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vedanta:zimmer:zpi:7.2

7.2 Concentração introvertida

ZIMMER, Heinrich. Philosophies of India. Edited by Joseph Campbell. New York: Pantheon Books, 1951.

SĀNKHYA E YOGA

1. Quando as ambições e realizações mundanas (artha), os prazeres sensoriais (kāma) e o cumprimento dos deveres de uma vida virtuosa (dharma) perdem seu poder de atração, a aventura espiritual permanece como investigação do segredo do eu oculto sob a personalidade consciente e da realidade encoberta pelos fenômenos exteriores, convertendo o próprio funcionamento do universo no último desafio do espírito humano.

2. A definição inicial dos Yoga-sūtra estabelece a contenção da atividade mental como fundamento da disciplina do Yoga.

3. A fórmula Yogaś cittavṛtti-nirodhaḥ identifica o Yoga com a cessação das modificações da substância mental.

4. A prática do Yoga consiste na interrupção intencional das atividades espontâneas da substância mental, cuja suspensão permite ultrapassar sua agitação habitual.

5. A mente possui uma capacidade incessante de transformação, pela qual sua substância sutil assume as formas e características dos objetos apresentados pelos sentidos, pela imaginação, pela memória e pelas emoções.

6. A agitação mental impede que a interioridade se revele com nitidez, assim como as ondulações de um lago perturbam seus reflexos, de modo que o aquietamento das impressões sensoriais e dos impulsos internos pelo Yoga torna perceptível a mônada vital, comparável a uma joia descoberta no fundo de águas serenas.

7. A mônada vital, denominada puruṣa, ātman ou puṃs, constitui uma realidade consciente, autoluminosa e inteiramente distinta da matéria (prakṛti), sendo eterna, indivisível, imutável e destituída de qualidades ou atividade, de modo que sua liberdade jamais é efetivamente perdida e apenas permanece desconhecida em razão da ignorância e da turbulência mental.

8. Diferentemente da mônada jainista, efetivamente contaminada pela matéria cármica, e do ātman do Vedānta, dotado de beatitude e potência causal, o puruṣa do Sāṅkhya e do Yoga permanece imaterial, inativo e absolutamente isolado (kevala), parecendo participar da vida somente pela associação com os atributos condicionantes (upādhi) dos corpos materiais, aos quais pertencem todas as funções orgânicas e experiências.

9. A presença luminosa do puruṣa produz a aparência de que ele governa e anima o indivíduo, embora os processos materiais sejam conduzidos pelo órgão interno (antaḥkaraṇa), em uma associação sem começo comparável à relação entre o sacerdote e o rei, entre o rei e seu general no xadrez, entre o Sol e a vida terrestre ou entre uma figura imóvel e seu reflexo em um espelho em movimento.

10. O envolvimento aparente (saṃyoga-viśeṣa) da mônada com o indivíduo decorre do reflexo de sua luminosidade na matéria mental em transformação, e somente o repouso da mente possibilita o conhecimento discriminativo (viveka), pelo qual o puruṣa se revela em sua permanente independência dos processos mentais, sensoriais, corporais e exteriores.

11. O conhecimento verdadeiro exige reconhecer que nenhuma experiência afeta ou contamina a mônada vital, pois a atribuição das transformações da existência ao eu constitui uma ilusão produzida pela ignorância, enquanto sua natureza permanece serena e desapegada através da vida presente e dos renascimentos.

12. As atividades mentais cuja supressão permite reconhecer a natureza da mônada compreendem o conhecimento correto (pramāṇa), o conhecimento errôneo (viparyaya), a fantasia (vikalpa), o sono (nidrā) e a memória (smṛti), e sua cessação acarreta também o desaparecimento dos desejos e das demais manifestações emocionais.

13. O conhecimento correto possui três fundamentos, constituídos pela percepção exata, pela inferência válida e pelo testemunho confiável.

14. A percepção ocorre quando o princípio pensante assume, por intermédio dos sentidos, as formas dos objetos, em uma transformação contínua comparável ao contato das pontas de uma chama com as coisas ou à adaptação do cobre fundido ao recipiente que o recebe.

