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Tabú

VAN DER LEEUW, G. La religion dans son essence et ses manifestations. Phénoménologie de la religion. Paris: Payot, 1970.

  • A experiência da potencialidade inerente às coisas e às pessoas revela-se de modo contínuo e inesperado, tornando a vida uma aventura arriscada, repleta de momentos críticos em que até os fatos mais triviais adquirem alcance místico.
    • A existência é concebida como um fluxo de força vital que se manifesta quando perturbado, e sinais como a quebra de um objeto ou a salvação obtida junto a uma termiteira são interpretados como revelações dessa potência.
    • Atribui-se santidade (hierós) a tudo em que essa força se manifesta, como o corpo atingido por um raio, compreendido como portador de poder sagrado.
  • O conceito de tabú designa qualquer ser, objeto, tempo ou ação carregado de poder, expressando separação e aviso de perigo diante da acumulação de força.
    • O termo tabú, oriundo do mesmo contexto cultural de mana, significa “separado” ou “tornado santo”, sendo a reação adequada manter distância e reconhecer a plenitude da potência.
    • Reis e estrangeiros são exemplos paradigmáticos de portadores de poder, cuja aproximação requer prudência; a saudação, a hospitalidade e a guerra são, por isso, atos religiosos de neutralização da potência alheia.
    • A sexualidade, enquanto manifestação intensa de poder, é cercada por restrições: a mulher é separada ritualmente, o contato durante a menstruação ou a gravidez é evitado, e certos dias são considerados demasiadamente sagrados para qualquer atividade.
    • O tabú pode ser decretado por autoridade espiritual, como nos casos polinésios ou indonésios, em que o sacerdote ou o mensageiro real proclama a suspensão da vida cotidiana.
    • O efeito do tabú é a interrupção intencional da atividade vital, como um tempo crítico de recolhimento em que toda ação é suspensa e a violação acarreta reação automática da potência, não punição deliberada.
    • Exemplos de reação automática incluem a morte de Uzza ao tocar a Arca da Aliança, ou o jovem atingido por raio ao trabalhar em dia santo — manifestações da “ira dinâmica” da força, não de juízo moral.
    • A eficácia do tabú é confirmada pela crença inabalável em sua potência: quem o viola sofre, independentemente da intenção, pois o mal é consequência automática do contato com o sagrado.
  • O sagrado é definido pela distância e pela separação entre o que é poderoso e o que é impotente, sem implicar valor moral positivo ou pureza.
    • O santo é o delimitado e separado (sanctus), podendo coincidir com o impuro, pois ambos indicam perigo e potência.
    • O sagrado é experimentado como o “totalmente outro”, uma qualidade sui generis que desperta reverência e temor, estando na base da religião, anterior mesmo à noção de divindade pessoal.
    • A religião nasce dessa consciência de uma potência incausada e misteriosa, cuja aproximação e evitação coexistem em tensão irresolúvel.
  • A potência desperta no ser humano um sentimento ambivalente de medo e atração, em que o sagrado se impõe como algo a ser simultaneamente evitado e buscado.
    • O temor religioso é um sentimento totalizante, que vai da frayeur física ao respeito e à exaltação, manifestando duas direções opostas — fuga e atração — e configurando o caráter ambivalente da crainte sacrée.
    • A interdição precede o mandamento, e o tabú constitui a forma mais primitiva do imperativo categórico, pois impõe um dever absoluto sem explicação racional.
    • Diante da potência percebida como “totalmente outra”, o homem sente uma exigência incondicional e simultaneamente ama e teme a angústia que ela provoca.
  • A persistência da crainte conduz à formação de observâncias rituais, cujo exemplo clássico é a religio romana, originariamente sinônimo de tabú.
    • A religio designa o afastamento de tudo o que é separado por santidade, e sua essência está em observar atentamente o extraordinário — o homo religiosus é o oposto do homo neglegens.
    • A religio, derivada de relegere, expressa o cuidado constante diante do sagrado, cuja violação implicava impureza coletiva; assim, repetiam-se eleições ou ritos purificadores para afastar a “religião” aderente à comunidade.
    • Com o tempo, a emoção viva da crainte degenerou em formalismo e legalismo ritual, mas subsistiu nos costumes, nas tradições camponesas e nos códigos cerimoniais, como resíduo de um medo sacralizado.
    • O tabú, quando petrificado em costume, pode adquirir função utilitária — por exemplo, assegurar a posse da terra —, mas sua origem permanece religiosa, nascida da reação espontânea à potência.
    • A violação do tabú continua a ter consequências automáticas, e mesmo quando convertido em símbolo de propriedade, conserva a estrutura de proibição sagrada e não de código jurídico.
    • O rompimento definitivo com o poder do tabú ocorre apenas quando a consciência moderna opõe à potência a natureza e a personalidade humanas, como expressa o Héracles de Eurípides ao afirmar que o homem não pode macular o elemento eterno.
    • A libertação do medo religioso e a afirmação da autonomia humana assinalam o momento em que o sagrado se interioriza como valor ético, superando a antiga dependência do interdito.
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