíquico de cada indivíduo é governado pelas mesmas imagens primordiais que determinam a história coletiva da humanidade.
  • Por ter sido empreendida a exposição de todo o cânone dos estágios mitológicos — sua sequência, suas interconexões e seu simbolismo —, é não apenas permissível, mas imperativo recorrer a material de diferentes esferas culturais e mitologias distintas, independentemente de todos os estágios estarem ou não presentes em uma única cultura.
  • Não se sustenta que todos os estágios do desenvolvimento consciente se encontrem sempre, em todo lugar e em toda mitologia, assim como a teoria da evolução não sustenta que os estágios evolutivos de cada espécie animal se repitam na evolução humana — o que se sustenta é que esses estágios se ordenam em sequência e determinam todo o desenvolvimento psíquico, e que os estágios arquetípicos são determinantes inconscientes encontráveis na mitologia.
    • Somente pela consideração conjunta da estratificação coletiva do desenvolvimento humano e da estratificação individual do desenvolvimento consciente é possível chegar a uma compreensão do desenvolvimento psíquico em geral e do desenvolvimento individual em particular
  • A relação entre o transpessoal e o pessoal é prefigurada na história humana, mas o aspecto coletivo dessa relação não implica que eventos históricos únicos ou recorrentes sejam herdados — pois não há prova científica da herança de características adquiridas —, razão pela qual a psicologia analítica considera a estrutura da psique determinada por dominantes transpessoais a priori — os arquétipos — que moldam o curso da história humana.
    • O motivo da castração, por exemplo, não resulta da herança de uma ameaça de castração repetida pelo pai primordial
    • Reduzir a ameaça de castração, o parricídio, a “cena primária” do coito parental e semelhantes a dados históricos e personalistas — o que presumiria retratar a história primitiva da humanidade à semelhança de uma família burguesa patriarcal do século XIX — é cientificamente impossível
    • Freud é referenciado implicitamente como o proponente da teoria do pai primordial e dos complexos personalistas que a psicologia analítica rejeita
  • Uma das tarefas da obra é demonstrar que, no que diz respeito a esses e outros “complexos” similares, trata-se de símbolos, formas ideais, categorias psíquicas e padrões estruturais básicos cujos modos de operação infinitamente variados governam a história da humanidade e do indivíduo.
  • O desenvolvimento da consciência em estágios arquetípicos é um fato transpessoal, uma autorevelação dinâmica da estrutura psíquica que domina a história da humanidade e do indivíduo — e mesmo os desvios do caminho evolutivo, sua simbologia e sua sintomatologia, devem ser compreendidos em relação ao padrão arquetípico prévio.
  • Na primeira parte da exposição — Os Estágios Mitológicos na Evolução da Consciência — o acento recai sobre a ampla distribuição do material mitológico e sobre a demonstração das conexões entre os símbolos e os diversos estratos do desenvolvimento consciente, pano de fundo necessário para compreender tanto os desenvolvimentos normais quanto os fenômenos patológicos da psique.
  • Além de desvelar os estágios evolutivos e suas conexões arquetípicas, a investigação possui também um objetivo terapêutico — individual e coletivo —, pois a integração dos fenômenos psíquicos pessoais com os símbolos transpessoais correspondentes é de importância capital para o desenvolvimento ulterior da consciência e para a síntese da personalidade.
  • A redescoberta dos estratos humanos e culturais dos quais esses símbolos derivam é, no sentido original da palavra alemã, “bildend” — “formadora” —, pois a consciência assim adquire imagens e formação, amplia seu horizonte e se carrega de conteúdos que constelam um novo potencial psíquico.
    • O termo alemão “bildend” condensa os sentidos de “formar”, “educar” e “criar imagens” — Bilder significa imagens e Bildung significa formação ou educação
    • À medida que os dados puramente pessoais entram em associação com o transpessoal e o aspecto humano coletivo é redescoberto e começa a viver, novos insights e novas possibilidades de vida se acrescentam à personalidade estreitamente personalista e rígida do homem moderno de alma enferma
  • O objetivo não se limita a apontar a relação correta do ego com o inconsciente e do pessoal com o transpessoal, mas inclui demonstrar que a interpretação falsamente personalista de tudo o que é psíquico é a expressão de uma lei inconsciente que constrangeu o homem moderno a interpretar erroneamente seu verdadeiro papel e significado.
    • A tarefa se cumpre apenas quando se reconhece em que medida a redução do transpessoal ao pessoal deriva de uma tendência que um dia teve significado profundo, mas que a crise da consciência moderna tornou completamente sem sentido
    • Somente quando se reconhece como o pessoal se desenvolve a partir do transpessoal, deste se desprende, mas — apesar do papel crucial da consciência do ego — permanece sempre enraizado nele, é possível restituir aos fatores transpessoais seu peso e significado originais, sem os quais uma vida coletiva e individual saudável é impossível
  • O fenômeno psicológico da “lei da personalização secundária” sustenta que conteúdos primariamente transpessoais, que originalmente apareciam como tal, passam no curso do desenvolvimento a ser tomados como pessoais — sendo essa personalização secundária de conteúdos transpessoais primários uma necessidade evolutiva em certo sentido, mas que constelou perigos excessivos para o homem moderno.
    • É necessário para a estrutura da personalidade que conteúdos que originalmente assumiam a forma de divindades transpessoais venham a ser vivenciados como conteúdos da psique humana
    • Esse processo cessa de ser um perigo para a saúde psíquica somente quando a própria psique é considerada suprapessoalmente, como um mundo numinoso de acontecimentos transpessoais
    • Se os conteúdos transpessoais são reduzidos aos dados de uma psicologia puramente personalista, o resultado é não apenas um empobrecimento pavoroso da vida individual, mas também uma congestão do inconsciente coletivo com consequências desastrosas para a humanidade em geral
  • A psicologia, tendo penetrado na camada coletiva em sua investigação dos níveis mais profundos da psique individual, defronta-se com a tarefa de elaborar uma terapia coletiva e cultural capaz de lidar com os fenômenos de massa que devastam a humanidade — sendo a aplicação ao coletivo um dos objetivos mais importantes de qualquer psicologia profunda no futuro.
  • A relação do ego com o inconsciente e do pessoal com o transpessoal decide o destino não apenas do indivíduo, mas da humanidade, sendo o teatro desse encontro a mente humana — e a dialética entre consciência e inconsciente, sua transformação, sua autolibertação e o nascimento da personalidade humana a partir dessa dialética constituem o tema da Parte I.