15. As transformações perceptivas e emocionais da mente modificam o reflexo da luminosidade do puruṣa e produzem a ilusão de que a própria mônada sofre as experiências individuais, razão pela qual até as percepções consideradas corretas no domínio material devem ser suspensas, pois também sustentam a falsa identidade de forma (sārūpya) entre a substância mental e a consciência pura.

16. A inferência consiste na atribuição mental de características aos objetos e possui validade quando encontra apoio na percepção correta.

17. O testemunho correto provém das escrituras sagradas e das autoridades tradicionais, dependendo da compreensão adequada de suas palavras e corroborando a percepção e a inferência válidas.

18. O conhecimento errôneo resulta de apreensões falsas ocasionadas por defeitos no objeto percebido ou no órgão responsável pela percepção.

19. A fantasia produz representações sem fundamento perceptivo, como os seres mitológicos ou a atribuição de experiências mentais à mônada vital, distinguindo-se do conhecimento errôneo por não poder ser corrigida mediante a observação cuidadosa de um objeto.

20. O sono conserva uma atividade espontânea da substância mental, evidenciada pela recordação do prazer de dormir profundamente, motivo pelo qual o Yoga procura suspendê-lo juntamente com as atividades próprias da vigília.

21. A memória nasce de impressões latentes (saṃskāra) deixadas por experiências da vida presente ou de existências anteriores, cujos resíduos tendem a reativar-se como disposições para agir segundo padrões estabelecidos por reações passadas.

22. Os convites provenientes de seres situados em posições elevadas não devem despertar apego ou orgulho no praticante do Yoga, pois essas reações produzem consequências contrárias à libertação.

23. Os deuses permanecem inferiores ao yogin perfeito porque, embora desfrutem de condições celestes extraordinariamente favoráveis, continuam vinculados ao prazer, de modo que a aspiração aos céus constitui uma tentação capaz de desviar a prática de sua finalidade de transcender todos os mundos dotados de forma.

24. A realização do Yoga compreende quatro graus, correspondentes a diferentes condições do praticante e à progressiva consolidação de suas capacidades espirituais.

25. O primeiro grau corresponde ao observante das práticas, em quem a luminosidade do conhecimento espiritual apenas começa a manifestar-se.

26. O segundo grau caracteriza-se pela aquisição de uma intuição portadora da verdade, que constitui uma realização mais elevada do conhecimento contemplativo.

27. O terceiro grau pertence ao praticante que dominou os órgãos e os elementos, adquirindo os recursos necessários para conservar as realizações alcançadas e desenvolver aquelas ainda por atingir até a perfeição.

28. O quarto grau corresponde à superação de tudo o que pode ser cultivado, restando apenas a reabsorção da mente em sua causa primeira.

29. Os deuses procuram seduzir o praticante que alcançou o segundo estado, denominado “da mel”, oferecendo-lhe prazeres celestes, juventude e longevidade, poderes extraordinários, satisfação dos desejos e aperfeiçoamento dos sentidos e do corpo, como recompensas de suas virtudes capazes de prendê-lo à existência celestial.

30. Diante dessas ofertas, o yogin deve reconhecer que os prazeres sensoriais ameaçam a luz libertadora do Yoga e podem reconduzi-lo ao sofrimento dos renascimentos, sustentando a resolução de abandonar suas seduções como aparências enganosas que alimentam novamente o ciclo de nascimento e morte.

31. A firmeza da concentração exige abandonar tanto o apego aos prazeres quanto o orgulho de ser desejado pelos deuses, pois a presunção favorece a negligência e o retorno dos obstáculos (kleśa), enquanto o desapego e a vigilância permitem realizar o propósito interior e avançar em direção à meta suprema.

32. O isolamento libertador (kaivalya) realiza-se quando a pureza da capacidade contemplativa (sattva) iguala a pureza da mônada vital (puruṣa).

33. A capacidade contemplativa alcança essa pureza quando se liberta da atividade (rajas) e da inércia (tamas), ultrapassa a representação da diferença entre si e o puruṣa e extingue todas as sementes internas dos obstáculos, deixando de sofrer as contaminações que perturbavam a substância pensante.

34. A pureza culminante consiste na cessação da falsa atribuição das experiências à mônada vital, cujo isolamento se manifesta quando o puruṣa permanece incontaminado em sua própria luminosidade interior.

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