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ENCONTROS DE MAZU

CDEM

A obra “Os Encontros de Mazu” baseia-se na versão do Sijia yülu, cujas datas de redação e autor são desconhecidos.

  • O Sijia yülu reúne os ditos de quatro mestres famosos da dinastia Tang, incluindo Mazu Daoyi.
  • Este título é mencionado num catálogo do início dos Song do Sul, editado por You Mao (1127-1194).
  • A edição atual baseia-se numa reimpressão de 1607 por Jiening do Zhejiang, que inclui um prefácio escrito em 1085 por Yang Jie.
  • Segundo o estudioso Yanagida, o Sijia yülu pode ter sido escrito no início da dinastia Song por um monge da escola de Huanglong.

A prática de transcrever “encontros” atribuída a mestres chan parece ter começado na escola de Mazu.

  • No Zutang ji, redigido por volta de 952, afirma-se que, após a morte de Mazu, as “coisas boas” foram colocadas por escrito.
  • Os encontros contrastam com os “cantos” (ge), mais característicos da escola de Shitou, que enfatizava a vida contemplativa.
  • Os encontros têm a vantagem de apresentar um testemunho da prática quotidiana do chan, revelando a sua subtileza e humor.

O termo chinês “chan” é uma tradução do sânscrito dhyana, que designa um estado de grande absorção da mente.

  • Os textos budistas mencionam quatro dhyanas, descritos tanto na literatura do Hinayana quanto do Mahayana, nomeadamente no Lankavatarasutra.
  • O chan é uma das seis paramitas, meios que permitem passar do samsara (transmigração) ao nirvana (extinção).
  • As seis paramitas são: dom (dana), conduta moral (sila), paciência (ksanti), energia (virya), absorção (dhyana) e sabedoria (prajna).

Zongmi (780-841) definiu o chan como uma prática que unifica as concentrações (samādhi) e a sabedoria intuitiva (prajña).

  • A fonte do chan é a verdadeira natureza de iluminação original de todos os seres, também chamada de natureza de Buda ou terra do coração.
  • Estar desperto para esta terra do coração é adquirir a sabedoria intuitiva; cultivá-la é adquirir as concentrações.
  • A fonte original (da terra do coração) é o princípio noumenal do chan, enquanto o esquecimento das emoções e a coincidência com a terra do coração constituem a sua prática.

O chan, introduzido na China por volta do final do século V, tornou-se uma das escolas budistas mais prósperas durante a dinastia Tang.

  • A sua introdução é atribuída a Bodhidharma, um monge indiano ou persa que chegou ao sul da China no início do século VI.
  • Bodhidharma transmitiu o Lankāvatārasūtra ao seu discípulo Huike, apresentando-o como a base do ensinamento do chan.
  • A partir de Hongren, houve uma divisão em duas escolas: a do Norte, que desenvolvia a teoria do despertar gradual, e a do Sul, que expunha a teoria do despertar súbito.
  • Huineng, fundador da escola do Sul, foi reconhecido como o sexto patriarca, e com ele a transmissão de mestre a um único discípulo chegou ao fim.

As fontes históricas mais antigas, como o Xu gaoseng zhuan e os manuscritos de Dunhuang, revelam uma história do chan mais complexa do que a tradicional.

  • As diversas fontes sobre Bodhidharma não coincidem quanto à data da sua chegada à China ou à sua origem, levando alguns a duvidar da sua existência.
  • Os manuscritos de Dunhuang, como o Lidai fa bao ji e o Lenqie shizi ji, não apresentam uma transmissão de mestre a um único discípulo.
  • O Lenqie shizi ji sugere que Gunabhadra, o tradutor do Lankāvatārasūtra, deveria ser considerado o primeiro mestre da escola Lanka, e não Bodhidharma.
  • Há indícios de que existiram dois tipos de chan no final do século V, um desenvolvido por Gunabhadra e outro por Bodhidharma.

A linhagem dos patriarcas é provavelmente uma invenção posterior, e a distinção entre as escolas do Norte e do Sul deve ser vista com nuances.

  • Shenhui, discípulo de Huineng, denunciou o “chan da pureza” de Shenxiu (escola do Norte), substituindo-o pelo “chan do Tathāgata”.
  • Foi Shenhui que promoveu a disputa entre as escolas do Norte e do Sul, designando Huineng como o sucessor de Hongren.
  • Embora o Lankāvatārasūtra tenha sido o fundamento do chan no início, outros textos como o Vajracchedikāsūtra e o Avataṃsakasūtra também influenciaram os mestres.
  • O ensinamento de Mazu situa-se num período de desenvolvimento do chan com diversas influências, o que acabou por favorecer um novo impulso.

Mazu Daoyi (709-788) nasceu na província de Sichuan e recebeu o título póstumo de “Mestre chan da grande serenidade” (Daji chanshi).

