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XIVAÍSMO DE CAXEMIRA – EXPERIÊNCIA

PEPIC

EXPERIÊNCIA AFETIVA E EXPERIÊNCIA MÍSTICA

A servidão no Trika é entendida menos como ignorância metafísica e mais como um engessamento do sujeito em esquemas rígidos de pensamento e comportamento.

  • A liberdade original se deixa vencer pela inércia e consente em se moldar, resultando numa aparente objetividade do universo, comparável a uma lava resfriada.
  • O termo “coagulação” (asyafiatā) expressa essa aparente decadência do spanda nos automatismos vitais e mentais.
  • O fogo da liberdade continua sob as cinzas, tornando sempre possível uma nova erupção que rompa a carapaça solidificada dos kañcuka.
  • Todos os processos de meditação e yoga nesta escola visam provocar e controlar uma tal erupção.

A via mais original da doutrina Trika para a libertação utiliza a própria veemência dos afetos como veículo.

  • Nas camadas menos socializadas do comportamento e nas reações afetivas espontâneas, subsistem vestígios da liberdade originária.
  • O desejo bruto, anterior a qualquer consideração racional, ignora o tempo, o espaço e as normas, querendo “tudo e tudo de uma vez”.
  • A pulsão profunda não conhece os dilemas do possível e do impossível, sendo uma fuga extática e um lampejo de satisfação muda.
  • A rigidez da vida psíquica comum reprime essa espontaneidade, que só emerge em raros interstícios, exigindo a atenção de um guru compassivo.
  • O objetivo do yoga da afetividade é reter o ímpeto espontâneo do spanda na emoção para impedir que ele se molde a padrões estereotipados.

Surpresa e desnorteamento: a reconquista do instante

O Supremo Bhairava geralmente permanece invisível porque constitui o fundo universal sobre o qual nenhuma experiência particular pode se destacar.

  • Se a continuidade da experiência for interrompida, Siva pode surgir nos vazios intersticiais, como o azul do céu entre nuvens que se separam.
  • A análise da percepção revela um instante inteligível de repouso da consciência em sua própria essência entre a manifestação de um objeto A e de um objeto B.
  • A existência dessa falha, por mais estreita que seja, funda a possibilidade de um yoga destinado a ampliá-la.
  • O Vijñānabhairava propõe exercícios de meditação para tomar consciência do intervalo entre a percepção de duas coisas e ali se instalar.
  • “No momento em que se percebem duas coisas, tomando consciência do intervalo (entre elas), que se instale firmemente. Se as duas são banidas simultaneamente, nesse intervalo a Realidade resplandece.”
  • “Que o espírito que acaba de deixar uma coisa seja bloqueado e não se oriente para outra coisa. Então, graças à coisa que se encontra entre elas, a Realização desabrocha em toda sua intensidade.”
  • O desdobramento da experiência é como um filme, mas a hesitação da consciência revela sua liberdade, diferindo das discussões europeias sobre o livre-arbítrio.
  • A liberdade aqui é o poder discriminatório da consciência que tece, numa única operação, a ordem do mundo e seus dilemas.
  • No segundo exercício, busca-se surpreender o próprio mecanismo da ilusão cinematográfica de continuidade.
  • O ímpeto perpétuo que projeta o sujeito para um mundo possível é chamado de unmēsa (“abertura” ou “eclosão”) pelas Spandakārikā.
  • “O unmēsa é aquilo de onde procede um novo pensamento num homem (já) ocupado na busca de um primeiro. Que se tome consciência disso por si mesmo!”

Os exercícios “a frio” têm a vantagem da repetibilidade, mas a desvantagem da desproporção entre a inércia mental e a mobilização da atenção num indivíduo em repouso.

