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2.2 Religiões

DANIÉLOU, Alain. La Fantaisie des dieux et l'aventure humaine. Monaco: Éditions du Rocher, 1985.

II – AS RELIGIÕES DO KALI YUGA

  • O shivaísmo, religião dos antigos dravidianos, permaneceu sempre a religião do povo, e suas concepções metafísicas, cosmológicas e rituais foram preservadas por comunidades de ascetas errantes, à margem da sociedade oficial, que os arianos chamavam com desprezo de Yati (errantes), Vratya (fora de casta) ou Ajivika (mendigos).
  • Esses ascetas eram considerados Shudras ou mesmo párias proibidos de entrar nas cidades, e o termo Ajivika designava na prática toda a população não ariana, cujos representantes laicos formavam nas grandes cidades do Ganges uma sociedade paralela com membros de toda a hierarquia social.
  • No século IV da era cristã, Amarasimha, autor de um célebre dicionário sânscrito, ainda classificava entre os Shudras os Devala ou shivaítas adoradores de ídolos, incluindo os Pashupata, os Pancharatra e os Tantrika, grupos que mantiveram a antiga religião, seus ritos, cosmologia, mitos e práticas, e cujas ordens monásticas ainda ensinam as disciplinas e os ritos erótico-mágicos do tantrismo.
  • A sociedade ariana praticava contra eles uma discriminação punitiva, e no sul da Índia, ainda no século XIV, os Ajivikas, isto é, os autóctones, pagavam impostos muito mais pesados que o restante da população, como os muçulmanos fariam mais tarde contra os hindus.
  • A data de 3102 antes de Cristo, que marca o início do Kali Yuga, representa uma realidade cosmológica ligada a uma alteração dos influxos planetários, sentida em todo o mundo, como atestam o dilúvio da Suméria, o calendário hebraico que começa em 3760 e o calendário maia que começa em 3313, e após os acontecimentos que abrem cada período instala-se um clima característico, que no Kali Yuga é de tensões, rivalidades, conflitos, invasões e guerras.
  • As concepções perversas, hostis à tradição de sabedoria e de harmonia entre as espécies, surgidas no Dvapara Yuga, impõem-se com violência desde o início do Kali Yuga, com a irrupção dos bárbaros arianos evocada na Grande Guerra do Mahabharata, a imposição do vedismo e o desenvolvimento do jainismo, religião moralista e ateia.
  • No meio do Yuga delineiam-se as condições do declínio final, e o século V antes de Cristo vê manifestarem-se com força as ideologias causadoras da decadência humana, com o reaparecimento, conforme as predições, dos ensinamentos de Arihat que haviam provocado a perda dos Assuras.
  • Três personagens desempenharam papel-chave nas reformas religiosas que condicionariam todas as religiões posteriores: Makkhali Gosala (560-484), Mahavira (547-467) e Gautama (550-483), chamado pelos discípulos de Buda, o Iluminado, sendo o sinal característico dessa inversão de valores a tentativa de reforma da tradição shivaíta por Gosala.
  • Gosala era um dos ascetas errantes não arianos de origem humilde que a sociedade burguesa chamava Ajivikas, preocupado com as seitas extremistas dos Kapalika (portadores de crânios) e dos Kalamukha (cabeças negras), cuja magia e atitude antissocial chocavam a sociedade urbana, e procurou valorizar os aspectos filosóficos e racionalistas da antiga cultura pré-ariana em oposição ao shivaísmo popular extático e místico.
  • Tentativas semelhantes de adaptar o shivaísmo aos preconceitos de uma sociedade burguesa reaparecem entre os Vira-Shaiva ou Lingayat da Idade Média e, mais tarde, entre os reformadores da era britânica.
  • Os ascetas shivaítas andavam nus, cobriam o corpo de cinzas, praticavam danças orgiásticas, recusavam o enquadramento de uma sociedade voltada para o produtivismo e o puritanismo, viviam fora das cidades com cabelos desgrenhados e olhar alucinado e desprezavam os bens materiais, à semelhança da seita grega dos cínicos, de que Diógenes é exemplo típico, nitidamente aparentada aos Kalamukha.
