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APRENDIZADO – EXPERIÊNCIA – LINGUAGEM
JFBLC
* Um dos diálogos mais conhecidos de Zhuangzi — situado no Livro 3 — apresenta o príncipe Wen-houei, governante do estado de Wei, e um cozinheiro imaginado pelo autor, cuja descrição das etapas de seu aprendizado constitui o centro de interesse da passagem.
- O cozinheiro Ting esquartejava um boi ao som ritmado da faca, comparado à antiga dança do Bosquet e ao antigo ritmo da Tête de lynx
- O príncipe Wen-houei exclama: “É admirável! Nunca teria imaginado tal técnica!”
- O cozinheiro responde: “O que interessa a você é a maneira como as coisas funcionam, não a mera técnica”
- No início, o cozinheiro via o boi inteiro à sua frente; três anos depois, via apenas partes; hoje, encontra o boi em sua mente sem vê-lo com os olhos — os sentidos não intervêm mais e a mente segue os lineamentos do boi por conta própria
- Ao deparar-se com uma articulação difícil, fixa o olhar nela, age com extrema cautela e corta lentamente; as partes se separam com um leve ruído, como um pedaço de terra posto no chão
- Ao fim, o cozinheiro endireita-se, olha ao redor divertido e satisfeito, limpa a lâmina e a guarda na bainha
- A progressão descrita pelo cozinheiro articula três estágios — a oposição inicial entre sujeito e objeto, a atenção crescente às partes difíceis e, por fim, a supressão simultânea do objeto e do sujeito numa atividade perfeitamente integrada.
- No primeiro estágio, o cozinheiro sente-se impotente diante da massa do boi que lhe oferece resistência total
- No segundo, tornou-se mais habilidoso e concentra-se nas partes que exigem maior atenção
- No terceiro, o boi não oferece mais resistência e deixa de existir como objeto; a abolição do objeto coincide com a abolição do sujeito
- O “espírito” (chen) mencionado no texto não é um poder externo nem separado do cozinheiro — é a atividade perfeitamente integrada da pessoa que age
- Quando essa sinergia completa ocorre, a atividade passa para um regime mais elevado, emancipando-se do controle da consciência e obedecendo apenas a si mesma
- As etapas descritas pelo cozinheiro não são invenções gratuitas — são as mesmas que qualquer ser humano percorre na aquisição de qualquer habilidade consciente, das mais simples às mais complexas.
- Aprender a colocar água num copo ou cortar uma fatia de pão implica vencer primeiro a inércia dos objetos, depois atentar às partes delicadas e, finalmente, realizar a operação em estado de jogo
- O mesmo vale para aprender a andar, a falar ou a dominar uma língua estrangeira: primeiro a coisa toda obstrui o desejo de expressão, depois apenas as partes difíceis, até que se a “encontra na mente”
- No domínio de um instrumento musical como o violino, os estágios vão das dificuldades do iniciante ao milagre produzido pelo músico realizado em certos momentos de graça
- Zhuangzi fornece o paradigma que faltava — quatro frases breves e marcantes que reúnem e ordenam observações dispersas e lançam nova luz sobre parte da experiência humana
- Com a palavra “experiência”, designa-se aqui não a experiência de laboratório, nem a adquirida numa profissão, mas o substrato familiar das atividades conscientes — normalmente despercebido por ser demasiado próximo e comum — que pode ser aprendido a apreender por meio de uma forma de atenção cultivável, necessária para ler Zhuangzi adequadamente.
- Um segundo diálogo memorável de Zhuangzi apresenta o duque Houan, famoso governante do estado de Ts'i, e um carpinteiro de rodas chamado Pien — figura imaginária que comete o ato inconcebível de subir os degraus do palácio e interpelar o soberano sem ter sido convidado.
- O duque Houan lia no saguão; o carpinteiro Pien cortava uma roda na base dos degraus
- Pien pergunta o que o duque lê; o duque responde: “As palavras de grandes homens”
- Pien replica: “Eles ainda estão vivos? — Não. — Então o que está lendo é o excremento dos antigos!”
- O duque ameaça: “Se tiver uma explicação, o perdoarei; se não, morrerás!”
- Pien responde: “Julgo por experiência própria. Quando corto uma roda e ataco com muita delicadeza, meu golpe não morde. Quando bato com muita força, para na madeira. Entre a força e a suavidade, a mão encontra o equilíbrio certo e a mente responde. Há um truque que não consigo expressar em palavras, por isso não consegui passá-lo para meus filhos — e aos setenta anos ainda estou aqui esculpindo rodas. O que os anciãos não puderam passar adiante, levaram consigo para a morte. É apenas o excremento deles que você está lendo aqui.”
- A frase central do carpinteiro Pien — “entre a força e a suavidade, a mão encontra e a mente responde” — descreve com precisão o que ocorre na aquisição de qualquer gesto eficaz: por aproximações sucessivas, a mão encontra o gesto certo e a mente (sin) registra os resultados, derivando gradualmente o padrão do gesto eficaz, fisicamente e matematicamente complexo, mas simples para quem o possui.
- O gesto é uma síntese — e afirmar que, por não poder ser transmitido pela fala, seria “indizível” ou incognoscível seria absurdo
- Dominar o gesto implica um conhecimento que é o mais seguro e fundamental existente, mas que a filosofia nunca levou em conta
- Três razões explicam essa cegueira filosófica: esse conhecimento não é discursivo por natureza; é comum e familiar demais para parecer digno de interesse; e, praticado diariamente, torna-se inconsciente — quanto mais confiante seu praticante, mais escapa à atenção
- Zhuangzi afirma que as pessoas imaginam que a linguagem as faz compreender a realidade das coisas — o que é um equívoco —, pois “quando se percebe, não se fala e, quando se fala, não se percebe”.
- Quando a atenção se concentra na percepção de uma realidade sensível, a linguagem desaparece do centro da consciência
- Quando se usa a linguagem, as percepções tornam-se periféricas e não se pode concentrar nelas
- Wittgenstein faz observação semelhante: “Quando vejo um objeto, não posso representá-lo para mim”; e inversamente: “Quando nos representamos algo, não observamos”
- Valéry anota em seus Cahiers: “O que penso atrapalha o que vejo — e vice-versa. Essa relação é observável.”
- É por essa relação inerente ao funcionamento da mente que a linguagem cria uma ilusão: ao falar, não se percebe mais a lacuna entre linguagem e realidade, e a linguagem é tomada como expressão adequada do real
- Cabe ao filósofo e ao escritor superar essa incompatibilidade natural, confrontar linguagem e realidade sensível e corrigir a linguagem quando ela engana
- A tradução habitual da frase — “aquele que sabe não fala, aquele que fala não sabe”, presente também no capítulo 56 do Laozi — é equivocada, pois o verbo chinês tcheu não corresponde ao francês savoir, mas implica proximidade com o objeto e deve ser traduzido por “appréhender” ou “percevoir”.
- A tradução usual torna o ditado absurdo, a menos que se suponha que o saber é secreto ou indizível por natureza
- Em francês, savoir refere-se a um fato certo ou conhecimento seguro, sem implicar relação próxima com a coisa conhecida; em chinês, tcheu sempre tem um objeto concebido como presente de alguma forma
- Ao traduzir tcheu como “perceber”, a frase passa a descrever um fato da experiência de forma precisa e marcante: “quando se percebe, não se fala; quando se fala, não se percebe”
- É a experiência, dentro dos limites do lexicalmente e sintaticamente permitido, que em última instância justifica a tradução
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