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TRANSPARENTE-OPACO

FJPC

Determinar o estatuto de realidade do invisível ou do “espírito” (shen) expõe à contradição entre pensá-lo por diferença com o visível como princípio autônomo e evitar uma ruptura dualista que levaria a um ato de fé.

  • A meditação de Wang Fuzhi, em acordo com a tradição chinesa, articula logicamente a dupla exigência no pensamento global e unívoco do Processo.
  • O invisível ou espírito é pensado paralelamente e por contraste com o visível, como termo antitético da energia material, podendo mesmo entrar em conflito com ela.
  • A escolha moral fundamental é entre a superioridade axiológica do invisível, fundador e incondicionado, e os prazeres do sensível, limitados e contingentes.
  • O invisível existe como princípio de toda atualização (li) no seio do visível, não separado dele, não tendo outra realidade possível senão no quadro do processo de transformação contínua do concreto.
  • Wang Fuzhi evita qualquer dicotomia idealista entre “espírito” e “matéria” e afirma a legitimidade a priori da moral com um fundamento de absoluto que emana da estrutura do real.
  • O invisível ou espírito existe como incondicionado, mas é também uma dimensão ou nível do processo de engendramento contínuo das existências, impondo-se à experiência como única realidade.
  • A lógica do processo, opondo latência e atualização, permite evitar a contradição, fazendo o invisível existir como um estágio da própria energia material, ao mesmo tempo que se opõe diametralmente a ela na determinação concreta.
  • A articulação da tradição letrada abre a consciência ao infinito do invisível sem o suporte da fé e funda a transcendência da moral sem construção metafísica ou religiosa.

Devido à diferença implícita do yin e do yang que o constitui, o fundo de latência do processo é constantemente animado pela dupla tendência da limpidez do yang e da opacidade do yin.

  • A energia material existe constantemente sob o duplo modo: no estado de não-concreção no vazio, sutilmente espalhada e imperceptível, com perfeita limpidez que lhe permite penetrar o sensível sem obstáculo; e no estado de concreção na atualização, condensando-se em individualidade sólida e compacta, com relativa opacidade que impede a penetração em outras atualizações.
  • Da individuação, característica de toda atualização concreta, decorrem separação e exclusão.
  • O que caracteriza a energia material em seu estágio de limpidez é sua capacidade de passagem e comunicação, englobante e contínua (sentido de tong).
  • A noção moderna de coisificação (reificação) expressa a inércia que acompanha a relativa imobilização da individuação concreta.
  • A pervasividade, própria à indiferenciação do real, ignora todo limite e obstáculo, espalhando-se ao infinito nas manifestações fenomênicas e animando-as constantemente.
  • O estágio ou nível da energia material conduzido ao extremo constitui a dimensão de “invisível” ou “espírito” do processo, decantado de toda opacidade e pesantez, assegurando a interação contínua das existências particulares.

A realidade do homem é concebida segundo a mesma oposição entre a dimensão de invisível ou espírito (vazio unitário da consciência) e seu ser físico e sensorial (fator de limitação e exclusão).

  • Cada sentido tem sua especificidade própria não intercambiável, visando à satisfação individual sem considerar a do outro, sendo bloqueados em sua univocidade.
  • A consciência, não sofrendo individuação particular, confere sua dimensão unitária e comunitária ao ser individual, assegurando a função de passagem e comunicação interna e externa.
  • A consciência representa o estágio indiferenciado da capacidade de experiência e conhecimento, acessando espontaneamente uma intuição sem limites, e corresponde à dimensão transindividual da personalidade humana, permitindo o acesso à universalidade.
  • A consciência é o fator de limpidez e pervasividade que, através da individuação concreta da personalidade, permite atravessar a particularidade contingente para abraçar globalmente a totalidade no espaço e no tempo.
  • Quem mantém ativa em si a dimensão de invisível ou espírito, sem deixar a consciência coisificar-se pelas atualizações externas, pode superar as oposições exclusivas e apreender a unidade íntima da realidade (eu e mundo, vida e morte).

