Atma Darshan
ATMANANDA, Sri (Krishna Menon). Atma Darshan: At the Ultimate. Tiruvannamalai: Sri Vidya Samiti, 1946. (Tratado original em malaiala composto em versos, com tradução inglesa autorizada pelo próprio autor).
Prefácio
Eu não fazia ideia de que este pequeno livro precisasse de um prefácio. Mas tive que escrever estas poucas linhas a pedido insistente de alguns amigos que achavam que algo semelhante a um prefácio ajudaria os aspirantes espirituais a compreender melhor o texto.
As expressões Atma, Ishwara e Brahman parecem ter sido utilizadas nas obras antigas, às vezes praticamente como sinônimos, e outras vezes com significados bastante diferentes. Para o olhar perspicaz, ficará claro que essas expressões possuem nuances de significado diferentes. No Mahavakya (uma das quatro grandes declarações aforísticas dos Upanishads que expõem a identidade entre a alma individual e a Alma Suprema), “Tat Tvam Asi” – “Tu és Isso” – o significado literal de “Tvam” – “Tu” – é Jiva, ou a alma individual, enquanto seu significado indicativo é o Kutastha, ou a alma individual vista como separada de seus aparentes apêndices, tais como o corpo, a mente etc. O significado literal de “Tat” – “Aquilo” – é Ishwara ou Deus, enquanto seu significado indicativo é Brahman ou o Absoluto.
Ao meditar sobre a fórmula “Aham Brahma Asmi” – “Eu sou Brahman” –, o aspirante deixa de lado o significado literal das palavras e adota seu significado indicativo. O objetivo da meditação é que a ideia de minúsculidade que muitas vezes se sobrepõe ao ser real da pessoa, ou seja, Kutastha, seja superada pela contemplação da ideia de que o indivíduo é o grande Brahman; e que a ideia de que Brahman é algo fora de si mesmo seja superada pela contemplação da ideia de que Brahman é o próprio eu, que é o objeto, se assim se pode dizer, da experiência imediata e sempre presente. Mesmo depois que isso for alcançado, a ideia de grandeza associada a Brahman permanecerá. Essa ideia de grandeza, que também é uma sobreposição, deve ser superada evitando-se outros objetos e contemplando-se a ideia de que a pessoa é a própria consciência pura, “Prajnanam Brahma”. Somente assim o aspirante pode esperar alcançar a Realidade Absoluta. É essa Realidade Absoluta que tem sido referida como Atma e como “eu” neste livro.
Das duas linhas de pensamento, a saber, aquelas que colocam o indivíduo sob o universal e o universal sob o indivíduo, é a última que foi adotada aqui. É a experiência de que, quando se observa com cuidado, tudo o que não é um mesmo só pode existir como objeto de si mesmo, que é o sujeito. Percebe-se também que o objeto tem uma conexão inseparável com um mesmo. Não há forma sem ver; não há som sem ouvir. A pessoa se vê como alguém que vê e ouve e, assim, assume a posição de quem percebe esses objetos. Na verdade, ver, ouvir etc. são, em si mesmos, objetos. Quando vistos como tal, a posição da pessoa está na consciência pura, que é quem percebe. A ideia de quem percebe também desaparecerá ali.
Sempre que a posição assumida por quem percebe muda, o percebido também muda de acordo. Portanto, pela análise de um, também se pode chegar à verdade a respeito do outro. Esse modo de abordagem é, em si, amplo, incluindo vários modos particulares, conforme discutido nesta obra, cada um dos quais é uma forma de revelar a Realidade. Aos olhos superficiais, essas diferentes formas de abordagem podem parecer contraditórias entre si. Mas não haverá contradição se se examinar cuidadosamente a questão.
O texto a seguir é minha própria tradução livre do original em malaiala, escrito em forma de verso e dividido em seções de acordo com as ideias. Naturalmente, a força do original se perde na tradução.
Cada uma das seções, da 6 à 20, trata de uma forma específica de abordagem. Dessas, as seções 6 e 13 estão relacionadas entre si. É por meio do aspecto da testemunha descrito na seção 6 que se alcança o aspecto da testemunha descrito na seção 13, momento em que o próprio aspecto da testemunha se dissolverá. Mesmo o aspecto da testemunha é apenas um meio, pois, mesmo nesse aspecto, há sobreposição. Para alcançar a Realidade, essa sobreposição também deve desaparecer. Nem os grandes Mestres nem as obras vedânticas insistem que as diferentes Prakriyas, ou modos de abordagem, representem a verdade absoluta. Por outro lado, segundo eles, são vários meios para o mesmo fim, a saber, o de alcançar a Realidade:
“Somente aquele caminho, ao segui-lo, pelo qual um homem se fundamenta no conhecimento do princípio do ‘eu’ real, é o caminho certo para ele. Não existe um único caminho que sirva igualmente a todos.”
