V
Arthur Waley
Heaven and Earth are ruthless;
To them the Ten Thousand things are but as straw dogs .
The Sage too is ruthless;
To him the people are but as straw dogs.
Yet Heaven and Earth and all that lies between
Is like a bellows
In that it is empty, but gives a supply that never fails.
Work it, and more comes out.
Whereas the force of words is soon spent.
Far better is it to keep what is in the heart.
Léon Wieger
A. Le ciel et la terre ne sont pas bons, pour les êtres qu’ils produisent, mais les traitent comme chiens de paille.
B. A l’instar du ciel et de la terre, le Sage n’est pas bon pour le peuple qu’il gouverne, mais le traite comme chien de paille.
C. L’entre‑deux du ciel et de la terre, siège du Principe, lieu d’où agit sa vertu, est comme un soufflet, comme le sac d’un soufflet dont le ciel et la terre seraient les deux planches, qui se vide sans s’épuiser, qui se meut externant sans cesse.
D. C’est là tout ce que nous pouvons entendre du Principe et de son action productrice. Chercher à détailler, par des paroles et des nombres, serait peine perdue. Tenons‑nous‑en à cette notion globale.
Há duas espécies de bondade: 1º a bondade de ordem superior, que ama o conjunto e só ama as partes integrantes desse conjunto enquanto são partes integrantes, não por si mesmas nem por seu bem próprio; 2º a bondade de ordem inferior, que ama os indivíduos em si mesmos e por seu bem particular. O céu e a terra, que produzem todos os seres pela virtude do Princípio, produzem-nos inconscientemente e não são bons para eles, diz o texto; são bons para eles com uma bondade superior, não com uma bondade inferior, dizem os comentadores. Isso equivale a dizer que os tratam com um oportunismo frio, considerando apenas o bem universal e não o bem particular; fazendo-os prosperar quando são úteis, suprimindo-os quando são inúteis. Esse oportunismo frio é expresso pelo termo «cão de palha». Na antiguidade, à frente dos cortejos fúnebres, levavam-se figuras de cães de palha, as quais deviam apanhar, à passagem, todas as influências nefastas. Antes dos funerais, eram preparadas com cuidado e tratadas com benevolência, porque em breve seriam úteis. Depois dos funerais, eram destruídas, porque se haviam tornado nocivas, repletas de influências nocivas recolhidas, como ensina Tchoang-tseu, capítulo 14 D. — No governo, o Sábio deve agir à semelhança do céu e da terra. Deve amar o Estado, não os particulares. Deve favorecer os súditos úteis e suprimir os súditos inúteis, incômodos ou nocivos, conforme a oportunidade, sem qualquer outra consideração. A história da China está repleta de aplicações desse princípio. Tal ministro, longamente favorecido, é subitamente executado, porque, tendo mudado a orientação política, doravante seria incômodo, quaisquer que tenham sido seus méritos anteriores; sua hora chegou, na revolução universal; cão de palha, é suprimido. Inútil demonstrar que essas ideias são diametralmente contrárias às noções cristãs de Providência, de amor de Deus por cada uma de suas criaturas, de graça, de bênção, etc. Bondade de ordem inferior, dizem, com um sorriso desdenhoso, os sábios taoistas. — Segue a célebre comparação do fole universal, à qual os autores taoistas recorrem com muita frequência. Ela será ainda desenvolvida no capítulo seguinte. — Conclusão: é isso tudo o que se sabe do Princípio e de sua ação. Ele produz o universo feito de seres; mas apenas o universo lhe importa, não qualquer ser em particular. Se é que se pode empregar o termo importar, a respeito de um produtor que exala sua obra sem a conhecer. O Brahman dos vedantistas tem ao menos alguma complacência nas bolhas de sabão que exala; o Princípio dos taoistas não.
Duyvendak
Le ciel et la terre sont inhumains ; ils traitent les dix mille êtres comme des chiens de paille .
Les Saints sont inhumains ; ils traitent le peuple comme des chiens de paille.
L’espace entre le ciel et la terre, comme il ressemble à un soufflet de forge ! Vidé, il n’est pas épuisé ; mis en branle, il produit de plus en plus.
Une quantité de mots est vite épuisée. Mieux vaut conserver le milieu.
Este capítulo é composto por três partes que alguns críticos sugerem separar.