Prefácio

Introdução

Parte I: Os Estágios Mitológicos na Evolução da Consciência

  • A: O Mito da Criação
  • I O Uroboros
  • II A Grande Mãe
  • III A Separação dos Pais do Mundo: O Princípio dos Opostos
  • B: O Mito do Herói
  • I O Nascimento do Herói
  • II O Assassinato da Mãe
  • III O Assassinato do Pai
  • C: O Mito da Transformação
  • I O Cativeiro e o Tesouro
  • II Transformação, ou Osíris

Parte II: Os Estágios Psicológicos no Desenvolvimento da Personalidade

  • A: A Unidade Original
  • Centroversão e Formação do Ego
  • O Germe do Ego na Situação Urobórica Original
  • Desenvolvimento do Ego a partir do Uroboros
  • Centroversão em Organismos no Nível Urobórico
  • Centroversão, Ego e Consciência
  • Fases Posteriores do Desenvolvimento do Ego
  • B: A Separação dos Sistemas
  • Centroversão e Diferenciação
  • A Fragmentação dos Arquétipos
  • Exaustão dos Componentes Emocionais: Racionalização
  • Personalização Secundária
  • A Transformação dos Componentes Prazer-Dor
  • A Formação de Autoridades na Personalidade
  • A Função Sintética do Ego
  • C: O Equilíbrio e a Crise da Consciência
  • Compensação dos Sistemas Separados: Cultura em Equilíbrio
  • A Cisão dos Sistemas: Cultura em Crise
  • D: Centroversão e os Estágios da Vida
  • Prolongamento da Infância e Diferenciação da Consciência
  • Ativação do Inconsciente Coletivo e Mudanças do Ego na Puberdade
  • Autorrealização da Centroversão na Segunda Metade da Vida

Apêndices

  • I O Grupo e o Grande Indivíduo
  • II O Homem-Massa e os Fenômenos de Recoletivização
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