  • O Bhagavati Sutra, obra jainista, conservou a descrição mais importante da vida e da obra de Gosala, de suas relações e ruptura com Mahavira e das circunstâncias de sua morte.
  • O pai de Gosala era um Mankha, espécie de bardo ambulante que exibia imagens piedosas, e, sendo não ariano, era considerado um Dasyu, equivalente ao nativo da época colonial, a quem toda posição não servil era vedada, embora fosse versado na antiga tradição filosófica, em particular nas teorias materialistas do Vaisheshika e na cosmologia do Samkhya, muito mais evoluídas que as concepções nebulosas dos seguidores dos Vedas.
  • Gosala nasceu, como Jesus, num estábulo, perto da célebre universidade de Nalanda, exerceu por alguns anos o ofício familiar e juntou-se depois a um grupo de ascetas mendicantes shivaítas, adquirindo grande renome pelo ascetismo e pelo saber, sendo considerado por seus discípulos o vigésimo quarto profeta (Tirthankara) dos Ajivikas e reformador do antigo shivaísmo.
  • Uma grande onda de inquietação espiritual invadiu o vale do Ganges no século VI antes de Cristo, pois nem os trinta e três grandes deuses arianos nem os espíritos da natureza dos aborígenes satisfaziam as necessidades espirituais de uma civilização de comerciantes.
  • Os sábios errantes shivaítas, associais e marginais, ao mesmo tempo ascéticos e lúbricos, exerciam grande fascínio sobre a juventude burguesa e aristocrática das cidades, à maneira dos hippies atuais, e assim o grande burguês Mahavira e o príncipe Gautama tornaram-se discípulos de Gosala, assim como Alexandre dizia que, se não fosse Alexandre, gostaria de ser Diógenes.
  • Gosala, ao apresentar uma versão diferente da antiga cultura, até então rejeitada pela sociedade ariana como superstição de escravos, atraiu os insatisfeitos com o rigorismo védico e despertou o interesse da boa sociedade pela antiga filosofia pré-ariana, papel comparável ao de Aurobindo, que na época moderna, desfigurando o hinduísmo, provocou o interesse europeu por concepções antes tidas como superstições de povos atrasados.
  • Mahavira viajou com Gosala durante seis anos e Gautama juntou-se a eles por três ou quatro anos, como relata o comentário do Avashyaka Sutra por Jinadasa, até que divergências doutrinárias levaram à separação.
  • Após a separação, Gosala retirou-se para Savatthi, na oficina de uma oleira chamada Halahala, cercado de discípulos, e ali reuniu seus seis missionários das seis direções, para os quais codificou sua doutrina, morrendo em 484 antes de Cristo, um ano antes do Buda, enquanto Mahavira viveu até 467.
  • Em seus últimos anos Gosala observou um voto de silêncio, vivendo em estado de transe, praticando a dança e a embriaguez, e pouco antes de morrer respondeu à pergunta sobre a natureza de Halla, o princípio do mundo, com uma frase misteriosa: a forma de Halla é como a raiz do bambu; toca a vina, amigo.
  • A vina é um instrumento de cordas feito de um longo bambu, e a harmonia efêmera dos sons, que evoca a harmonia do mundo, procede do bambu, cuja forma e qualidades sonoras estão implícitas na raiz e fazem parte do plano saído do pensamento do princípio criador, sugerindo uma meditação sobre o caminho tortuoso (vakra) que liga o mundo das aparências ao princípio insondável da criação, problema fundamental do conhecimento.
  • Halla é um termo misterioso usado por certas seitas shivaítas para invocar o ser supremo nas danças extáticas, e é difícil não aproximá-lo de Allah, nome divino adotado pelos muçulmanos juntamente com a pedra negra de Meca, que segundo a geografia dos Puranas é um Linga de Shiva situado no antigo lugar sagrado de Makheshvara, o Senhor do Crocodilo, região onde se descobriram em Omã vestígios de uma importante colônia do povo do Indo.
