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SOFRIMENTO E TEMPORALIDADE
MHMS
- O próprio de nossa experiência é que o agradável se apresenta sempre acoplado ao desagradável através de diversas relações de proximidade, alternância e contraste — e é justamente disso que se admira Sócrates na passagem do Fédon: “Que aspecto perturbador tem isso… o que os homens chamam de agradável! E como sua natureza é estranha, em relação ao que se julga ser seu contrário, o penoso! Não aceitam nem um nem outro de se aproximar ao mesmo tempo num homem, e contudo basta perseguir um dos dois e apanhá-lo para que, forçosamente, se apanhe quase sempre também o outro, como se estivessem ambos presos a um único cume” — tradução de L. Robin.
- O agradável em si mesmo não requer explicação ou antes desencoraja de antemão qualquer veleidade de explicação, na medida em que se apresenta regularmente como o alvo para o qual convergem os esforços do homem, inclusive os de caráter aparentemente puramente intelectual.
- O desagradável, o penoso, é inteiramente opaco, e sua sombra se projeta sobre o agradável com o qual está ligado — é ele, antes de tudo, que convém escrutar em suas condições de emergência, em sua forma mais despida e mais autêntica: a do sofrimento dito “físico”.
- A psicologia empírica, a neurofisiologia — e por vezes a própria filosofia — inclinam-se a ver na dor uma sensação como outra qualquer, ainda que de espécie um tanto particular — denunciar esse amálgama permite dar um primeiro passo em direção a uma compreensão mais autêntica do fenômeno.
- O doloroso não é em nada assimilável ao gênero de qualidades sensíveis que são o vermelho, o rugoso, o agudo, o doce etc.; antes de tudo, é monótono em sua textura, variando apenas em intensidade e em ritmo de crescimento ou decrescimento — dor viva ou surda, intermitente, fulgurante, contínua etc.
- O doloroso jamais aparece imediatamente em estado puro, mas começa sempre por se enxertar em qualidades sensíveis cuja variedade se reflete nele, inscrevendo nele uma diversidade factícia e superficial — pressões, picadas, distensões, tensões, fricções, calor, frio etc.; essa diversidade é sobretudo observável nas proximidades do limiar de percepção, onde a dor ainda é fraca, e se esfuma à medida que cresce em intensidade.
- O elemento propriamente doloroso não se reduz tampouco a uma simples “exageração” das sensações, pois nesse caso não se poderia dar conta do fenômeno de convergência e unificação dos registros sensoriais que acompanha a intensificação da dor.
- A dor se diferencia ainda da sensação representativa por se apresentar sob o aspecto de uma recusa — recusa ineficaz mas persistente apesar de sua ineficácia: o conteúdo apreendido não é acolhido e fielmente registrado em sua forma própria, mas deve se introduzir à força superando uma resistência.
- Sentir dor é antes de tudo se enrijecer interiormente contra uma certa sensação, dizer-lhe “não”, vomitá-la em pensamento, de tal modo porém que essa recusa visceral não tenha o poder de afastar de nossos lábios seu amargo cálice.
- Muitos reflexos defensivos têm igualmente a significação de uma recusa — como o de piscar os olhos diante de uma luz excessivamente viva ou de um gesto ameaçador —, mas precisamente sua eficácia os dispensa de revestir qualquer caráter doloroso.
- A língua francesa traduz bem isso ao dar ao verbo “souffrir” o duplo valor de “sofrer passivamente” e de “suportar” ou “aguentar”: se houvesse apenas o sofrer, como puro ser-esmagado-por, não haveria sofrimento; a lata de conserva laminada sob as rodas de um caminhão não sofre, pois se deixa esmagar sem reagir; inversamente, a forma ideal do suportar seria um domínio total da carga, uma certa maneira de não mais senti-la como pesada.
- A distinção entre um elemento sensorial ou representativo — localização, intensidade, ritmo, duração — e um elemento de aversão na dor tem um incontestável fundamento neurológico, bem evidenciado nos casos de “assimbolia à dor”.
