0 Prefácio
LEVY, John. The Nature of man according to Vedanta. London: Routledge, 1956.
Prefácio
Uma vida em retrospectiva
1. A formação iniciada em Paris, aos dezenove anos, como aprendiz do arquiteto Auguste Perret proporcionou uma primeira compreensão da unidade subjacente às coisas, pois a participação conjunta nos projetos arquitetônicos, nos cálculos estruturais e no acompanhamento das obras integrava estética, teoria, matemática e prática sob uma orientação marcada pela lógica construtiva, pela audácia e pelo emprego franco do concreto armado.
2. A passagem da arquitetura ao estudo da música com Nadia Boulanger aprofundou a formação intelectual ao associá-la à sensibilidade, pois a música, embora também seja uma arte de construção, oferece maior fluidez à expressão da emoção e da intuição, favorecendo a reunião entre pensamento e sentimento que a vida moderna frequentemente mantém separados.
3. A busca de originalidade artística transformou-se em procura pela origem das coisas e pelo fundamento da experiência que pensamentos e sentimentos exprimem inadequadamente, conduzindo ao reconhecimento da ligação entre as realizações das civilizações tradicionais e a convicção espiritual, cuja verdade pode subsistir apesar da corrupção das instituições religiosas e ser procurada para além de suas expressões rituais e dogmáticas.
4. O estudo da música medieval, do simbolismo artístico, da filosofia grega e de diversas correntes espirituais culminou no encontro com os escritos de René Guénon, que possibilitaram uma primeira compreensão da unidade essencial entre a individualidade e o universo e de sua realização efetiva, embora posteriormente se tornassem perceptíveis limitações em sua atitude e em sua apresentação do Vedānta.
5. A compreensão inicial da identidade suprema tornou inseparável a busca da verdade da necessidade de orientação pessoal competente, pois a realização espiritual duradoura exige superar a crença na individualidade limitada e reconhecer o Si mesmo como infinito e eterno, transformação que somente pode ser efetivamente favorecida por quem já realizou plenamente essa verdade.
6. A intuição da função do mestre espiritual antecedeu o encontro com um sábio verdadeiro e orientou todas as etapas posteriores da busca, até tornar-se evidente que a orientação autêntica e o conhecimento verdadeiro são inseparáveis.
7. A adesão ao judaísmo ortodoxo decorreu da aceitação inicial da tese de Guénon sobre a unidade fundamental das tradições religiosas, cuja aparente capacidade de reconciliar diferenças favoreceu o retorno à religião ancestral, embora essa tese se apoiasse na tendência de interpretar intuições, símbolos e ensinamentos religiosos à luz da não dualidade do Advaita, atribuindo-lhes uma explicitação da verdade suprema que nem sempre possuíam.
8. A prática rigorosa do judaísmo em uma escola rabínica, acompanhada pelo convívio com um mestre oriundo de uma linhagem cabalística de Jerusalém, alimentou a expectativa de encontrar na Cabala uma orientação capaz de transmitir oralmente a compreensão profunda da tradição, inacessível pela simples leitura das formulações escriturárias.
9. A experiência religiosa, sustentada pelo estudo prévio e pelo empenho pessoal, reuniu aspirações dispersas em uma direção única e proporcionou o primeiro vínculo vivido com um princípio imutável, evidenciando que o conhecimento espiritual deve ser imediato e efetivo, pois a informação teórica não substitui a experiência daquilo que se pretende conhecer.
10. A concepção de um universo criado do nada pela vontade divina encerra uma dificuldade fundamental, pois atribui desejos e decisões a um princípio supostamente autossuficiente, infinito e eterno, enquanto a existência de uma criação finita distinta de seu criador comprometeria a infinitude deste.
11. A interpretação cabalística do Gênesis permitiu distinguir seu sentido profundo da leitura literal e aproximá-lo da concepção cosmológica segundo a qual o mundo é uma ideia na mente de uma divindade pessoal e condicionada, mas essa explicação permanece insuficiente diante da compreensão de que também um Deus concebido como objeto distinto do sujeito pertence ao domínio do percebido e, portanto, não pode constituir a realidade última.
