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taoismo:tao-te-ching:02

II

Sinedino

Se Tudo sob o Céu vê o belo como belo,
Isso é mau.
Se todos vemos o bom como bom,
Isso não é bom.
Pois existência e não existência dão vida uma a outra,
O fácil e o difícil produzem-se,
O longo e o curto dão-se forma,
O alto e o baixo se contrapõem,
Som e voz harmonizam-se,
Sendo assim, o Sábio deve ocupar-se com a prática
deve promover a doutrinação que não tem palavras.
As dez mil coisas surgem dela e não se escusam.
Dá vida, mas não existe.
Obra, sem expectativas.
Embora seus méritos rendam frutos, não se detém .
E é apenas porque não se detém.
Que não o abandonam.

[LAOZI. Dao De Jing. Escritura do Caminho e Esritura da Virtude com os comentários do Senhor às Margens do Rio. Tr. Giorgio Sinedino. São Paulo: UNESP, 2016, p. 21-25]

Waley

It is because every one under Heaven recognizes beauty as beauty,
That the idea of ugliness exists.
And equally if every one recognized virtue as virtue,
this would merely create fresh conceptions of wickedness.
For truly, Being and Not-being grow out of one another;
Difficult and easy complete one another.
Long and short test one another;
High and low determine one another.
Pitch and mode give harmony to one another.
Front and back give sequence to one another.
Therefore the Sage relies on actionless activity,
Carries on wordless teaching,
But the myriad creatures are worked upon by him;
He does not disown them.
He rears them, but does not lay claim to them,
Controls them, but does not lean upon them,
Achieves his aim, but does not call attention to what he does;
And for the very reason that he does not call attention to what he does
He is not ejected from fruition of what he has done.

Wieger

A. Tout le monde a la notion du beau, et par elle celle du pas beau . Tous les hommes ont la notion du bon, et par elle celle du pas bon . Ainsi, être et néant, difficile et facile, long et court, haut et bas, son et ton, avant et après, sont des notions corrélatives, dont l’une étant connue révèle l’autre.

B. Cela étant, le Sage sert sans agir, enseigne sans parler.

C. Il laisse tous les êtres, devenir sans les contrecarrer, vivre sans les accaparer, agir sans les exploiter.

D. Il ne s’attribue pas les effets produits, et par suite ces effets demeurent.


Os correlatos, os opostos, os contrários, como sim e não, todos entraram neste mundo pela porta comum, todos emanaram do Princípio Único (Cap. 1. C). Não são ilusões subjetivas da mente humana, mas estados objetivos, correspondentes aos dois estados alternantes do Princípio, yin e yang, concentração e expansão. A realidade profunda, o Princípio, permanece sempre a mesma, essencialmente; mas a alternância de seu repouso e de seu movimento cria o jogo de causas e efeitos, um ir e vir incessante. A esse jogo, o Sábio dá livre curso. Ele se abstém de intervir, seja por ação física, seja por pressão moral. Ele se guarda de interferir na engrenagem das causas, no movimento perpétuo da evolução natural, por medo de distorcer esse mecanismo complicado e delicado. Tudo o que ele faz, quando faz alguma coisa, é dar o exemplo. Ele deixa a cada um seu lugar ao sol, sua liberdade, suas obras. Ele não atribui a si mesmo o efeito geral produzido (o bom governo), que pertence ao conjunto das causas. Consequentemente, esse efeito (a boa ordem), não sendo alvo da inveja ou da ambição alheia, tem chances de perdurar.

Duyvendak

Tous dans le monde reconnaissent le beau comme beau ; ainsi est admis le laid.
Tous reconnaissent le bien comme bien ; ainsi est admis le non bien.
En effet : l’Être et le Non être s’enfantent l’un l’autre ; le difficile et le facile se complètent l’un l’autre ; le long et le bref sont formés l’un de l’autre ; le haut et le bas se renversent l’un l’autre ; les sons et la voix s’harmonisent l’un l’autre ; l’avant et l’après se suivent l’un l’autre.