- Diversos pacientes — notadamente os que sofrem de certas lesões do lóbulo parietal ou que foram submetidos a certas operações de neurocirurgia como lobotomia frontal e cingulotomia — não conseguem mais reunir esses dois elementos no interior de uma mesma sensação: percebem e podem localizar um estímulo doloroso, do gênero picada de alfinete, mas não reagem mais a ele por qualquer reflexo de retração ou de evitamento — não o sentem mais, ao menos dentro de certos limites, como penoso.
- Do ponto de vista neurológico, essa componente propriamente aversiva ou repulsiva da dor é elaborada no interior de regiões medianas bem precisas do tronco cerebral e do cérebro, ao passo que a componente sensorial percorre os cordões laterais da medula espinhal.
- Por que dizer sempre “não” à dor? Em regra geral, uma recusa é motivada, apoia-se em razões implícitas ou explícitas — a pergunta pode parecer incongruente e a resposta se impor: “Precisamente porque dói, porque faz sofrer!” — o que nos encerra num círculo vicioso, pois, após ter definido o doloroso como o que dá lugar a uma recusa, pretende-se motivar sua rejeição pelo caráter intrinsecamente doloroso do que ela rejeita.
- A recusa do doloroso e sua percepção como odioso não se precedem uma à outra, mas se apresentam antes como a face ativa e a face representativa de um único e mesmo comportamento.
- Esse comportamento é universal na humanidade, independente da idade, do sexo, do meio social e da época; parece comum ao homem e aos chamados “animais superiores”; não fazendo apelo a nenhum procedimento de tipo intelectual ou técnico, é independente dos conhecimentos adquiridos, das crenças e do nível de cultura; natural, espontâneo, inato ao menos a título de disposição, não precisa ser objeto de aprendizagem sistemática.
- Pode ser definido como um clivagem originário da experiência e de tudo que nela figura — coisas, seres, eventos — em positivo/negativo, no sentido de bom/mau ou de favorável/desfavorável, sendo o valor “neutro” a designar ou o limite de observabilidade de um interesse decrescente, ou alguma forma de equilíbrio instável entre os aspectos positivos e negativos de um objeto de experiência complexo.
- Em última instância, essa triagem automática do “bom” e do “mau” repousa sobre a existência em nós de desejos e necessidades — o que tende a satisfazê-los é percebido como favorável; o que os contraria, como desfavorável —, mas essa presença de desejos e necessidades não é evidente por si mesma e suas condições de possibilidade devem ser investigadas.
- Entre os desejos humanos, muitos aparecem contingentes, supérfluos, sobrecarregados de imaginário, inspirados antes de tudo pela “civilização”; empurram sobre o terreno de uma afetividade bipolar constituída como tal bem aquém de sua emergência.
- Resta a esfera das necessidades propriamente ditas ou dos “desejos naturais e necessários” no sentido de Epicuro: necessidade de respirar, de beber e comer, de eliminar, de dormir, de se preservar dos graus extremos do calor e do frio; é “bom” antes de tudo o que permite sobreviver e, secundariamente, se desenvolver e se afirmar; é “mau” o que vai no sentido da destruição ou do aniquilamento do ser.
- Esse imperativo categórico do querer-viver não é de modo algum o próprio do homem — é consubstancial a toda forma de vida, e o homem, enquanto ocupa um certo lugar na escala dos viventes, não fez senão herdá-lo e colocar a seu serviço todos os recursos de seu espírito; “a vida” não existe sob a forma de uma entidade impessoal — só tem realidade nos viventes individuais.
- Os viventes individuais, mesmo nos níveis de organização mais elementares, se apresentam como estruturas autorreguladoras, autorreparadoras e autorreproducentes que conseguiram, em certa medida e a título temporário, se constituir se isolando do contínuo físico, de tal modo que os fluxos de energia que se trocam a cada instante no espaço exterior não os atravessem mais impunemente de maneira anárquica e destrutiva.
- Essa cristalização, no meio do maelström das forças cósmicas, de centros monádicos, se traduz concretamente pela apropriação de um certo espaço fechado no interior do qual o modo de organização da matéria, embora por um tempo compatível com a ordem física exterior, é outro e de grau superior — esse espaço privilegiado não é outra coisa senão o corpo próprio.
