7.3 Os obstáculos
ZIMMER, Heinrich. Philosophies of India. Edited by Joseph Campbell. New York: Pantheon Books, 1951.
SĀNKHYA E YOGA
1. O termo kleśa designa aquilo que aflige, deteriora ou obscurece a natureza humana, impedindo a manifestação de sua essência, e o Yoga de Patañjali constitui uma técnica de remoção desses impedimentos para restabelecer a perfeição inerente ao ser essencial.
2. A identificação dos impedimentos exige determinar quais forças restringem a manifestação da verdadeira natureza humana.
3. Os cinco impedimentos fundamentais revelam uma divergência profunda entre a valorização ocidental habitual da personalidade e a compreensão indiana das condições necessárias à libertação.
4. A ignorância (avidyā) consiste no desconhecimento da verdade que transcende o funcionamento ordinário da mente e dos sentidos, submetendo a consciência aos preconceitos e hábitos da experiência ingênua e constituindo a raiz do pensamento consciente habitual.
5. A noção de eu (asmitā) consiste na identificação da essência do ser com o sujeito evidente da experiência, tomando a consciência de “eu sou” como fundamento real e suficiente da própria existência.
6. O apego (rāga) compreende a simpatia, o interesse e as diversas formas de afeição que vinculam o indivíduo aos objetos de sua experiência.
7. A aversão (dveṣa) constitui o movimento contrário ao apego, manifestando-se como desagrado, repugnância, rejeição ou ódio.
8. Apego e aversão fundamentam os pares de opostos (dvandva) que governam emoções, reações e opiniões, perturbando incessantemente o equilíbrio interior e impedindo que a mente reflita sem distorções a natureza do puruṣa.
9. O apego à vida (abhiniveśa) consiste na vontade de continuar existindo, pela qual o indivíduo se prende ao processo vital como se sua continuidade pudesse ser indefinida.
10. Os cinco impedimentos são perturbações que obscurecem a serenidade essencial, surgindo contínua e involuntariamente da existência fenomênica e sustentando a construção ilusória do eu.
11. A confusão da consciência tem sua origem no jogo dos três constituintes da matéria (guṇa), denominados sattva, rajas e tamas, cujas interações determinam as manifestações de prakṛti.
12. Sattva designa a pureza, a clareza e a quietude do estado ideal de ser, predominando nos seres celestes e nas disposições desinteressadas e espirituais, de modo que seu fortalecimento e a progressiva eliminação de rajas e tamas constituem o primeiro objetivo da disciplina de Patañjali.
13. Rajas associa os sentidos de impureza, poeira, coloração e paixão, exprimindo a turvação do entendimento pelas agitações passionais, em contraste com a transparência do céu outonal que simboliza a clareza intelectual do sábio.
14. Rajas obscurece o conhecimento do mundo e de si, manifestando-se como ambição, vaidade, desejo de poder e competição, e impulsiona a luta pelos bens e prazeres da existência sem consideração pelas necessidades ou pelo sofrimento dos demais.
15. Tamas representa a obscuridade, a inconsciência e a inércia, produzindo insensibilidade, crueldade, ignorância e ilusão nos diferentes reinos da natureza, ao mesmo tempo que conserva as estruturas do universo, da sociedade e do indivíduo, contrabalançando o dinamismo potencialmente desagregador de rajas.
16. A ignorância sustenta a interação dos guṇa e origina os demais impedimentos ao alimentar a ilusão de que os valores transitórios da existência terrestre ou celestial podem proporcionar felicidade permanente, levando a razão a atribuir realidade duradoura a bens, mundos e seres necessariamente sujeitos ao sofrimento e à destruição.
17. Enquanto o jainismo situa o problema da libertação na oposição entre a mônada vital (jīva) e a matéria não viva (ajīva), o Yoga concentra seu combate na ignorância que sustenta o desejo de continuidade, evidenciando a transitoriedade do universo, dos astros e dos próprios deuses para desfazer as crenças que mantêm o apego à existência.
18. Os cinco impedimentos deformam continuamente a percepção, mas a prática sistemática do Yoga enfraquece sua raiz na ignorância, e os estados de absorção interior suspendem temporariamente sua atuação, permitindo conhecimentos inacessíveis à consciência ordinária submetida ao fascínio do mundo.
19. Os impedimentos correspondem às forças que constituem a personalidade e a ligam ao ambiente, abrangendo a identificação com o eu, as preferências e rejeições e, sobretudo, a vontade espontânea de viver, cuja persistência, mesmo nos sábios, impulsiona os renascimentos e antecede qualquer conhecimento consciente da morte.
20. O mito bramânico de Prajāpati exprime o impulso universal de perpetuação ao apresentar o criador como personificação da matéria e da força vital, levado a produzir o mundo tanto pelo medo da solidão quanto pelo desejo de expandir sua substância e multiplicar-se em criaturas.
21. O desamparo diante da morte e o impulso de crescimento e reprodução constituem aspectos complementares de uma mesma tendência fundamental à continuidade, figurada no deus criador que procura superar sua solidão pela manifestação da potência vital que traz em si.
22. Os cinco kleśa compreendem tendências involuntárias e inconscientes que sustentam a vida e, herdadas de existências anteriores, produzem o nascimento atual, razão pela qual sua extirpação constitui a primeira tarefa da filosofia do Yoga.
23. A experiência do puruṣa exige dissolver tanto a personalidade consciente quanto o impulso animal inconsciente que a sustenta, superando as resistências morais e biológicas mediante desapego e interiorização rigorosos, apoiados no ascetismo, no aprendizado da doutrina sagrada e na entrega à vontade e à graça de Deus.
24. O ascetismo purifica as marcas deixadas pelas ações corporais e mentais sob a influência da paixão e da inércia, removendo os obstáculos que obscurecem a natureza interior e permitindo que sua serenidade cristalina se manifeste como iluminação libertadora e transumana.
25. O aprendizado da doutrina sagrada compreende a memorização e a recitação metódica de textos, preces, fórmulas e sílabas simbólicas, impregnando a mente com o conteúdo espiritual da tradição e afastando-a dos interesses mundanos por meio do desapego religioso.
26. A entrega à vontade e à graça de Deus transforma as tarefas cotidianas em serviço desinteressado, realizado sem apropriação egoísta de seus efeitos e oferecido, juntamente com seus resultados, como oblação, constituindo uma disciplina devocional (bhakti) que elimina progressivamente o egoísmo das ações.
27. Uma vida orientada por essas disciplinas reduz os impedimentos e destrói as sementes de futuras existências, acumuladas pelas ações presentes e passadas, até que a natureza mental, purificada da paixão e da obscuridade, adquira a transparência de sattva e permita a manifestação espontânea da iluminação.
28. A disciplina do yogin enfraquece sistematicamente a personalidade e suas tendências biológicas mais profundas, até que a pureza de sattva revele o puruṣa como presença autônoma e espectadora, distinta do corpo, da psique e de todas as faculdades, inclinações e virtudes antes confundidas com a identidade essencial.
29. O conhecimento discriminativo (viveka) desfaz a ignorância ao distinguir o núcleo permanente da identidade das transformações vitais, permitindo reconhecer o isolamento (kaivalya) da mônada autoluminosa no espelho purificado da mente e permanecer nessa realidade imutável, de onde os processos corporais e psíquicos podem ser contemplados sem envolvimento.