  • Os ensinamentos de Gosala, que constituem a doutrina reformada dos Ajivikas, foram reunidos numa obra em antigo dravidiano, o Navakadir, traduzida para o tâmil com o nome de Onbadukadir, hoje perdida, mas da qual o Manimekalai, romance tâmil do século IV, conservou importantes trechos.
  • A doutrina de Gosala é conhecida sobretudo pelos escritos de seus adversários jainistas e budistas, que exigem precaução, e seu elemento essencial é a doutrina de Niyati, o determinismo, que concebe uma ordem universal preestabelecida segundo a qual o mundo, em todos os níveis, se desenvolve como os seres vivos, de acordo com um plano contido em seu germe.
  • O progresso e a mudança são estritamente determinados pela lei do processo de desenvolvimento (parinama-krama-niyama), que forma sulcos ou moldes dentro dos quais os indivíduos se desenvolvem, de modo que a ponta dos espinhos e as formas inumeráveis dos animais e das aves provêm de sua natureza (svabhava) e não de sua vontade ou de suas ações, desenvolvendo-se todos os seres segundo o plano (niyati), a natureza (svabhava) e os acasos da sorte (sangati).
  • O mal e o sofrimento, que outros atribuem às ações (karma) dos seres, são determinados pelo destino, e assim como um novelo lançado se desenrola até o fim, o louco e o sábio seguem seu destino e chegam ao fim do sofrimento, sendo o lema dos Ajivikas que os esforços humanos não têm efeito.
  • A doutrina de Gosala dividia-se em seis partes, ganhos, perdas, alegria, pena, vida e morte, e incluía a teoria atômica do Vaisheshika e a cosmologia do Samkhya.
  • Segundo essa doutrina, o número de almas ou consciências individualizadas no mundo é infinito, e uma teoria da libertação cíclica (mandala moksha) refere-se à destruição dos seres individuais no fim de cada ciclo, enquanto o processo de desenvolvimento da vida através de 8.400.000 Mahakappa, estágios evolutivos que representam as diferentes espécies da criação, foi depois interpretado como uma série de reencarnações do ser individual.
  • Todos os Ajivikas usavam a música e a dança como meios de êxtase e conheciam o segredo da reanimação dos mortos por transferência da própria energia vital, um dos Siddhi obtidos pelo Yoga, chamado pelos discípulos de Gosala de pautta parihara.
  • O jainismo surgiu durante a idade da dúvida, com o desenvolvimento das civilizações agrícolas, sedentárias e urbanas, tendo como primeiro profeta Rishabha, figura da pré-história, e trouxe uma moral social, materialista e de tendência ateia, que restringe a liberdade individual em nome do bem comum e da boa ordem da cidade e se opõe ao misticismo shivaíta e à alegria de viver em comunhão com a obra divina que é o mundo natural.
  • O jainismo introduziu no mundo indiano o vegetarianismo, a não violência e as teorias da transmigração e do karma, além de preconizar o suicídio pelo jejum.
  • A doutrina do karma, ligada à da transmigração, atribui as diferenças e desigualdades entre os seres a uma retribuição automática, após a morte, das ações cometidas em vidas anteriores, substituindo a responsabilidade de um eu impermanente, transmissor de um código genético da espécie, pela evolução de um eu supostamente permanente, com graves consequências morais e com a eliminação da noção de graça, da fantasia dos deuses e de sua liberdade de ação, constituindo uma teoria fundamentalmente ateia, contrária ao shivaísmo místico e ao vedismo ritualista.
  • Mahavira é considerado o vigésimo quarto e último profeta do jainismo, sucedendo Parshva, o vigésimo terceiro, que vivera três séculos antes e aparentemente liberalizara os hábitos ascéticos da seita.
  • Revoltado desde jovem contra seu meio essencialmente comerciante, Mahavira tornou-se discípulo de Gosala por mais de seis anos, mas Gosala não praticava nem recomendava a castidade, contrária aos princípios do Yoga shivaíta, sendo provavelmente nesse ponto e no do karma que ambos se separaram, já que o moralismo antissexual só seria introduzido mais tarde em seitas como os Vira-Shaiva.