- O vivente, enquanto merece esse nome, permanece uno e indivisível na medida em que afirma e defende sua identidade pessoal contra a entropia envolvente: é o esforço que desdobra para “perseverar em seu ser” que explica a unidade funcional de seu organismo, e não o inverso; a forma primária da consciência de si só pode ser um amor de si irrefletido, incondicional e sem limites.
- O vivente é dotado, em graus diversos, de sensibilidade e de órgãos dos sentidos: os sentidos estão lá para informá-lo do que se passa no mundo ao redor — presas que se oferecem e perigos que se aproximam —, mas a função de informação ela mesma remete a uma necessidade de ser informado, a qual consiste em querer fazer as influências físicas exteriores desempenharem o papel de sinais cuja modulação seja portadora de mensagens de importância vital para o organismo.
- O prazer tranquiliza intuitivamente o vivente ao confirmar-lhe que está presentemente trabalhando para sua própria conservação — ou para a de sua espécie, no caso do prazer sexual; a dor o adverte dos perigos que pairam sobre sua vida fazendo-o literalmente alucinar sua própria morte através de uma certa ruptura sentida da unidade monádica interior.
- Essa capacidade cognitiva de discernimento preventivo, que age à distância e da qual o sentido da vista constitui o melhor exemplo, não exclui mas antes convoca como seu complemento natural uma sensibilidade de contato, diretamente afetiva, representada pelo tato e, em menor grau, pelo gosto e pelo olfato — uma espécie de dispositivo de urgência capaz de improvisar a quente, com os riscos de erro que tal precipitação comporta, uma interpretação do caráter favorável ou nocivo das influências físicas exteriores, no próprio instante em que irrompem no interior das fronteiras do espaço corporal.
- Enquanto ser sensível e, em graus diversos, sensato, o vivente não cessa de projetar sentido sobre um ambiente que, em si mesmo, não o comporta — sua conduta é estruturada pela assimetria constitutiva do agradável e do desagradável ou do favorável e do desfavorável; por toda parte há sentido onde há orientação e, portanto, assimetria.
- A natureza não conhece direções privilegiadas — estas só aparecem nela como reflexos de certas intenções humanas ou dos viventes em geral; a operação de projeção de sentido é, da nossa parte, tão constante e tão “natural” que acaba por passar despercebida.
- A evidência de que um rio corre num sentido bem definido — da nascente à foz, ditado pela gravidade — repousa por sua vez sobre uma intuição pura ou a priori do tempo como “fluindo” ele mesmo do “mais cedo” para o “mais tarde”, do anterior para o posterior; pode-se então perguntar sobre o que se funda, em última instância, essa assimetria característica da temporalidade, essa “flecha” do tempo.
- O que se busca apreender é a temporalidade originária, o tempo em estado nascente, antes dos relógios e calendários — o que serve de fundamento, em última análise, à suposta evidência da disposição de nossa experiência segundo o antes e o depois.
- Imaginando seres em tudo semelhantes a nós, com a única diferença de que seu comportamento não seria regido pela lei do agradável e do desagradável — seres que deveriam viver num estado de perpétuo não-desejo ou de indiferença —, a questão que se coloca é a de se tais seres ainda viveriam no tempo.
- Em certas circunstâncias — momentos em que não se sente nenhum incômodo corporal, não se corre nenhum perigo, nenhuma tarefa solícita, os principais problemas existenciais encontraram solução ao menos provisória e nenhum projeto novo inflama a imaginação —, o homem se aproxima um pouco dessa hipotética consciência não desejante.
- Poder-se-ia responder de início que o ser alheio ao desejo permaneceria, ele também, solidamente ancorado no tempo: deitado em repouso beatífico, perceber-se-ia o rumor confuso do exterior, as sombras girando lentamente nas paredes em relação ao movimento do sol, o ritmo regular da própria respiração — e a experiência interior continuaria naturalmente a se ordenar segundo o antes e o depois.
- Essa experiência de pensamento pode não ter sido conduzida longe o suficiente: a consciência do tempo supostamente comunicada pela observação do que muda ao redor ou em si mesmo supõe um mínimo de atenção a esses processos — se não fossem notados, seriam como inexistentes e não teriam nenhuma chance de contribuir para recolocar ou manter no tempo.
