Yoga
MASUI, Jacques (org). Yoga. Science de l’homme intégral. Textes et études publiés sous la direction de JACQUES MASUI. Paris: Les Cahiers du Sud, 1953.
O yoga: o que não é; o que é; o que pode tornar-se
O que não é
1. O yoga não se define como ser absoluto ou relativo, essência ou existência, pois sua prática não pertence ao horizonte ontológico constituído pelas categorias filosóficas de Platão e Aristóteles.
2. O yoga não tem por finalidade produzir representações, raciocínios ou juízos, situando sua eficácia fora da oposição entre verdade e erro, embora sua prática possa encontrar impasses ou superar obstáculos.
3. O yoga não constitui um método no sentido grego de um percurso regulado pelo rigor intelectual, pois, embora envolva orientação e disciplina, sua exigência específica se desenvolve à margem da inteligência discursiva.
4. O yoga não corresponde ao desenvolvimento espontâneo de um processo natural, mas a uma intervenção deliberada sobre a vida mediante recursos elaborados que não se deixam compreender adequadamente pela oposição ocidental entre natureza e artifício, razão e irracionalidade.
O que é
1. O yoga constitui uma prática na qual a maneira de ser resulta de uma maneira de formar a si mesmo, orientando-se pela autenticidade dos gestos e das posturas, em vez de subordinar-se a pressupostos conceituais ou a critérios de verdade.
2. A transformação do yoga em uma escolástica ritual decorre de sua incorporação ao bramanismo, enquanto sua ausência entre os antigos árias e suas afinidades com o taoismo indicam uma origem exterior à tradição bramânica e indo-europeia.
3. A autenticidade corresponde a uma espontaneidade que, explorada e exercitada, pode adquirir organização teórica e clássica, permitindo compreender o yoga como descoberta de uma lógica dos gestos cuja inteligibilidade se amplia com as modernas investigações psicológicas sobre tensão, ação, comportamento e reflexos.
4. O yoga apresenta-se como uma técnica do humano voltada à investigação concreta das funções vitais, ao passo que o positivismo de Comte permanece uma construção abstrata sobre a humanidade, insuficiente para sustentar a oposição preconcebida entre um indiano entregue à fantasia e um europeu dedicado ao pensamento.
5. A investigação do praticante explora os recursos vitais mediante verificação persistente na experiência vivida (Erlebnis), examinando movimentos musculares, modalidades respiratórias, regiões corporais e combinações funcionais, de modo que a vivência da fisiologia conduz ao reconhecimento da anatomia.
6. Mesmo apoiando-se numa anatomia inexata, a concepção dos sopros vitais permite reconhecer circulações modificáveis e funções efetivamente experimentadas, oferecendo ao praticante um conjunto de recursos corporais comparável à diversidade de possibilidades dominadas por um organista.
7. O yoga desenvolve uma investigação dos movimentos e das funções possíveis a partir da respiração e das circulações corporais, convertendo essa exploração em treinamento de posturas e gestos, por vezes arriscados, sem que pressupostos religiosos necessariamente limitem sua curiosidade prática.
8. A utilização bramânica subordinou a audácia dos praticantes a finalidades religiosas diversas, mas o yoga conservou um impulso de experimentação e domínio de si que ultrapassa cultos e dogmas coletivos e explica sua adoção por jainistas, budistas, vishnuítas e shivaítas.
9. A hipótese de uma origem exterior ao bramanismo e à tradição indiana aproxima o yoga de um horizonte cultural designado como mongoloide, relacionando suas práticas respiratórias ao taoismo chinês e às conexões entre Índia e Tibete presentes no budismo e no tantrismo.
10. O yoga designa uma disciplina de constituição de si pela qual o praticante se torna unido e coerente em suas funções vitais, capaz de conduzir a própria vida com equilíbrio e domínio, enquanto a interpretação dessa união como fusão com o Absoluto representa um desenvolvimento religioso derivado.