  • Mahavira era um ariano de casta alta que se convertera do culto religioso do poder sexual ao de um celibato ético, e sua reforma da religião de Parshva visava precisamente impor o celibato, fazendo dele o mais antissexual dos mestres religiosos de seu tempo.
  • A reforma de Mahavira dividiu o jainismo em duas seitas, os Digambara, vestidos de espaço e sempre nus, e os Shvetambara, vestidos de branco, o que lhes permitia participar mais facilmente da vida social urbana.
  • Gautama pertencia a uma família principesca do clã Shakya do Nepal, que reinava sobre a rica cidade de Kapilavastu, numa época em que a aristocracia guerreira se revoltava contra a autoridade dos brâmanes e o ritualismo rígido da religião védica, cujas imensas cerimônias sacrificiais, como o sacrifício do cavalo (ashvamedha), arruinavam as finanças dos Estados.
  • Gautama foi inicialmente atraído pelo misticismo antissocial do shivaísmo, foi por algum tempo discípulo de Gosala e muito ligado a Mahavira, mas separou-se deles, tornou-se seu rival e empreendeu uma reforma do bramanismo baseada nas concepções fundamentalmente ateias dos jainistas, como a recusa dos ritos, a não violência, a reencarnação, o karma, a negação das castas e a ênfase nos valores morais.
  • A doutrina do Buda teve grande irradiação, primeiro na Índia e depois no Extremo Oriente, no Sudeste Asiático e na Ásia Central.
  • Adotado pela classe aristocrática e guerreira a que pertencia Gautama, o budismo tornou-se poderoso instrumento de colonialismo e expansão cultural, justificando por pretextos de propaganda religiosa as conquistas mais ferozes, como a do Kalinga pelo imperador Ashoka, assim como mais tarde o cristianismo e o islã, outras religiões moralistas derivadas de Arihat, serviriam de cobertura aos imperialismos conquistadores.
  • O budismo desempenhou papel predominante na cena indiana por mais de seis séculos.
  • Durante o Dvapara Yuga, idade da dúvida e do desenvolvimento econômico, surgiram com as civilizações sedentárias e urbanas formas de religião protetoras da ordem social conservadora e puritana, mas somente no meio do Kali Yuga se realiza a predição dos Puranas, quando o ensinamento de Arihat, sob a forma do budismo, do jainismo e do ajivikismo reformado, ataca ao mesmo tempo a antiga tradição shivaíta extática, orgiástica e mística e as estruturas ritualistas e hierárquicas da sociedade védica.
  • As três religiões reformadas rejeitavam o politeísmo ariano, os sacrifícios e as teorias monistas dos místicos dos Upanishads, relegavam as potências sobrenaturais a uma posição inferior e reconheciam uma lei natural do universo, à maneira de seus contemporâneos da Jônia.
  • As reformas do meio do Kali Yuga evidenciam o conflito entre misticismo e moralismo, entre a religião da natureza e do amor e a religião da cidade e das virtudes cívicas, tendências cuja alternância, oposição e às vezes complementaridade podem ser acompanhadas ao longo de todo o Kali Yuga.
  • Desde o Dvapara Yuga desenvolveram-se, nos círculos restritos da intelectualidade urbana, tendências materialistas opostas ao shivaísmo dionisíaco, religião da natureza hostil à religião das cidades centrada no homem, e o jainismo, assim como as formas de hinduísmo dele derivadas, como o budismo e o vishnuísmo, ainda hoje representam na Índia as religiões das classes urbanas e comerciantes.
  • Um desenvolvimento análogo ocorreu em todos os territórios ocupados pelos arianos: a herança dos pelasgos e cretenses vencidos está na base da civilização helênica, as fontes indo-sumérias de Hesíodo e Homero foram demonstradas e os cultos dionisíacos aparentados ao shivaísmo misturaram-se à religião ariana na Antiguidade grega e romana.
  • O meio do Kali Yuga é marcado em toda parte por grandes convulsões, como a irrupção dos bárbaros celtas na Europa, a destruição de Atenas, de Urartu e da Babilônia, a invasão do Egito pelos persas e a ascensão de Roma à custa dos etruscos.
