taoismo:jullien:fjpc:fjpc-alternancia
ALTERNÂNCIA
- No começo era a alternância — aspiração e expiração, dia e noite, calor do verão e frio do inverno —, e toda manifestação de existência é regida por um vai-e-vem ininterrupto de contração-expansão, desdobramento-recolhimento, pois o dia e a noite são como a respiração do céu e o verão e o inverno reproduzem o ritmo do dia e da noite.
- Wang Fuzhi menciona como evidência que o mundo é tão real durante a noite quanto durante o espetáculo do dia — embora nos torne invisível.
- A alternância de aparição-desaparição não opõe a existência ao seu aniquilamento, mas o tempo do visível ao do invisível.
- O ciclo das estações é o encadeamento do manifesto e do inaparente: se a primavera e o verão são o tempo do nascimento e do desdobramento, no outono-inverno a energia vital não foi aniquilada, apenas se enterrou no seio da terra — ramos e folhagens expõem seu ressecamento, raízes e troncos ocultam sua vitalidade em recolhimento.
- A manifestação é atualização; o desaparecimento é latência — assim como a noite não é o aniquilamento do mundo exterior, o sono não é o aniquilamento do espírito no interior do indivíduo.
- O outono, onde tudo retorna à concentração da latência originária, seria como a passagem de volta do sono à realidade, enquanto a primavera — estação do engendramento onde tudo se cruza no esquecimento de seu caráter efêmero — aparece antes como o tempo do sonho.
- Porque o ir não esgota o retorno, o próprio ir não poderia ter fim — o curso do rio escoa sem parar porque se renova sem cessar, e a vegetação sempre floresce sem se atrofiar —, e o tempo do desaparecimento e do recolhimento é rico de todo o desdobramento por vir.
- A rivalidade do calor e do frio durante o ano torna possível o ciclo fecundo das estações; a lagarta se contrai para avançar, e dragões e serpentes hibernam para guardar intacta sua vitalidade.
- Quem não é capaz de se contrair não será capaz de se desdobrar — o que vale também para a existência ética: vivendo retirado na natureza selvagem, o grande Shun, modelo da Antiguidade, acumulou uma riqueza interior que tornou irresistível sua obra de civilização quando o poder lhe foi dado.
- A alternância obedece a uma lógica cíclica, mas é o contrário de uma repetição estéril: é ela que permite ao curso se desdobrar e a todo processo avançar.
- O modelo concreto que inspira a reflexão não é o muro cuja opacidade não pode se abrir nem o buraco no muro que não pode se fechar, mas antes a porta — que ora está aberta, ora fechada, que pode se fechar porque estava aberta e reciprocamente —, e é a possibilidade mesma desse curso sempre renovado que constitui a Via, o Dao, coração do processo.
- Que a porta esteja aberta ou fechada, ela cumpre igualmente seu uso; não apenas a passagem de um estado ao outro é útil a cada vez, mas a reciprocidade que condiciona a mudança torna tal funcionamento inesgotável.
- A alternância de concentração-dispersão da energia material é semelhante à da água — que ora se condensa em bloco de gelo compacto, ora funde e se dilui na massa ambiente —, e o que se toma pelo vazio jamais é um puro nada; uma carroça carregada de lenha inflama-se de um só golpe, mas sem deixar de se transformar em chama, fumaça e cinza — nada se perde, tudo retorna ao elementar, mas a transformação se opera de forma tão sutil que o ser humano frequentemente não percebe que tal nada é ainda algo.
- A diferença de estado não dissimula a constância do elemento em si: tudo se transforma e nada é anulado.
- Se se ferve água, vapor sobe e se dissipa — mas basta cobri-la com uma tampa para que o vapor se acumule e não se disperse mais; o que parecia volatilizado para sempre está apenas na fase do retorno.
- Vida e morte — a alternância do visível e do latente — não podem depender de nenhuma intenção; nem mau desígnio nem Providência: o espetáculo da natureza revela apenas contraste entre a limpidez espontaneamente transparente e infinita e a obscuridade nascida de um obstáculo.
- A alternância em ação faz vibrar todo o real em duplo modo: subtilização-reificação, fluididade-densidade, transparência do passage-opacidade do obstáculo.
- Toda concentração particular, dando lugar à atualização do visível, permanece ao mesmo tempo passageira e disseminada: o compacto permanece arejado, a limpidez coexiste no seio da densidade e continua a exercer sua função de passagem — como o vento que penetra pela menor abertura, como a nota musical que se expande ao redor.