A tradição chinesa assimilou a dimensão de invisível ou espírito da consciência à dimensão de invisível ou espírito que caracteriza o estágio de não-atualização de todo real fora dela.

  • Essa assimilação impediu o desenvolvimento de uma filosofia da subjetividade na tradição chinesa.
  • Ela permitiu liberar a visão da condição humana de todo trágico, “desdramatizando” a passagem da vida à morte, reduzindo ao mínimo a modificação ocasionada por tal transição.
  • O par nocional espírito dos vivos e espírito dos mortos funciona em paralelo com o de yin e yang ou de “latente” e “manifesto”.
  • A dimensão de invisível ou espírito se manifesta numa existência humana particular (capacidade de consciência) ou, na morte, se dissocia da atualização particular e retorna à latência desindividualizada do Processo.
  • Da capacidade de consciência decorrente do invisível, o indivíduo mantém durante a existência a capacidade de entrar em relação com o fundamento transcendente de sua natureza (o “Céu”).
  • Com a morte, o espírito dos vivos torna-se espírito dos mortos, permanecendo marcado por sua passagem pela condição humana e continuando em interação com os vivos, justificando a piedade ritual e a capacidade moral de elevar-se ao incondicionado.
  • A tradição letrada racionalizou e sistematizou o antigo fundo de crenças religiosas, servindo à concepção cosmológico-moral do processo, limpando a “religião” de seu aspecto de crença.

Para os discípulos de Confúcio, o aspecto mais sutil e capital da sabedoria do Mestre (o “Céu” e a “natureza humana”) é interpretado por Wang Fuzhi em função da noção de dimensão de eficiência invisível do Processo como coerência interna à realidade (shenli).

  • A originalidade da tradição letrada conjuga “imanência” e “transcendência”: a menor atualização e concretização são produto de uma correspondência e adaptação imediatas e espontâneas, guiadas pelo princípio de coerência contido na energia material.
  • A eficiência do invisível está constante e necessariamente presente através dos acontecimentos mais simples e cotidianos, embora os homens geralmente disso permaneçam inconscientes.
  • A perpétua imanência da autorregulação, manifesta em toda atualização concreta, transcende a consciência humana por seu caráter inesgotável e não completamente identificável, constituindo a dimensão de “transcendência” do grande processo da realidade.
  • Em relação ao plano da “traço” (realização concreta e pontual), o nível do pelo qual se opera a mutação remete a um além infinito que, por princípio, não pode ser totalmente apreendido.
  • A dimensão de invisível do Processo exerce-se constante e suficientemente, de modo totalmente impessoal, produzindo um acordo infinitamente bem-sucedido e sempre novo, cujo caráter de íntima sutileza permanece propriamente “maravilhoso”.
  • A completa universalidade simultânea de sua extensão e a extrema fineza infinitamente adequada de seu funcionamento justificam que essa dimensão de eficiência invisível ultrapasse necessariamente a capacidade de ser suputada.
  • A inteligência do Processo não é redutora: o fenômeno da vida guarda um fundo de mistério, que deve ser respeitado como fonte da generosidade absolutamente impessoal que caracteriza o Processo.

A prática divinatória do Livro das Mutações, tal como interpretada por Wang Fuzhi, leva em conta o caráter insondável do Processo.

  • O número cinquenta e cinco simboliza a totalidade do processo das mutações como dimensão extrema e global (Céu e Terra reunidos).
  • O Sábio, embora capaz de se acordar perfeitamente à lógica do Processo, não pode reproduzir completamente seu grande funcionamento espontâneo.
  • Na manipulação das cinquenta e cinco varas de milefólio, retira-se uma de cada grupo para operar com cinquenta varas; as cinco restantes simbolizam o fosso intransponível entre o processo do mundo (dimensões últimas e absolutas) e a capacidade do Sábio de a ele aceder.
  • O “excedente” de um lado e a “insuficiência” do outro marcam o limite humano sob o ângulo de uma ultrapassagem de escala, sem afetar a validade própria do funcionamento humano.
  • O infinito do Processo não é incomensurável em relação à consciência que se tem dele; a transcendência em questão não é a de um totalmente outro impensável, havendo continuidade numérica e homogeneidade.
  • Há uma ordem única, onde o Céu serve de horizonte ao homem; transcendência eminentemente relativa como “absolutização” da imanência, que não conduz ao nada humano.