  • Surgem simultaneamente em várias partes do mundo doutrinas tão próximas que parecem provir de uma mesma fonte, que segundo os indianos seria o jainismo de Parshva (817-778), todas de caráter moralista e puritano, crentes na transmigração e opostas ao politeísmo e às práticas extáticas.
  • Zoroastro, morto em 553, reformou a religião persa, próxima do politeísmo védico, adotando a teoria jainista da transmigração e da retribuição das ações após a morte; Xenófanes, por volta de 540, opôs-se ao politeísmo e ao antropomorfismo; os gimnopedistas nus, missionários jainistas, exerciam grande influência na Grécia; e Pitágoras, inspirado no Samkhya, ensinou a transmigração e fundou uma confraria no mesmo ano em que Gautama se fez monge, em 530, enquanto a escola cínica é provavelmente um eco do ensinamento dos Ajivikas.
  • Na China, o século V viu nascer o taoísmo de Lao-Tsé (604-531) e o confucionismo de Confúcio (551-479), cujas ideias são muito próximas de certas concepções indianas, e o Grande Sistema do Tao, que busca acompanhar o movimento natural do universo, baseia-se originalmente numa versão poética do Samkhya e do Yoga.
  • Yin e Yang correspondem a Yoni e Linga, as práticas respiratórias e a busca do sol e da lua no interior do corpo lembram Ida e Pingala, as vias lunar e solar do sopro no Yoga, as práticas sexuais de retenção da essência espermática e absorção da essência feminina são idênticas às do Yoga, e a imortalidade concebida como transmutação, os sete sábios, a recusa da ascese e as práticas de longevidade, como o Ayurveda, são análogos aos do shivaísmo.
  • Confúcio, nascido dez anos depois de Gosala e morto cinco anos depois dele, era um agnóstico que se opunha ao taoísmo e queria resolver pela moral todas as dificuldades do mundo, um racionalista desligado de toda metafísica e tradição religiosa, segundo Max Weber, e teria encontrado Lao-Tsé em 517, sendo aparentemente a influência jainista que introduziu no taoísmo posterior a noção de transmigração.
  • Com o desenvolvimento das sociedades urbanas, industriais e capitalistas, as formas moralistas, materialistas e ateias dos ensinamentos de Arihat infiltraram-se em todas as religiões posteriores, inclusive no hinduísmo e no shivaísmo modernizados, e sua influência encontra-se no zoroastrismo, no confucionismo, no judaísmo, no cristianismo, no islã e até no marxismo, a última das religiões do Kali Yuga.
  • O início da era cristã foi em toda parte uma época de questionamento das religiões oficiais: na Índia o budismo, que enfraquecera a tradição védica, estava em declínio, a autoridade dos brâmanes continuava contestada, as estruturas políticas estavam desorganizadas pelas invasões citas e os Yueh-chi ou Kushana, tribos da Ásia Central que reinavam havia dois séculos no norte, haviam imposto os deuses gregos e criado a arte greco-budista.
  • Em outras regiões, príncipes de origem pré-ariana recuperaram o poder, em parte graças ao igualitarismo budista: a dinastia Satavahana, oriunda da antiga tribo pré-ariana dos Andhra, estabeleceu no século I antes de Cristo um vasto império no sul que durou até o século III, sucedida pelos Vakataka a partir do século IV, e as tribos republicanas da Índia Central, os Lichavi e os Naga, cujos chefes se chamavam Bharashiva, recuperaram sua autonomia.
  • O rei Kharavela, no século II antes de Cristo, restabeleceu a independência e a influência do Kalinga, atual Orissa, cuja potência Plínio menciona, e embora fosse jainista protegeu o shivaísmo, religião do povo.
  • Os ascetas mendicantes, desprezados pelas classes dirigentes e atacados também pelo budismo, viram, quando o budismo declinou no início da era cristã, a antiga cultura pré-ariana e sua religião reaparecerem com esplendor, quase intactas após séculos de clandestinidade, e o momento pareceu favorável para restabelecer abertamente seus preceitos e reagir contra todos os cultos estrangeiros, inclusive o vedismo, o budismo e o jainismo.
