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XIVAÍSMO DE CAXEMIRA – DELEITE

PEPIC

GOZO, DOR, DESLUMBRAMENTO

O gozo (bhoqa) é definido como a manifestação plena da própria essência, um re-apossamento infinito da natureza do Self, sendo a base para uma transfiguração espiritual que não exige desapego, mas sim uma degustação mais intensa.

  • “O que se chama volúpia (ānanda) não é outra coisa senão a manifestação plena de nossa própria essência, (manifestação) que possui a forma de um re-apossamento infinito de nossa natureza, de nosso Self.”
  • Para o faminto, a consciência de si está obscurecida e ele deseja coisas separadas; ao comer, desaparece a ausência de satisfação, mas novos desejos surgem.
  • “O fato de Caitra ser apaixonado por uma mulher não significa que se desinteresse das outras.”
  • “Na posse teme-se a separação futura” e “Um objeto (possuído) faz desejar um outro, como poderia proporcionar um (real) prazer?”
  • “Tudo o que se encontra, em matéria de volúpia, nos três mundos não é senão uma gota deste oceano de felicidade, o deus (Śiva) ao qual presto homenagem.”
  • O gourmet, ao contrário do glutão, descansa no sujeito cognoscente e saboreia, interessando-se antes de tudo pela parte sujeito, sendo chamado de “gozante”.
  • As “tonalidades” (rasa) do drama e da poesia, como a Erótica, proporcionam um prazer livre de obstáculos, que é o repouso no estado de sujeito cognoscente.
  • O re-apossamento da própria liberdade, inseparável da essência da consciência, é chamado de felicidade suprema, serenidade, deslumbramento (camatkāra).

O desprazer ou dor ocorre quando há fixação da consciência em objetos, impedindo sua reimersão na própria natureza, devido a seu engalfinhamento pré-empírico no corpo.

  • A consciência pura nunca tem “fome”, mas, por ter ligado seu destino às alternâncias do corpo, parece condenada a esperar a alimentação para gozar novamente o repouso.
  • O sujeito finito experimenta a tensão dolorosa como um enrijecimento, um esforço para reduzir a tensão que é ele mesmo doloroso.
  • Toda espécie de consumo do objeto, mesmo física, representa um instante de alívio, sendo a atitude do sujeito diante do objeto que determina a natureza precária da satisfação.
  • O glutão e o gourmet buscam o mesmo – refazer a unidade do ser – mas o primeiro desespera de atingi-lo e não saboreia, enquanto o segundo intui que o alimento é um catalisador da reconciliação consigo mesmo.

Abhinavagupta estabelece uma classificação hierárquica dos prazeres, onde o prazer é mais puro e durável quanto menor for o sentimento de dependência em relação ao objeto.

  • Da saciedade “grosseira” (cega à sua própria finalidade) passa-se ao gozo sensível “refinado” (gourmet) e ao gozo estético (rasa), até a pura felicidade mística.
  • Na felicidade mística, a consciência, completamente descontraída (asanukcita), não usa mais o objeto senão por jogo e como um pretexto.
  • O objetivo da “via da śakti” é fundir-se no gozo em estado puro, abandonando todos os condicionamentos que pervertem os prazeres sensíveis.

A “energia vital” (ojas) é o que confere vitalidade a todos os membros pelo canal do meio (madhyanāḍī), sendo a raiz comum da percepção informativa e da atividade voltada à satisfação das necessidades do corpo.

  • “Tudo o que entra pelos sentidos externos ou internos se mantém (já) sob forma de consciência e de sopro no canal do meio que confere a vitalidade a todos os membros, e isso se chama ‘energia vital’ (ojas).”
  • Um objeto, cor, etc., provoca um tumulto da energia viril (vīrya) naquele que é abundantemente provido dessa energia, o que pode ser desencadeado também por lembrança ou imaginação.
  • “A partir de uma conversa, de um toque nos membros…”
  • A liberdade e capacidade de felicidade, que tem por essência o Bhairava em sua plenitude, dá lugar a um afluxo de felicidade no momento do tumulto da energia.
  • Uma forma colorida que penetra pelos olhos ou um canto melodioso que penetra pelos ouvidos só são dadivosos de felicidade em relação à grande emissão do tumulto dessa energia.
  • O que entra pelos outros sentidos “borbulha apenas em si mesmo” e não atinge o nível da grande emissão.
  • Aqueles que não são nutridos por essa energia são como pedras, não obtendo a plenitude do prazer e tendo uma capacidade de deslumbramento limitada.
  • A inércia é a total ausência de deslumbramento, enquanto a “sensibilidade” (sahrdayalā) consiste numa imersão num deslumbramento intenso onde a energia viril está em tumulto.

O prazer sexual é privilegiado na via da śakti, pois sua intensidade e obscuridade o tornam um suporte para as práticas yoguicas, sendo o sexo definido como “o que proporciona o repouso (no Self?) graças ao apaziguamento da agitação (mental)”.