- A atenção é por essência seletiva; orienta-se para o que interessa; nenhum ato de atenção poderia ser gratuito — presta-se atenção ao que interessa e na medida em que interessa, negativamente ao que inquieta ou ao que se teme; o interesse em questão pode naturalmente revestir grande diversidade de formas e variar consideravelmente em intensidade, mas em nenhum caso pode estar ausente.
- Voltando a esses seres supostos inteligentes mas desprovidos do sentido do agradável e do desagradável, é preciso lhes negar toda capacidade de atenção — não se percebe neles nenhum motivo para se interessar por qualquer objeto que seja, interior ou exterior; toda forma de interesse, mesmo a chamada curiosidade intelectual pura, remete à dicotomia constitutiva da afetividade.
- Dizer que tais seres não teriam nenhuma razão de focalizar sua atenção sobre isto antes que aquilo não equivale a concebê-los como mergulhados num perpétuo estado de distração: a distração é apenas o correlato da atenção; onde, por hipótese, a atenção faltasse, a distração estaria ausente também; tratar-se-ia portanto de um autêntico modo de presença ao mundo, mas radicalmente diferente dos modos que nos são familiares.
- Um ser assim constituído não reagiria de nenhuma maneira, por falta de motivo, aos quadros desfilando diante de seus olhos — não buscaria nem modificá-los nem fazê-los desaparecer; contemplaria cada um deles por si mesmo, em sua presença de um instante, sem buscar confrontá-los a outros sob qualquer relação que fosse; o mundo lhe apareceria a cada instante como uma Grande Singularidade, desafiando toda comparação e feita de uma infinidade de pequenas singularidades, elas mesmas refratárias a esse jogo da identidade e da diferença sobre o qual repousam todo conhecimento classificatório e toda forma de ação pretendendo à eficácia.
- Esse ser não buscaria reter esses objetos nem se representá-los de antemão, pois cada um desses comportamentos suporia nele uma forma de apego, positivo ou negativo; seria presente às coisas, presente absolutamente, mas não no modo da absorção ou da fascinação, que não representam senão uma forma limite da atenção; não olhando nem para a frente nem para trás, como poderia ainda estar no tempo?
- Nem mesmo poderia, a maneira neutra de um aparelho de registro e sem reação afetiva, tomar nota das mudanças que se produzem no mundo — o simples gesto de notar não pode se efetuar na ausência de todo motivo; se A e B são dois objetos diferentes aparecendo em sucessão, uma consciência perfeitamente desinteressada não os apreenderá nem como idênticos nem como diferentes — portanto, também não os perceberá como sucessivos.
- Em resumo, a sucessividade dos objetos da experiência jamais se apresenta à consciência sob a forma de um simples dado exterior que ela se limitaria a registrar — a sucessividade é apenas a projeção ao exterior de uma insatisfação essencial que habita essa consciência.
- O termo “insatisfação” não é, ele mesmo, inteiramente satisfatório em sua significação ordinária, psicológica: os desejos do vivente não se projetam, como para reencontrar seu lugar natural, em direção a um futuro existindo em si — é ao contrário a dimensão fantasmática do futuro que assombra eternamente o presente enquanto reflexo ou expressão dessa insatisfação primária, não psicológica ou transcendental, da consciência que constitui a dicotomia definitivamente irracional do bom e do mau.
- A assimetria constitutiva do tempo vem daí: assim como tender para o favorável e evitar o desagradável são as duas faces de uma única e mesma atitude, do mesmo modo imaginar gratuitamente um “melhor” em lugar do presente — ou seja, do real — é ipso facto desprezar esse presente enquanto tal, recusá-lo, empurrá-lo para trás, constituí-lo em passado, em ultrapassado.
- O futuro e o passado não são molduras prontas, preparadas para acolher os eventos do mundo e para as quais a consciência ela mesma dirigiria suas protenções e retenções; é ao contrário a assimetria irredutível, aquém de todo “porque”, da preferência afetiva que nos faz viver no tempo; estamos aqui diante da mais inicial das rupturas de simetria — o > é a ponta da flecha do tempo.
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