  • Lakulisha, um Ajivika, monge errante que mantinha numa tradição oculta a herança do antigo saber, julgou oportuno revelá-la, provocando uma profunda revolução social que corresponde ao maior período da civilização indiana, com duração de mais de um milênio, e reagrupou sob o nome de Pashupata, fiéis de Pashupati, o senhor dos animais, as diversas seitas que sobreviviam havia séculos em semiclandestinidade.
  • Segundo a tradição, Lakulisha, cujo nome significa Senhor portador da maça, teria vivido pouco antes e no início da era cristã, sendo contemporâneo de João Batista, e é considerado a última das vinte e oito manifestações de Shiva mencionadas nos Puranas.
  • O Kurma Purana, o Vayu Purana e o Linga Purana prediziam que o Grande Deus (Maheshvara) apareceria sob a forma de um monge errante chamado Lakulin ou Nakulisha, com quatro discípulos, Kushika, Garga, Mitra e Kanrushya, que restabeleceriam o culto de Pashupati, e que, após ensinar o Maheshvara Yoga, ele retornaria ao paraíso de Rudra, tendo tido um predecessor chamado Uluka.
  • Lakulisha provinha de uma dinastia de sacerdotes não arianos chamados Jangama e pertencia à seita dos Kalamukha, e sua obra foi oposta à de Gosala, restabelecendo as formas mais estritas da antiga religião e combatendo violentamente o vedismo, o jainismo e sobretudo o budismo.
  • Lakulisha restaurou os sacrifícios, inclusive os humanos, revalorizou as práticas do Hatha Yoga e do tantrismo e as teorias cosmológicas do antigo Samkhya.
  • Sua influência espalhou-se como um incêndio, primeiro no norte e depois no sul, onde o renascimento shivaíta apoiado pelas dinastias Bharashiva e Vakataka foi difundido pelos místicos Nayanar, todos de classes artesanais, de modo que nos onze primeiros séculos da era cristã o shivaísmo prosperou e o budismo foi erradicado.
  • Esse renascimento do shivaísmo e do tantrismo coincide com um dos períodos mais importantes da civilização indiana nos planos místico, filosófico, artístico e literário, que durou até as invasões muçulmanas do século XII.
  • Na época de Lakulisha, os Akhada, regimentos ou ordens militares religiosas, ganharam grande importância, sendo a dos Dashanami Naga, que ainda existe, a mais antiga, com uma organização semelhante à do mitraísmo que se desenvolvia na mesma época entre os soldados do Império Romano, com culto do touro, sacrifícios, iniciações dionisíacas e refeições sagradas em comum.
  • No século IV, Chandra Gupta, aventureiro de origem cita casado com uma princesa da antiga tribo shivaíta dos Lichavi, assassinou o último soberano de Pataliputra e reinou de 319 a 330.
  • A partir dessa época encontram-se em toda a Índia imagens de Lakulisha sentado na postura de lótus, com o sexo ereto, segurando um limão (matulinga) na mão direita e uma maça (lakula) na esquerda, culto que no fim do século X se deslocou para o sul, enquanto no norte os imperadores Kushana substituíram em suas moedas as imagens de Hércules pelas de Shiva e de Héracles por Lakulisha.
  • A era Shaka, ou cita, que ainda vigora na Índia, começa em 78 da era cristã, e a era Vikrama começara em 58 antes de Cristo.
  • No século II, o imperador Kushana Kanishka empreendeu uma reforma do budismo baseada nas concepções do shivaísmo tântrico, e num grande concílio reunido na Caxemira foram definidos os cânones desse novo budismo, um shivaísmo disfarçado chamado Mahayana, o Grande Veículo.
  • Essa síntese entre budismo e shivaísmo foi obra principalmente de Ashvaghosha, um hindu convertido ao budismo, e o Mahayana difundiu-se sobretudo no Tibete, onde se encontram numerosas práticas dos Kapalika shivaítas, que também usavam um crânio humano como recipiente para o alimento.
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