  • As zonas do corpo que são sede de gozo (coração, sexo, palato) podem, quando tocadas, lembradas ou desejadas, refletir o prazer da emissão seminal.
  • “A volúpia de um toque interior cuja essência é o desencadeamento do tumulto da energia toda inteira” pode ser experimentada no momento do orgasmo.
  • “A volúpia da realidade do brahman (que se experimenta) no momento em que cessa a absorção na energia fortemente agitada pela união com uma parceira (śakti), é ela (precisamente) que se chama volúpia íntima.”
  • “O afluxo de felicidade se produz mesmo na ausência de uma energia (uma mulher), se alguém se rememora intensamente a volúpia nascida da mulher graças a beijos, carícias, abraços.”
  • A união sexual dissolve as dualidades (sujeito/objeto, ver/ser visto, tocar/ser tocado), criando uma espacialidade de imanência pura onde os limites do corpo próprio se esfumam.
  • O orgasmo, como “volúpia de um toque interior”, é o que na experiência sensível mais se aproxima da realidade do spanda, do livre ímpeto do eterno presente.
  • O ritmo acelerado do ato sexual tende a um instante crítico onde tensão e distensão coincidiriam, numa imagem ideal da união dos sexos como remontada ao Ato puro, à fonte imóvel do tempo.

A dor, mesmo em sua passividade aparente, envolve uma revolta da consciência que pode ser o ponto de partida de uma prática mística de desindividualização.

  • “E este deslumbramento está presente na própria dor. Uma certa alegria interior, feita de energia, que nos dava (outrora) uma esposa ou um filho, vem reflorescer no abalo suscitado por uma imaginação, a visão de (pessoas) semelhantes a eles, um gemido ouvido, etc.”
  • “Eles não retornarão mais”, e essa é a realidade da dor, a de um certo deslumbramento onde alguém está sob o império do desespero.
  • “Na própria dor, porque há desabrochar (da consciência)…”
  • A dor é deslumbramento porque reside num ímpeto louco da consciência que desdenha e desafia o “veredito da realidade”.
  • A atitude tântrica diante da dor não é combatê-la ou fugir dela, mas abraçá-la em seu primeiro surgimento e comungar com seu ímpeto selvagem.
  • “Depois de ter perfurado uma parte qualquer de (seu) corpo com um instrumento pontiagudo ou outro, se então se mantém o espírito aplicado a esse lugar preciso, a progressão esplendorosa para Bhairava (se produzirá).”
  • A dor é, antes de tudo, sua própria antecipação; sofre-se porque se espera sofrer, e a atenção extrema concentrada na dor a faz desaparecer como tal.
  • O que subsiste da dor, quando dissolvida pela atenção, é um elemento positivo, uma ereção da consciência, um puro estremecimento que é alegria em seu fundo.
  • A dor física comum é uma esclerose da consciência que, tendo-se retraído no corpo, se retesa contra tudo o que ameaça sua autarquia, sendo essa contração mental permanente (samkoca) a própria dor.

Plenitude do Eu (pūrṇāhamlā)

A expressão “plenitude do Eu” (pūrṇāhamlā) designa o ego empírico liberto dos kañcuka, identificado a Śiva e dotado da totalidade de seus poderes.

  • A plenitude indica que o sujeito reencontrou a integralidade de seus poderes e sua consciência “contém” a essência e a existência de toda coisa no universo.
  • O nome mesmo de Eu (Aham) é visto como o grande mantra, condensando toda a linguagem e contendo em potência toda a realidade.
  • A letra “a” representa Śiva além da manifestação, “ha” representa sua manifestação como universo graças à sua śakti, e a ressonância nasal (anusvāra) representa sua indivisibilidade e transcendência.

O adepto deve exercitar-se a vivenciar essa plenitude através de práticas yoguicas como as mudrā (atitudes simbólicas).

  • A Kramamudrā (“atitude em (duas) fases”) consiste em selar-se no torneamento sucessivo da roda da Consciência em seus aspectos de emanação, conservação e absorção cósmicas.
  • “O yogin se sela no torneamento sucessivo da roda da Consciência em seus aspectos de emanação, conservação e absorção cósmicas, e por meio da Kramamudrā ele se apropria do que jaz em si mesmo.”
  • Nessa prática, a consciência alternadamente “devora” a diversidade cósmica, liquefazendo-a em seu próprio sumo, e a “vomita” para o exterior, onde ela se solidifica novamente.
  • A Bhairavīmudrā é uma dupla Kramamudrā cruzada e simultânea, equilibrando os movimentos de retração e projeção do mundo, fixando o sujeito no Centro absoluto.
  • “Projetando pela vontade as diversas potências, visão, etc., em todas as direções para seus respectivos objetos, e te erguendo ao centro como um pilar de ouro, te manifestas como o único suporte do universo.”
  • “Visa-se o interior olhando para o exterior, sem (realmente) abrir nem fechar os olhos. Tal é a Bhairavīmudrā, mantida secreta em todos os Tantra.”
  • “O estado de liberto-vivo — diz Abhinavagupta — consiste num sepultamento na não-dualidade de nossa própria natureza bhairavika, idêntica à subjetividade infinita deslumbrada de si mesma. Então, o conjunto das realidades do universo, considerado (até então) como escravizante, se desvela a nós como o jogo multiforme de nossa alegria superabundante.”
  • Kṣemarāja descreve a experiência liberadora: “Ele percebe assim sua própria natureza no curso da existência cotidiana… o fio de todas as suas atividades se rompe e o Rei dos yogins deslumbrado contempla a massa dos seres que surge do éter de sua consciência ou nele se absorve, como uma multidão de reflexos aparecendo e desaparecendo num espelho.”
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