É o que diz Sureshwaracharya, o grande discípulo de Shankara. Não é necessário tentar conciliar as diferentes Prakriyas entre si. Fazer isso pode até ser um obstáculo no caminho do aspirante. Não haverá dificuldade se for possível discernir cuidadosamente o ponto de vista subjacente a cada Prakriya. Se isso não for possível, basta apegar-se à Prakriya que mais lhe agrada.
Na seção 6, a memória é aceita em seu sentido comum, e, por meio disso, o aspecto da testemunha é esclarecido. Na seção 19, estabelece-se que a memória é inexistente. Esses dois processos podem, à primeira vista, parecer contraditórios. A contradição se resolverá quando nos lembrarmos de que o que é feito na seção 6 é uma consideração do princípio da testemunha, enquanto o tema do capítulo 19 é uma consideração do princípio da memória. Da mesma forma, em alguns trechos os objetos são considerados como consciência, enquanto em outros se afirma que os objetos apontam para a consciência. A explicação reside no fato de que o contexto do primeiro caso é a análise da natureza dos objetos, mas o do segundo é a análise da natureza da consciência.
Da mesma forma, sempre que tais aparentes contradições se apresentarem, uma breve reflexão mostrará que, na verdade, não há contradição. O método de analisar o conceito do mundo objetivo e, assim, estabelecer que ele nada mais é do que consciência é aceito nesta obra da mesma forma que outro método que estabeleceria que, na verdade, não existe mundo algum, ajudando assim a pessoa a assumir uma posição firme na consciência. É este último método que foi discutido nas seções 19 e 20. Os dois métodos devem ser considerados a partir de seus respectivos pontos de vista.
O aspecto da testemunha, já mencionado de maneira geral, precisa ser esclarecido um pouco mais. À primeira vista, pode-se duvidar se a testemunha mencionada na seção 6 não é, como o Jiva, uma entidade funcional. Mas uma breve reflexão mostrará que a testemunha não tem função. Quando a atenção é direcionada para a consciência, que é a testemunha, não é possível direcioná-la para o testemunhado. Nem o testemunhado está presente nessa consciência. Portanto, é na consciência sem função que o pensamento se funde.
É dessa experiência que decorre o aspecto superior da testemunha tratado na seção 13, versículo 2. A essência desse versículo é que o conhecimento da testemunha, ao contrário do da mente, não está sujeito a mudança nem a esforço. O sol brilha em sua própria glória. A luz é a própria natureza ou o próprio ser do sol, não sua função. Nem tem ele qualquer intenção de iluminar objetos. Mas os seres vivos percebem os objetos à luz do sol. Isso os leva a sobrepor ao sol a função de iluminar objetos. Da mesma forma, pensamentos e objetos se revelam na consciência. Quando a função de revelar é sobreposta à consciência, ela se torna a testemunha. Na verdade, a consciência brilha por si mesma. A luz ou a revelação é sua própria natureza, não sua função ou propriedade. É essa verdade que é exposta nos versículos acima. Quando alguém alcança esse aspecto superior de testemunha, passa a perceber que se trata de pura consciência, sem sequer um traço de testemunho.
É para evitar a confusão entre diferentes níveis de pensamento ou pontos de vista que os diferentes estágios da iluminação foram apresentados na seção 4. Até que se alcance o estágio mais elevado da pura consciência, não pode deixar de haver várias sobreposições sobre a Realidade. Estágio por estágio, essas sobreposições irão desaparecer, uma após a outra. A consciência pura é mera experiência. No início, ela só pode ser percebida por meio de objetos.
“O invisível Rahu (a sombra da Terra é classificada na astrologia hindu como um planeta, chamado Rahu – a Cabeça do Dragão) é percebido por meio da Lua eclipsada. Da mesma forma, o Atma, que é mera experiência, é percebido por meio de objetos”.
Dessa forma, só é possível perceber o Atma, que é pura consciência, passo a passo, e assim superar a noção do mundo objetivo.
Na seção 7, versículo 1, é mostrado que o Atma é a percepção do som e de outros objetos. Quando a noção dos objetos for desaparecendo gradualmente e a atenção for se fixando cada vez mais na percepção, perceber-se-á que é a Realidade que permeia tudo. Com o passar do tempo, ela se revelará como o Absoluto. Aqui também fica demonstrado que a experiência da Realidade ocorre por etapas.
Frequentemente ouvimos pessoas discutindo a verdade espiritual a partir de um ponto de vista objetivo e se contentando com o conhecimento teórico. Isso é resultado da busca por linhas de pensamento áridas e infrutíferas. Um aspirante não tem nada a ganhar com a mera discussão elogiosa ou depreciativa das verdades expostas nas obras filosóficas. A ideia dos Acharyas era apenas que cada um seguisse alguma linha de pensamento espiritual que o ajudasse a alcançar a realização. Isso fica claro nas palavras de Sri Sureshwaracharya já citadas. O presente livro destina-se àqueles aspirantes sinceros que, não se satisfazendo com o conhecimento teórico, desejam trilhar o caminho da realização.