Ao alterar ligeiramente uma correção de Ma Siu-louen, transfiro uma frase (“É por isso que o Santo permanece”, etc.) que, no texto tradicional, segue a frase: “antes e depois sucedem-se um ao outro”, para o final do cap. XLIII e o restante do capítulo, a partir de: “Elas produzem, mas não se apropriam”, no final do cap. LI, onde é parcialmente repetida. Ver as notas sobre este capítulo.

Traduzo por “o mundo” a expressão chinesa t’ien-hia, literalmente “o que está sob o céu”. Ela designa todo o mundo civilizado conhecido pelos chineses. No sentido político, indica a unidade de todos os Estados vassalos sob uma única autoridade, unidade que foi buscada ao longo do século III a.C. e concretizada em 221. Em várias passagens do Tao-tö-king, fala-se dessa unidade política; deve-se, então, entender a expressão t’ien-hia como um termo técnico: «o império», termo que utilizo, por falta de outro, com um leve anacronismo, já que a verdadeira fundação do império data apenas de 221 a.C. No entanto, para não sobrecarregar minha tradução com uma circunlocução pesada como «tudo o que está sob o céu», frequentemente utilizo, com todas as reservas, a tradução “o mundo”, que, aliás, é bastante satisfatória no contexto deste capítulo.

O tema deste capítulo dispensa muitas explicações. Ele dá continuidade à antítese “Ser” – “Não-ser” do primeiro capítulo. Repete-se em todos os tons que as noções opostas são postuladas uma pela outra, já que, no Caminho, tudo é relativo.

Matgioi

Les êtres de l'univers connaissent le bien; ils désirent faire le bien.
Au temps fixé pour le bien, voici le mal.
Les êtres connaissent le probe; ils désirent être probes.
Alors voici l'improbe.
C'est pourquoi un (concept) et son contraire naissent ensemble.
Le difficile, et le facile se produisent l'un l'autre.
Le grand et le petit apparaissent l'un par l'autre.
Le haut et le bas se déterminent l'un l'autre. Le ton et le son (de la voix) concordent.
L'avant et l'après se commandent l'un l'autre (en se suivant).
Ainsi voilà que l'homme parfait n'agit pas (des choses inférieures).
Faire, se taire, (voilà) la doctrine.
Les dix mille êtres travaillent, mais il ne les oublie pas.
Il les produit, mais ne les possède pas.
Il les développe, mais ne gagne rien (sur eux).
Les mérites accomplis, il ne leur est pas.
Évidemment, il ne leur est pas : ainsi il n'en est pas abandonné.


II. — Os seres do universo conhecem o bem; desejam fazer o bem; no momento fixado para o bem, eis o mal. Esses seres conhecem o honesto: desejam fazer o honesto, então eis o desonesto. — Um e o seu contrário nascem juntos; o difícil e o fácil produzem-se um ao outro; o grande e o pequeno aparecem um pelo outro; o alto e o baixo determinam-se um ao outro; o tom e o som concordam. O antes e o depois comandam-se. Assim, o homem perfeito não age, não sendo inferior: fazer e calar-se, tal é a sua doutrina. Os dez mil seres trabalham, e ele não os esquece: ele os produz e não os possui. Ele os desenvolve e não tira deles vantagem; eles possuem méritos, mas ele não participa deles. Não, certamente. Tendo construído essa casa, não nela habita.

A consciência dos seres não é determinada senão pela apreciação e pela diversidade de suas ações. Os seres julgam conhecer e desejam o Belo e o Bem; se agem, agem segundo seus conhecimentos e seus desejos; julgam, pois, agir o Belo e o Bem, ao menos segundo as concepções que deles formaram. Mas, se agem uma coisa, há outra coisa, que é o contrário da primeira, e que não é por eles agida; essa coisa, sendo o contrário do que é dito o Belo e o Bem, é o Feio e o Mal; daí resulta que é a ação que diferencia e especializa os estados da consciência dos seres e que é a bela ação que cria o Feio, e a boa ação que cria o Mal. Assim, essas noções são dependentes uma da outra, determinadas uma pela outra, inexistentes uma sem a outra; isto é, em verdade não existem do ponto de vista daquilo que É, e não tomam sua aparência de realidade senão de estados da consciência, o que é ilusório do ponto de vista do Ser. Todas as demais relatividades do universo determinam-se assim umas pelas outras e não possuem maior existência real, mas apenas relações factícias, que não duram senão durante a ação que as cria.