12. A realidade última não pode ser adequadamente formulada em palavras nem reduzida a uma construção racional, pois sua procura exprime uma exigência interior que conceitos, predicados e credos não conseguem satisfazer.
13. O Vedānta não dualista oferece uma abordagem fundada na análise da própria experiência, pela qual o Si mesmo, compreendido como princípio consciente de todo conhecimento e não como ser corporal, constitui a única existência imediatamente certa, cuja evidência dispensa demonstração.
14. A certeza do Si mesmo permanece até no ato de duvidar de sua existência, distinguindo-se sua consciência imutável das transformações do corpo, dos sentidos e da mente; a identificação equivocada com a alma individual produz medo, enquanto o reconhecimento do Si mesmo supremo elimina essa limitação e confirma a existência absoluta da consciência, embora ela jamais possa tornar-se objeto de si mesma.
15. A superação do medo decorre do reconhecimento do Si mesmo como a consciência na qual surgem as ideias de corporeidade e objetividade, cessando a identificação com o corpo que sustentava a condição de vulnerabilidade individual.
16. O nascimento, o envelhecimento e a morte pertencem ao corpo, as experiências sensíveis pertencem aos sentidos e o sofrimento, o desejo, o ódio e o medo pertencem à mente, enquanto o Si mesmo permanece livre dessas condições por não se identificar com nenhum desses instrumentos da experiência.
17. A condição de quem realizou o Si mesmo também recebe uma caracterização no Bhagavad-Gītā, que a exprime em linguagem diferente daquela empregada por Śaṅkara.
18. A satisfação, a alegria e a paz encontradas no verdadeiro Si mesmo libertam da necessidade de agir para obter realização, pois nada pode ser acrescentado pela ação nem perdido pela inação àquele cuja independência já não depende de pessoas ou coisas.
19. A liberdade em relação aos resultados da ação não exige abandonar atividades e deveres, mas cumprir o que corresponde à própria natureza sem ansiedade pelos frutos, pois a paz e a independência efetivas dependem da superação da identificação corporal e de uma transformação interior, comparável a calçar os próprios sapatos em vez de tentar recobrir toda a terra com couro.
20. A prática do Islã e das disciplinas de uma ordem sufi integrou a busca de orientação espiritual e revelou a tensão entre a dualidade religiosa de Deus e ser humano e as indicações de uma verdade superior presentes nas escrituras e nas interpretações místicas; a perseguição de declarações como «Eu sou a Verdade», atribuída a Mansur, evidencia a dificuldade de reconhecer que a realidade essencial de Deus e a do ser humano liberto de seus atributos individuais não podem ser distintas.
21. A permanência de pressupostos dualistas limita uma via fundada exclusivamente na devoção, pois a realização da realidade última exige também conhecimento e análise da experiência: no Vedānta não dualista, não se trata de tornar-se aquilo que ainda não se é, mas de reconhecer o próprio ser como consciência, bem-aventurança e existência absolutas, esclarecendo igualmente a constituição perceptiva do mundo para que o conhecimento seja completo.
22. Apesar das limitações atribuídas às religiões no plano do conhecimento supremo, a experiência islâmica proporcionou uma preparação decisiva do pensamento e da sensibilidade para o encontro, na Índia, com um mestre vedantino, por meio do qual se tornou evidente que a verdade é simples e autoevidente, sem que o percurso complexo dessa busca deva ser repetido por todos.
23. O Si mesmo, sempre presente em todos os seres, parece não ter sido alcançado apenas em razão de um conhecimento equivocado, cuja destruição pelo conhecimento verdadeiro revela que aquilo que se procurava nunca esteve ausente, assim como um colar buscado em toda parte acaba sendo encontrado no próprio pescoço.