A consciência letrada da finitude humana não abandona a reflexão racional por uma conversão religiosa, nutrindo um profundo otimismo na capacidade de o homem estender sempre mais longe o horizonte de seus conhecimentos.

  • O mistério irredutível do invisível constitui o grau último e supremo da experiência, no fim da paciente elucidação do mundo.
  • O Sábio não alimenta um sentimento trágico da existência, pois está convencido de poder, apesar dos limites de sua capacidade de conhecimento, assimilar perfeitamente em sua consciência a lógica autorreguladora do Processo e encarná-la integralmente em seu comportamento.
  • No estágio da conduta, concebida também como processo, o Sábio pode tornar totalmente imanente em si o funcionamento infinitamente sutil que transcendia sua capacidade de especulação.
  • Para isso, basta que ele mantenha sua consciência no nível do invisível ou espírito, sem deixá-la influenciar pelo apoderamento do sensível, comunicando-se diretamente com a eficiência invisível em atuação no mundo.
  • A vacuidade indiferenciada da consciência esposa a virtualidade infinita do Céu; Céu e consciência participam então das mesmas qualidades de limpidez e pervasividade.
  • O Céu ultrapassa sempre o homem em seu fundamento de invisível, mas o Sábio coincide perfeitamente com ele em seu funcionamento de espírito.

A capacidade de eficiência invisível, tanto no processo do mundo quanto na conduta do Sábio, é caracterizada pela extrema mobilidade, pela não-obstrução e pela comunicação.

  • O espírito não está ligado a nenhum lugar particular, vai rápido sem se apressar, chega ao destino sem se deslocar, podendo atravessar e abraçar simultaneamente.
  • A oposição entre espírito invisível e físico ou sensível não é o conflito do eterno e do perecível, mas a diferença entre o constantemente móvel (alerta) e o imobilizado na individuação concreta (inerte).
  • O vazio do Céu não se deixa imobilizar por nenhuma atualização fenomenal, por isso seu curso se desdobra sem fim e tudo é ordenado; a consciência do Sábio não se deixa imobilizar por nenhum ponto de vista particular (opinião individual ou desejo egoísta), por isso sua clareza é constante.
  • Da não-obstrução do curso (mundo ou consciência) por qualquer individuação (atualização fenomênica ou ponto de vista particular) decorre o fato mesmo da aptidão ou capacidade.
  • Toda fixação e orientação particulares prejudicam a disponibilidade, fazem obstáculo à virtualidade, emperram a eficácia.
  • Da “comunicação” nasce a capacidade de incitação (graças à possibilidade de interação), e da incitação nasce a capacidade de regulação, que permite à incitação em curso não se esgotar.

Todo devir é regulador na medida em que se prossegue sem nunca se interromper; a regulação só é possível na mobilidade, e essa capacidade imanente de incitação-regulação constitui a dimensão de eficiência invisível do Processo.

  • A esterilidade advém quando a dimensão de invisível ou espírito não passa mais, nascendo a coisificação (estagnação, extinção).
  • As palavras do Sábio, quando apenas aprendidas ou citadas sem serem atravessadas pelo “fluido” imanente que as anima, não têm valor em si mesmas; o sentido só tem pertinência num processo atual de incitação e movimento.
  • A tradição letrada exclui tanto o ponto de vista de uma verdade abstrata quanto o de um ser metafísico separado, pois é a função de passagem e animação que é essencial.
  • O real existe apenas enquanto está em curso; a dimensão de invisível é como a corrente interna à realidade.
  • A virtude própria ao fato do curso é que, apenas através dele, a totalidade é abraçada, e dessa apreensão constante da totalidade decorre a imparcialidade (capacidade de “centralidade”: zhong).
  • A imparcialidade permite ao processo não desviar, não se atolar, deixando sempre o passar-se operar, donde decorre constantemente a vitalidade.
  • A animação reguladora é a consequência dessa constante centralidade; na medida de sua imparcialidade, é possível existir verdadeiramente a si mesmo como fazer existir (sentido de cheng).