- As nuvens atestam que a latência permanece continuamente animada, e a chuva faz sentir que uma disseminação generosa se exerce a profusão através de todos os existentes; a alternância dos fenômenos na natureza torna sensível sua correlação essencial — entre o trovão e o vento, entre o calor e a tempestade, entre o Céu e a Terra, montagnes e rios.
- O hexagrama zhen representa dois traços yin bloqueando um traço yang sob eles: o trovão sai da Terra — o yang bloqueado no interior do yin não pode se libertar e se lança impetuosamente.
- O hexagrama xun representa dois traços yang acima de um traço yin: o vento evolui acima da Terra — o yang exterior que não pode penetrar no yin rodopia livremente e torna-se vento.
- O encadeamento é imutável: o orvalho da primavera, o trovão do verão, a geada do outono, a neve do inverno — neve e geada não podem advir no verão nem trovão e orvalho se manifestar no inverno.
- A lógica que anima o curso não é rígida — existem limiares de compatibilidade que autorizam a transição do devir: a primavera já é morna mas não ignora a chuva fria, o outono já é frio mas não ignora alguma tepidez do vento.
- Existe também uma intercambiabilidade de posições que confere ao devir seu caráter de variação e permutabilidade: para os cereais, o outono da colheita é no verão; para os vagalumes, sua aurora é ao crepúsculo; o metal é naturalmente sólido mas ao ser aquecido torna-se líquido; a água é naturalmente fluida mas ao gelar torna-se sólida.
- A evidência da dualidade-complementaridade constitutiva de toda realidade é revelada de forma tangível na relação do Céu e da Terra: o Céu está em cima e manifesta sua iniciativa perseverante penetrando a Terra; a Terra está embaixo e manifesta sua submissão contínua abrindo-se ao Céu — e de sua diferença-correlação nasce o grande funcionamento do mundo e o engendramento de todos os existentes.
- As tradições antigas têm razão em privilegiar a chuva e o sol em detrimento da água e do fogo, ou em associar o sol não à lua mas à chuva: mais disseminada que a corrente de água, a chuva ocasiona menos inundações; mais suave que o fogo, o sol nos preserva mais dos danos do incêndio.
- Laozi, mestre da tradição taoísta, ao comparar a bondade suprema à da água, parece esquecer o risco de flagelo que ela sempre dissimula sob sua aparência calma.
- O discurso budista, ao privilegiar o motivo da lua — cuja imagem evoca o que não é nem fenômeno ilusório nem vazio absoluto —, o faz sem consideração pela influência incomparavelmente mais benéfica do sol; o reflexo fantasmagórico da lua é fulgor estéril diante de todo o processo de engendramento dos existentes.
- Sol e chuva se impõem, por evidência, como a alternância mais benéfica, em contraste com esses emblemas representativos dos desvios heterodoxos.
- Os exemplos, imagens e comparações que tecem o texto de Wang Fuzhi são mais do que simples ilustração — a temática que organizam comunica com uma certa atenção do olhar e revela escolhas determinantes na relação com o mundo, restituindo a primitividade de uma intuição e permitindo remontar ao que motivou a orientação da reflexão.
- Os chineses foram tão cedo um povo de agricultores — mais do que pastores ou coletores — que foram por isso levados a ser mais atentos à fecundidade da terra ritmada pela alternância das estações.
- O ponto de vista do funcionamento cosmológico serve definitivamente de ancoragem à sua visão de mundo: a natureza é um processo, contínuo e regular, inesgotavelmente generoso.
- O grande ciclo da natureza é precisamente aquilo de que todos sempre fizeram experiência: na percepção individual, o menor desvio é anormal e decorre de causa patológica ou de efeito de ilusão; os fenômenos meteorológicos que podem parecer extraordinários são, quando percebidos em comum, absolutamente normais e legítimos, mesmo que nem sempre se perceba as razões dessa normalidade.
- A referência à ordem da natureza cria unanimidade, evacua a estranheza — o mistério não é mais um fato primeiro, mas apenas residual.
- O discurso letrado é um discurso eminentemente simples, tanto mais difícil de ler quanto mais simples — pois não constrói nada —, e todo seu esforço é o de tentar se afastar o menos possível da evidência de um curso natural; e, uma vez que tal experiência da natureza como Processo desvela por si mesma sua própria coerência, que lugar poderia ainda haver, num tal mundo, para a espera de qualquer Revelação?
taoismo/jullien/fjpc/fjpc-alternancia.txt · Last modified: by 127.0.0.1