  • Os exercícios “a quente”, em situações de urgência, tornam o indivíduo mais desperto e presente do que na semi-torpor do cotidiano banal.
  • “Este (ímpeto) se percebe na região do coração no instante em que se lembra de uma coisa a fazer, ao saber de uma notícia feliz, no momento em que se sente medo, quando se assiste a um espetáculo inesperado, no fluxo da emissão (do sêmen), quando se declama muito rápido, quando se foge a toda velocidade.”
  • “No começo e no fim do espirro, no terror ou na ansiedade ou (quando se está sobre) um precipício, quando se foge do campo de batalha, no momento de uma viva curiosidade, no estágio inicial ou final da fome, etc., a condição feita de existência brâmanica (se revela).”
  • “A presença do spanda é bem atestada naquele que está no auge da exasperação, ou da alegria; naquele que se pergunta ‘que fazer?’ ou que corre em todos os sentidos.”
  • “Se se consegue imobilizar o intelecto quando se está sob o efeito do desejo, da cólera, da avidez, do desnorteamento do orgulho, da inveja, a Realidade desses (estados) subsiste (sozinha).”

A surpresa, alegre ou não, é independente de seu conteúdo e provoca uma suspensão mágica do tempo, um “repouso na própria essência” (svalmaviśrānti) ou “deslumbramento” (camalkāra).

  • No instante da surpresa, a personalidade social estruturada é destituída, e o sujeito é transplantado para um nível de experiência alheio à sua existência ordinária.
  • O amigo que reaparece após longa ausência é reconhecido e não reconhecido, habitando um espaço não orientado, numa relação de estupor radioso.
  • A surpresa desagradável também corta os fios intencionais que ligam o sujeito ao seu universo familiar, ultrapassando os opostos agradável/desagradável.
  • A lembrança súbita de uma tarefa urgente interrompe o afazer banal e cria uma fase de ruptura, uma lacuna que pode ser aproveitada.
  • A concentração mental de quem aguarda as ordens do mestre para executá-las, qualquer que seja, também suprime as flutuações mentais e faz a consciência penetrar no quarto estado.

A categoria do desnorteamento ou pânico refere-se a crises emocionais de desadaptação, não a sentimentos permanentes.

  • “O homem que se pergunta ‘que fazer?’ é o fugitivo completamente subjugado pela força superior de seus agressores, que vê desabrochar nele uma consciência de irresolução.”
  • “Aquele que ‘corre em todos os sentidos’ é um homem perseguido por um elefante furioso que, sem mais considerar seu corpo, é movido pela potência desencadeada de seu ímpeto (udyoga).”
  • Na fuga desesperada, o fugitivo abandona seus fardos e, no limite, deixa de saber quem foge e por quê, aproximando-se da pura espontaneidade do absoluto.
  • O caso-limite é o homem cercado, cuja energia excitada ao máximo não encontra exutório; basta-lhe “desesperar” para aceder a um modo de ser inalcançável pelos perseguidores.
  • O início do espirro, como um pequeno começo de pânico, suspende o reflexo respiratório e faz o personagem social vacilar por um instante.

Afetos negativos como cólera, avidez e inveja, quando levados ao paroxismo, podem ser transmutados em pura consciência do Self.

  • “Assim como pedaços de madeira, folhas, blocos de pedra, etc., se metamorfoseiam em sal ao cair numa mina de sal, assim as emoções (se metamorfoseiam em felicidade) uma vez imersas na pura consciência do Self.”
  • A cólera-rapius, diferente da cólera-controle que ainda é uma linguagem dirigida ao outro, é um abandono à embriaguez de um desencadeamento gratuito, onde o motivo inicial é logo perdido de vista.
  • Na fúria, o sujeito se isola completamente em seu universo interior e a violência pode até se voltar contra o próprio autor.
  • O yogin deve realizar que a força elementar da qual é joguete é estranha à tonalidade odiosa e destrutiva, e despir o resto da dualidade.
  • A “ponta de inveja” ou o “ímpeto de avidez” são momentos em que a estabilidade inerte das fixações do ego é abalada.
  • “Mesmo depois de ter pensado ‘para que o orgulho!’, se, com orgulho, (me) digo: ‘Sou idêntico a Ti’, não estou fora de mim sob o efeito da alegria?”
  • “Mesmo um apego apaixonado, que seja meu se se fixa em Ti somente, ó Senhor do mundo! Homenagem a essa cobiça que, aderindo a Ti, me permite Te alcançar!”
  • “Tu és, Senhor, o laço incomparável unindo entre si todos os orgulhos humanos. Que eu, graças à plenitude da doçura do Teu amor, possua o maior de todos eles!”
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