7.1 Kapila e Patanjali
ZIMMER, Heinrich. Philosophies of India. Edited by Joseph Campbell. New York: Pantheon Books, 1951.
SĀNKHYA E YOGA
1. Kapila e Patañjali
1. Sāṅkhya e Yoga constituem aspectos complementares de uma mesma disciplina de libertação, pois o primeiro enumera e analisa os componentes da natureza humana, explicando sua associação no estado de sujeição (bandha) e sua separação na libertação (mokṣa), enquanto o segundo desenvolve as técnicas práticas desse processo, orientadas ao isolamento-integração (kaivalya), de modo que o conhecimento discriminativo e a concentração interior conduzem ao mesmo fim e encontram sua unidade reconhecida na Bhagavad-Gītā.
2. O fundamento comum desses sistemas compreende a dualidade irredutível entre as mônadas vitais (puruṣa) e a matéria inanimada (prakṛti), a manifestação dessa matéria fundamentalmente simples em três aspectos constitutivos (guṇa), comparáveis aos fios de uma corda, e a sujeição das mônadas associadas à matéria ao ciclo incessante de transmigração (saṃsāra).
3. As concepções fundamentais do Sāṅkhya e do Yoga remontam a uma antiga tradição indiana não védica, aparentada ao sistema jainista e desprovida do panteão característico do bramanismo, tendo sido incorporadas tardiamente às camadas mais recentes das Upaniṣad e à Bhagavad-Gītā, quando a abertura da tradição bramânica às influências da civilização nativa permitiu uma integração que originaria os grandes sistemas do pensamento indiano medieval e contemporâneo.
4. A fundação do Sāṅkhya é atribuída ao santo semimítico Kapila, cuja autoridade espiritual independe da linhagem dos sábios védicos e cujo poder aparece no episódio do Mahābhārata em que os sessenta mil filhos do soberano Sagara, ao encontrarem no mundo subterrâneo o cavalo sacrificial desaparecido e negligenciarem a homenagem devida ao asceta que meditava ao seu lado, foram reduzidos a cinzas por um fulgor de seu olhar.
5. O poder de Kapila possui caráter solar, expresso por seu nome, que significa “o Vermelho” e constitui também um epíteto do Sol e de Viṣṇu, enquanto sua influência na época de Mahāvīra e do Buda situa sua existência antes do século VI a.C., embora os textos clássicos do sistema sejam muito posteriores, com a Sāṅkhya-kārikā de Īśvarakṛṣṇa datada de meados do século V d.C. e o Sāṅkhya-sūtra tradicionalmente atribuído ao fundador situado entre 1380 e 1450.
6. A datação dos Yoga-sūtra de Patañjali permanece controversa, admitindo-se que os três primeiros livros possam remontar ao século II a.C. e que o quarto, por suas possíveis referências ao budismo tardio, pertença ao século V d.C., enquanto o conjunto da obra e seu antigo comentário atribuído a Vyāsa se distinguem entre as realizações mais notáveis da prosa filosófica pela profundidade do conteúdo e pela clareza, concisão, sobriedade e flexibilidade da exposição.
7. A figura de Patañjali permanece envolvida em tradições lendárias contraditórias, que ora o identificam com o gramático homônimo responsável pelo Mahābhāṣya, ora distinguem ambos e o apresentam como encarnação do deus serpente Śeṣa, sustentáculo cósmico do universo, enquanto sua localização no século II a.C. pelos estudiosos ocidentais não impede que o sistema associado ao seu nome tenha existido muitos séculos antes.