A imparcialidade, em seu sentido mais profundo, é o que permite ao curso perpetuar-se, isto é, à existência advir e renovar-se.

  • Toda parcialidade constitui uma obstrução que faz tela à espontaneidade da comunicabilidade e reduz a capacidade de existir, tanto no processo do mundo quanto no da consciência.
  • A virtude implicada é tanto “cosmológica” quanto “moral” (indiferenciáveis na noção de cheng).
  • O que distingue o Sábio é que ele não se mantém preso a nenhuma virtude particular e exclusiva, mas evolui em perpétuo acordo com o Processo, não deixando sua subjetividade parar e bloquear-se numa orientação.
  • Cada virtude particular, por resultar num plissado rígido da personalidade, constitui uma privação em relação à disponibilidade da consciência e arrisca colocar a interioridade em desacordo com a diversidade das circunstâncias.
  • A inflexibilidade prolongada leva à intransigência, e a flexibilidade prolongada leva à complacência; o Sábio mostra inflexibilidade ou flexibilidade conforme a oportunidade, sendo “oportunista” no sentido positivo.
  • O Sábio contém em si todas as virtudes de modo implícito ou latente, atualizando cada uma conforme sua necessidade; a potencialidade é condição da polivalência, e a sabedoria é uma disponibilidade moral indefinida e ilimitada.
  • A personalidade do Sábio parece exteriormente insípida (fade), sem características acentuadas ou traços expressivos marcantes; a insipidez é condição mesma da adaptabilidade, homogênea à não-intencionalidade do Processo.
  • A única exigência ética em relação à consciência consiste em saber permanecer constantemente em devir; essa pura capacidade de processividade, inseparável do curso do processo mas escapando à manifestação, constitui a dimensão de eficiência invisível no mundo e no homem.

A dimensão de eficiência invisível (shen) e o curso das mutações (hua) são absolutamente indissociáveis e constituem a totalidade do real.

  • A dimensão de invisível ou espírito é a “virtude” do Céu, seu ser constitutivo, correspondendo ao nível do fundamento interno e do princípio de coerência.
  • A transformação contínua é a “via” do Céu, seu funcionamento, correspondendo ao nível do traço sensível e da atualidade concreta.
  • A dimensão de invisível constitui o fator de unidade e harmonização (taiji ou taihe); o curso das transformações constitui o fator de dualidade e diferenciação (yin e yang).
  • “Penetrar a dimensão de invisível ou espírito” e “conhecer o curso das mutações” constitui, segundo uma antiga fórmula, a perfeição do saber e da capacidade.
  • As duas noções não são homogêneas: a dimensão de invisível não pode ser apreendida por um efeito de discurso (requerendo a evocação mais concisa), enquanto o curso das mutações exige o desdobramento do discurso (pela variação infinita).
  • Uma noção é intensiva (a mais intensiva que há), a outra é extensiva (a mais extensiva que há); relação análoga, na natureza humana, entre sabedoria interior (dimensão de eficiência invisível) e conduta moral (curso em mutação).
  • A relação que entretém a dimensão de invisível em relação ao curso das mutações é axiologicamente orientada, implicando uma diferença de níveis entre o fenomênico e o incondicionado.
  • Resta pensar como se articulam a dualidade atualizante e a unidade animante, a correlatividade e a transcendência, a lei de regulação (por alternância) e o fundo (absoluto) de positividade, ou seja, como e por que, na tradição letrada, a “natureza” e a “moral” podem fazer um só e se identificar.
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