Lao-tse opõe-se à noção confucionista de jen (18), “a humanidade” (ver XVIII, XIX, XXXVIII). O jen, a qualidade moral, não é inerente “ao céu e à terra”, ou seja, à natureza. Esta trata cada coisa e cada ser com total indiferença e deixa que cada um cumpra sua própria função no todo. Assim, o que ontem era honrado será hoje desprezado. No Chuang-tzu, XIV (4) (Legge, I, p. 352), os “cães de palha” são explicados:
«Antes de arrumar os cães (falsos) de palha, em posição (para o sacrifício), eles são colocados em uma cesta e envoltos em tecidos bordados. O personificador do morto e os invocadores se preparam, por meio do jejum, para pegá-los (e oferecê-los). Mas, depois de terem sido depositados (em sacrifício), os transeuntes lhes dão pontapés na cabeça e nas costas, e os coletores de lenha os levam e os empregam como combustível.
A comparação com o fole ilustra a operação produtiva inesgotável do Caminho. Quanto à construção da frase, ver o início de LXXVII.
Estou inclinado a pensar que uma frase como: “No entanto, o céu e a terra não falam”, que teria servido de ligação com a última parte, foi omitida. Compare-se, para um pensamento análogo, os Diálogos de Confúcio, XVII, 18:
“O Mestre disse:
— Eu gostaria de não falar.
Tseu-kong respondeu:
— Se o senhor, Mestre, não falasse, o que nós, seus alunos, transmitiríamos?
O Mestre disse:
— O céu, o que ele diz? As quatro estações se sucedem, todas as coisas são produzidas, mas o céu, o que ele diz?
Não é improvável que o último parágrafo deva ser ligado ao início de XXIII.
Matgioi
Le ciel et la terre sont-ils sans beauté : alors les dix mille êtres sont comme le vide.
L'homme parfait est-il sans beauté : alors les cent familles sont comme le vide.
Le ciel et la terre sont réguliers : Comment donc les hommes) agissent-ils, tôt ou tard ?
(Ils sont) vides, mais ne s'en inquiètent pas.
Ils s'agitent, mais s'éloignent de plus en plus.
Ils parlent beaucoup, et se trompent souvent.
Ils ne sont pas semblables à qui tait (sa pensée) dans son cœur.
V. — O céu e a terra carecem de beleza? Então, os dez mil seres estão vazios. O homem perfeito carece de beleza? Então, as cem famílias estão vazias. O céu e a terra são regulares: como é que os homens agem de forma irregular? Estão vazios e não sabem disso; agitam-se e, ao agitarem-se, afastam-se. Eles tagarelam e, ao tagarelar, se enganam. Assim não é aquele que guarda seus pensamentos no coração.
Se o céu e a terra não estivessem unidos (sendo a beleza o chamado à união), o universo não existiria (a união do Céu e da Terra é o produto típico da Vontade). Se o homem perfeito não existisse, a humanidade não teria nenhum exemplo a seguir, estaria inerte e seria como se não existisse. No entanto, o céu e a terra estão unidos, e o homem perfeito existe, ou seja, tudo é regular no universo.
Como é que os indivíduos que compõem a humanidade agem como se não tivessem esses exemplos diante dos olhos? Suas ações os afastam do Caminho; seus discursos os afastam da verdade. Quão mais feliz, quão mais próximo do Caminho é aquele que se cala e não age, e conserva dentro de si todos os seus pensamentos e todo o seu poder.
Mitchell
O Tao não toma partido;
dá nascimento tanto ao bem quanto ao mal.
A Mestre não toma partido;
acolhe tanto santos quanto pecadores.
O Tao é como um fole:
está vazio no entanto infinitamente capaz.
Quanto mais o usas, mais produz;
quanto mais falas dele, menos o compreendes.
Firme-se ao centro.
Legge
Heaven and earth do not act from (the impulse of) any wish to be
benevolent; they deal with all things as the dogs of grass are dealt
with. The sages do not act from (any wish to be) benevolent; they
deal with the people as the dogs of grass are dealt with.
May not the space between heaven and earth be compared to a
bellows?
’Tis emptied, yet it loses not its power;
’Tis moved again, and sends forth air the more.
Much speech to swift exhaustion lead we see;
Your inner being guard, and keep it free.