O que pode tornar-se
1. A raiz yuj atribui ao yoga o sentido de conexão e solidariedade entre órgãos ou funções, cuja coordenação assegura a eficácia do conjunto e encontra na roda uma imagem especialmente adequada de coesão estrutural.
2. A descoberta e o domínio das funções orgânicas podem converter-se, no interior da ortodoxia, em devoção a uma divindade ou em compreensão intelectual orientada à união com o atman supremo, deslocando a coesão interna para uma ligação religiosa com o Absoluto.
3. Jainistas e budistas incorporam o yoga a uma disciplina de renúncia integral destinada a extinguir o querer-viver, em vez de conquistar capacidades utilitárias ou méritos religiosos, atribuindo-se às comunidades heterodoxas sua indianização antes da disseminação pelos cultos tradicionais.
4. O tantrismo combina tradições e inovações sectárias numa configuração em que o yoga, impregnado de magia e de erotismo sacramental, desempenha uma função mais decisiva do que o próprio legado védico.
5. A ampliação do significado de yoga no Mahabharata e na Bhagavad Gita permite aplicar o termo a diferentes disciplinas, empreendimentos e iniciativas, flexibilidade que permanece nas elaborações de Ramakrishna, Tagore e Aurobindo.
6. Nos Yoga Sutras, o yoga corresponde à restrição da atividade mental e à suspensão da discursividade em favor da concentração, mas essa disciplina também admite um desenvolvimento construtivo no Mahayana e entre os Yogacharas, cuja audácia especulativa pode coexistir com rigorosa circunspecção crítica.
7. O budismo converte o yoga da saúde em um yoga da salvação, enquanto o Mahayana privilegia construções metafísicas e o tantrismo operações mágicas efetivas, constituindo modalidades distintas de transformação religiosa que não se deixam reduzir à sucessão entre um bramanismo antigo e um hinduísmo moderno.
8. A associação entre yoga e práticas sexuais no hinduísmo atribui aos símbolos eróticos uma função religiosa de conciliação dos contrários, exigindo compreender o tantrismo em seu próprio contexto, sem projetar sobre ele avaliações derivadas da moral cristã.
9. A popularização ocidental de um yoga simplificado exige distinguir suas principais configurações históricas e doutrinais para evitar interpretações inadequadas de suas finalidades e de seus procedimentos.
10. O yoga dos Yoga Sutras combina sabedoria e eficácia ao conduzir à meditação e ao recolhimento integral, tornando possível o conhecimento correto pelo domínio da respiração e das funções mentais, sem identificar o espírito à substância dos vedantinos ou à simples correção do pensamento budista.
11. O yoga budista articula desapropriação de si, dissolução da crença no eu, pensamento correto e eliminação do carma, enquanto o Mahayana amplia essa ascese numa orientação metafísica e escatológica na qual o desinteresse dos bodhisattvas culmina em potência libertadora e crítica do realismo ontológico.
12. O tantrismo reúne ideais, cultos e práticas numa operação de transformação e divinização, combinando fórmulas bramânicas e ritos mágicos para produzir a salvação mediante procedimentos em que a pureza emerge do impuro e o desinteresse pode atravessar a experiência do prazer.
13. O yoga transforma o saber védico em prática e diferencia a experiência religiosa indiana da iraniana, enquanto as relações entre os sopros vitais indo-europeus, certas disciplinas cristãs e a respiração taoista tornam decisiva a investigação comparativa de suas afinidades e diferenças culturais.
O que se aproxima do yoga
1. A difusão ocidental de práticas orientais, como o judô e determinadas técnicas respiratórias, não assegura a incorporação das disposições culturais e das formas de vida das quais essas práticas originalmente participam.
2. As investigações modernas sobre anatomia, esporte, reflexologia e comportamento aproximam-se do yoga ao explorar coordenações nervosas, atitudes conscientes, automatismos e processos inconscientes, mas sua interpretação e utilização exigem compreensão progressiva, comparação entre mentalidades e cautela diante da pretensão de um conhecimento completo.
