MULHERES NO TAOISMO
CDWD
A relação do Taoismo com as mulheres é caracterizada por uma complexidade que combina veneração cosmológica e subordinação social.
- A tradição daoista reconhece o poder do yin feminino como força cósmica pura, necessária ao universo e, para algumas escolas, superior ao yang.
- O próprio Dao é descrito como a “mãe de todos os seres”, associando a criação à força feminina.
- Ao mesmo tempo, o Taoismo esteve inserido em uma sociedade patriarcal confucionista que via as mulheres como inferiores, relegando-as aos aposentos internos e excluindo-as das decisões sociais.
- O texto menciona que, segundo o Liji e o Lienü zhuan, a mulher tinha o dever de “obediência tripla” (ao pai, ao marido e ao filho), sendo controlada pelos homens.
A visão confucionista tradicional sobre as mulheres inclui a desvalorização das filhas e a aceitação do divórcio unilateral por parte do marido.
- A cultura chinesa tradicional valorizava apenas os filhos, considerando as filhas um fardo, pois se casariam e continuariam a linhagem de outra família.
- As mulheres eram definidas por suas relações com os homens (filhas, esposas, mães ou viúvas) e não eram consideradas dignas de educação formal, exceto em habilidades domésticas.
- Ciclos naturais femininos eram vistos como fonte de impureza, tornando-as inadequadas para grandes responsabilidades.
- Os maridos tinham o direito de maltratar e divorciar suas esposas por motivos variados, incluindo infertilidade, desobediência, loquacidade, ciúmes e doenças repulsivas.
- O poema de Fu Xuan, presente no Yutai xinyong, ilustra a situação da mulher: “Amargo, na verdade, é nascer mulher, É difícil imaginar algo tão inferior! […] Uma garota é criada sem alegria ou amor, Ninguém em sua família realmente se importa com ela.”
A realidade histórica das mulheres na China tradicional era menos restritiva do que o ideal confucionista, com maior liberdade e responsabilidade.
- Mulheres das classes baixas trabalhavam fora de casa, em agricultura e comércio, interagindo livremente com os homens.
- Mulheres das classes altas atuavam como agentes políticos e intelectuais, educando os filhos e aconselhando os maridos.
- Mulheres mantinham redes de influência na comunidade e laços estreitos com sua família nativa, cimentando alianças sociais e políticas.
- Mães eram objeto da virtude confucionista da piedade filial, exigindo respeito e obediência.
- A partir da dinastia Song, as mulheres mantiveram a propriedade de seu dote e puderam acumular riqueza; nas dinastias Ming e Qing, a alfabetização feminina cresceu, com mais de três mil antologias de poemas de mulheres.
Cinco visões e papéis principais das mulheres no Taoismo podem ser distinguidos ao longo da história, em ordem cronológica.
- A mulher como mãe e força nutridora do universo, expressa na filosofia do Daode jing e em deusas-mães daoistas.
- A mulher como representante do yin cósmico, complementar ao yang, expressa nas práticas de longevidade da dinastia Han e nas primeiras comunidades daoistas do século II EC.
- A mulher como professora divina e doadora de revelações esotéricas, capacitando adeptos por meio de instrução e interação direta, no movimento Shangqing do século IV.
- A mulher como possuidora de conexões sobrenaturais, poderes de cura e técnicas xamânicas, levando ao surgimento de sacerdotisas, fundadoras e matriarcas poderosas da dinastia Tang até o período imperial tardio.
- O corpo feminino como sede de ingredientes e processos essenciais para a transformação espiritual, compreendido em termos da alquimia interna, nos períodos imperial tardio e moderno.
O Daode jing venera o Dao como a Grande Mãe, fonte de todos os seres, possuindo qualidades femininas de suavidade, fraqueza e nutrição.
- O Dao é chamado de “ventre do universo” que dá à luz e nutre todos os seres, sendo a fonte e a essência do cosmos a que todos retornam.
- As pessoas que atingem o Dao confiam totalmente nele como sua mãe universal, permitindo que todas as mudanças, incluindo a morte, aconteçam naturalmente.
- O texto associa o Dao a animais fêmeas e usa símbolos de contenção e latência, como o vaso vazio, o fole, a água e o vale.
- O Daode jing também atribui ao feminino qualidades sombrias como fraqueza, quietude, passividade e vazio, refletindo a atitude cultural chinesa que escondia as mulheres em aposentos internos.
Na cosmologia yin-yang da dinastia Han, as mulheres eram vistas como representantes do yin, complementares ao yang, sendo em alguns casos valorizadas acima dele.
- Na medicina chinesa, os cinco órgãos yin (fígado, coração, baço, pulmões e rins) que armazenam a energia vital são classificados como mais importantes do que os seis órgãos yang.
- Práticas de cultivo do qi para longevidade, como as “artes da câmara nupcial”, documentadas em Mawangdui, visavam aumentar o qi dos homens absorvendo o de mulheres jovens.
- Os homens eram instruídos a levar suas parceiras ao orgasmo sem ejacular, revertendo a essência sexual para nutrir o cérebro, em uma prática vista como vampirismo sexual.
- A literatura da época descrevia as práticas sexuais como uma forma de guerra, na qual a mulher não deveria aprender a técnica para que o homem vencesse, como afirmado no Yufang bijue: “Um homem que pretende nutrir sua essência yang não deve permitir que as mulheres aprendam esta arte.”