  • Foi aluno de Nanyue Huairang, discípulo do sexto patriarca Huineng, inscrevendo-se tradicionalmente na linhagem da escola subitista.
  • Após mais de dez anos com o seu mestre, Mazu instalou-se perto da prefeitura Hong, na província do Jiangxi.
  • Teve mais de cento e trinta discípulos, que se tornaram, na sua maioria, mestres chan renomados e difundiram o seu ensinamento por várias províncias.

Os principais documentos sobre Mazu incluem a sua epitáfice (Quantang wen), o Zutang ji (952) e o Song gaoseng zhuan (988).

  • O Zutang ji, escrito em Quanzhou, província do Fujian, é um documento importante, pois Mazu residiu no Fujian mais de dois séculos antes.
  • O Jingde chuandeng lu (1004) e o Sijia yülu (início do século XI) são fontes fundamentais que contêm as palavras de Mazu e diálogos com discípulos.
  • O Sijia yülu, no qual se baseia a tradução apresentada, é também chamado de Mazu Daoyi chanshi guanglu.
  • Os textos do Chuandeng lu e do Sijia yülu sobre Mazu são quase idênticos, embora apresentados numa ordem diferente.

Zongmi (780-841) distingue três correntes do chan e enumera cinco tipos de chan correspondentes a cinco categorias de praticantes.

  • Os tipos de chan incluem o dos hereges, o do homem comum, o do Pequeno Veículo, o do Grande Veículo e o do Veículo Supremo (chan da pureza e do Tathāgata).
  • Zongmi menciona dez escolas do chan na sua época, incluindo a escola do Jiangxi (escola de Hongzhou ou de Mazu) e a escola de Heze (de Shenhui).
  • Sobre o chan de Mazu, Zongmi afirma que a escola da prefeitura Hong é um ramo colateral derivado do sexto patriarca.
  • Zongmi considerava que a escola de Huairang e Mazu estava mais próxima do chan autêntico e primitivo, por ser fundamentalmente baseada no Lankāvatārasūtra.

A noção do “Coração Único” (Coração da Mente) como criador de todas as coisas é o pivô do ensinamento de Mazu.

  • O Lankāvatārasūtra afirma que todas as coisas não são senão coisas do Coração, uma noção também presente no Avataṃsakasūtra e no Mahāyānasrāddhotpādasāstra.
  • O chan também foi chamado de “escola do Coração” ou “escola do Coração dos Budas”.
  • Este Coração é comparado a uma terra nutritiva que gera todas as coisas, sendo o “terra do coração” (xindi) o fundamento metafísico do chan.
  • As estâncias dos patriarcas, de Bodhidharma a Mazu, expressam a quintessência do pensamento chan sobre a terra do coração.
  • Na sua estância, Mazu afirma: “A terra do Coração expressa-se segundo as circunstâncias, O despertar não é senão apaziguamento. Os fenômenos e o Absoluto são sem obstrução, Há simultaneamente produção e não produção.”

Outra noção essencial do Lankāvatārasūtra desenvolvida por Mazu é a do Tathāgatagarbha (Matriz ou Embrião de Tathāgata).

  • O Tathāgatagarbha designa a natureza de Buda incondicionada que reside em cada ser, mesmo em meio às impurezas.
  • Esta doutrina aparece em vários sūtras do Grande Veículo e afirma a possibilidade de todos os seres obterem o despertar supremo.
  • No Lankāvatārasūtra, o Tathāgatagarbha é identificado com o ālayavijñāna (oitava consciência ou consciência-receptáculo).
  • Nos Entrevistas de Mazu, utiliza-se o termo “embrião santo” (shengtai) em vez de Tathāgatagarbha, que também aparece num sūtra sobre a Prajñāpāramitā traduzido por Kumarajiva.

O ensinamento de Mazu enfatiza a obtenção do despertar por si mesmo (auto-despertar) e a realidade de todas as coisas como utilização do Coração.

  • Mazu afirmava que todos os seres não saem do samādhi da talidade (ainsidade), residindo constantemente nele enquanto se vestem, comem ou falam.
  • Basta seguir o natural, residindo no samādhi desprovido de características.
  • Mazu utilizou vários meios pedagógicos, como gestos (soprar nas orelhas, dar pontapés), para ajudar os discípulos a cortar o último elo antes do despertar.
  • Os discípulos de Mazu foram os primeiros a usar a metáfora do adestramento do búfalo para designar o caminho para o despertar, como quando Nanquan respondeu a Mazu: “Estou a adestrar o búfalo.”

Mazu destacou a relação entre a vida contemplativa e a vida quotidiana, um fator que ajudou o chan a sobreviver à proscrição de 845.

  • Baizhang, discípulo de Mazu, recusava-se a alimentar-se se não tivesse trabalhado durante o dia.
  • Apesar das relações por vezes conflituosas, não parece ter havido uma interpenetração significativa entre o chan de Mazu e a escola Tiantai.
  • Por outro lado, a doutrina do Avatamsaka, com as noções de princípio absoluto (li) e fenômeno (shi) em interpenetração, influenciou o pensamento de Mazu.
  • Mazu desenvolveu ideias do Avatamsaka na sua estância, afirmando que os fenómenos e o Absoluto são sem obstrução recíproca.
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