Assim, a ação, pelo fato de determinar e pelas especializações que impõe às coisas que determina, é coisa inferior; por isso, o sábio, que não é inferior e não deseja tornar-se tal, não age. Mas essa não-ação, em semelhança com a da Via, não é uma inação; pois a Via, que não participa nem dos movimentos, nem das ideias, nem dos trabalhos, nem dos méritos dos seres, os produziu; isto é, ela é o mecanismo graças ao qual os seres podem mover-se, pensar, trabalhar e merecer. Assim, enquanto os seres, graças à Via, se desenvolvem, ela não se desenvolve, e permanece imutável. Ela forneceu a causa e desinteressa-se dos objetos; os seres são sujeitos da causa e dispensadores dos efeitos, na duração. Tal é a verdadeira distinção das Coisas. Por isso se diz que a Via é semelhante àquele que teria fornecido o plano, os materiais de uma casa e a força para construí-la, e não poderia nela habitar.

Haven

Se todos sob o Céu conhecerem o belo como belo, assim conhecerão o feio.
Se todos sob o Céu conhecerem o bem como bem, assim conhecerão o mal.
Desse modo Ser e Não-ser engendram-se mutuamente.
O fácil e o difícil se completam.
O longo e o curto se delimitam.
O alto e o baixo se regulam.
O tom e o som se harmonizam.
O antes e o depois se sucedem.
Por isso o Santo-Homem pratica o Não-agir e ensina sem falar.
Todos os seres agem, e ele não lhes recusa ajuda.
Produz sem se apropriar, trabalha sem nada esperar em troca.
Realiza obras meritórias sem se apegar a elas, e, justamente por isso, suas obras perduram.

Mitchell

When people see some things as beautiful,
other things become ugly.
When people see some things as good,
other things become bad.
Being and non-being create each other.
Difficult and easy support each other.
Long and short define each other.
High and low depend on each other.
Before and after follow each other.
Therefore the Master acts without doing anything
and teaches without saying anything.
Things arise and she lets them come;
things disappear and she lets them go.
She has but doesn't possess,
acts but doesn't expect.
When her work is done, she forgets it.
That is why it lasts forever.


Quando as pessoas veem algumas coisas como belas,
outras coisas se tornam feias.
Quando as pessoas veem algumas coisas como boas,
outras coisas se tornam más.
Ser e não-ser criam um ao outro.
Dificuldade e facilidade suportam-se uma a outra.
Longo e curto definem-se um ao outro.
Alto e baixo dependem um do outro.
Antes e depois seguem um ao outro.
Por conseguinte a Mestre age sem fazer nada
e ensina sem dizer nada.
As coisas surgem e ela as deixa vir;
as coisas desaparecem e ela as deixa ir.
Ela tem mas não possui, age mas não espera.
Quando seu trabalho está feito, ela o esquece.
Eis porque perdura para sempre.

Legge

All in the world know the beauty of the beautiful, and in doing
this they have (the idea of) what ugliness is; they all know the skill
of the skilful, and in doing this they have (the idea of) what the
want of skill is.

So it is that existence and non-existence give birth the one to
(the idea of) the other; that difficulty and ease produce the one (the
idea of) the other; that length and shortness fashion out the one the
figure of the other; that (the ideas of) height and lowness arise from
the contrast of the one with the other; that the musical notes and
tones become harmonious through the relation of one with another; and
that being before and behind give the idea of one following another.

Therefore the sage manages affairs without doing anything, and
conveys his instructions without the use of speech.

All things spring up, and there is not one which declines to show
itself; they grow, and there is no claim made for their ownership;
they go through their processes, and there is no expectation (of a
reward for the results). The work is accomplished, and there is no
resting in it (as an achievement).

The work is done, but how no one can see;
’Tis this that makes the power not cease to be.

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