Nas primeiras comunidades daoistas organizadas, como o Caminho da Grande Paz e os Mestres Celestiais, as práticas sexuais foram sublimadas em um intercâmbio ritual denominado “harmonização do qi”.
- Mães e matronas eram altamente honradas, atuando como esposas de líderes e como sacerdotisas seniores (libationers) por direito próprio.
- A interação do yin e yang era vista como a maneira mais direta de harmonizar o qi unitário e alcançar a harmonia com o Dao.
- O ato sexual era menos importante do que seus efeitos de colocar o qi em movimento harmonioso, evitando o desperdício pela expulsão ou por explosões passionais.
- O ritual de harmonização do qi envolvia visualizações, movimentos em direções precisas e a retenção dos fluidos sexuais, revertendo-os pela coluna vertebral até a cabeça para nutrir o cérebro.
- A prática resultava na inscrição dos nomes dos participantes nos registros da longa vida e imortalidade, em vez dos registros da morte.
Nas revelações de Kou Qianzhi e no movimento Shangqing (Alta Clara), as mulheres passaram a aparecer menos como parceiras sexuais e mais como mestras e professoras divinas.
- Wei Huacun, uma figura reveladora chave nos textos Shangqing, tornou-se uma libationer com poderes rituais após visões de seres perfeitos e foi chamada de Senhora do Pico Sul.
- Outras professoras divinas incluíam a Rainha Mãe do Ocidente, a Senhora da Tenuidade Púrpura e a Senhora do Primeiro Primordial, continuando uma tradição de mulheres que instruíam o Imperador Amarelo.
- Essas mulheres eram conhecidas como “mulheres perfeitas” (niizhen), embora o termo zhen também possa significar “virtuosa” ou “casta”, refletindo qualidades tradicionais como retidão moral e celibato na viuvez.
- O Shangqing encorajava a abstinência sexual e transpunha o tema do intercâmbio sexual para o reino do sobrenatural, como explicado no Zhen’gao: “Embora sejam chamados de marido e mulher, eles não praticam atos conjugais.”
- As práticas envolviam visualizar uma deusa no sol ou na lua, que então dispensava vapores celestiais, e a união interior de energias yin e yang dentro do próprio corpo.
Durante as dinastias Tang e posteriores, muitas mulheres tornaram-se ordenadas como sacerdotisas e freiras, alcançando o mesmo status que os homens.
- Mulheres ocuparam conventos, serviram como sacerdotisas em funções rituais e buscaram o cultivo pessoal, oferecendo uma alternativa ao modelo de vida convencional.
- Mulheres foram veneradas como profetisas, curandeiras, médiuns e fundadoras de novos movimentos, como Zu Shu, líder da escola Qingwei que recebeu a transmissão da Santa Mãe do Brilho Numinoso.
- Um culto popular cresceu em torno da Senhora Perto das Águas (Linshui furen), originalmente Chen Jinggu, que se tornou protetora de mulheres, crianças e médiuns após sua morte precoce.
- Cao Wenyi, poetisa e autora do Dadao ge, foi convidada para a capital pelo Imperador Huizong e tornou-se “mestra da tranquilidade e virtude humana”.
- Na escola Quanzhen (Perfeita Completude), Sun Buer, uma das primeiras sete mestres, tornou-se líder de uma associação local, recebeu o título de Serena da Pureza e Tranquilidade e obteve o direito de ensinar e ordenar.
A alquimia interna (neidan), dominante desde a dinastia Song, desenvolveu práticas especiais para mulheres (nüdan), que refinam o sangue menstrual em vez do sêmen.
- Os praticantes buscam a imortalidade unindo opostos dentro do corpo através de três estágios: formação de um embrião de qi, nascimento de um ser de luz (pela cabeça) e fusão com o vazio cósmico.
- As diferenças sexuais ocorrem no primeiro estágio: enquanto os homens “subjugam o tigre branco” (sêmen), as mulheres “decapitam o dragão vermelho” (sangue menstrual), interrompendo completamente o fluxo menstrual.
- A cessação do fluxo menstrual, mencionada pela primeira vez em um texto de 1310, identifica a praticante como simultaneamente grávida e pré-púbere, um grande passo em direção à imortalidade.
- Termos como “dragão vermelho”, “tigre branco” e “medula do fênix branca” transpõem os fluidos corporais comuns para um nível superior de poder espiritual.
- A transformação é tanto fisiológica quanto espiritual, resultando na interrupção física completa da menstruação e na recuperação da energia primordial e do poder cósmico.
O Taoismo ofereceu alternativas institucionais significativas para filhas com vocação espiritual, viúvas e divorciadas, embora com limitações.
- O Taoismo honrava mães e matronas, mas seguia a sociedade confuciana ao colocar as mulheres casadas em posição secundária e exigir o consentimento do marido ou da família para iniciações.
- Meninas de famílias não daoistas podiam se juntar ao Taoismo, mas maioritariamente as que desenvolviam intenções religiosas vinham de um background daoista.
- A religião justificava a saída da mulher do governo masculino com a noção de que a forma mais potente de piedade filial era cuidar do bem-estar sobrenatural dos ancestrais.
- Viúvas e divorciadas, geralmente evitadas pela sociedade, encontravam um papel ativo como sacerdotisas e freiras, vivendo com independência e igualdade em relação aos homens.
- Concubinas expulsas, cortesãs e artistas envelhecidas podiam encontrar refúgio na organização daoista, afastando-se do envolvimento mundano em direção à paz interior.
