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ILUSÃO CÓSMICA

PEPIC

A ESCOLA DE VIVARANA E A ILUSÃO CÓSMICA

A contribuição de Prakāsātman

O comentário Vivaraña de Prakāsātman não se limita a explicar o texto-base, mas busca prolongá-lo com desenvolvimentos originais, embora essa originalidade tenha um duplo aspecto positivo e negativo.

  • Nota-se um contraste entre o refinamento técnico da problemática e o esfacelamento da grande perspectiva metafísica de Padmapāda.
  • Prakāsātman tinha acesso apenas à versão mutilada da Pañcapādikā (PP), o que o desorientou em relação a temas inéditos de Padmapāda.
  • Dois séculos separam os autores, período de debate interno na escola śaṅkariana que não legou textos importantes.
  • Temas originais de Padmapāda (sobreposição em cascata, papel do ahamkarlr, māyā como potência do brahman) não favoreciam sua integração no repertório comum.
  • Prakāsātman tratou esses temas por omissão, deixando Padmapāda sem posteridade filosófica.

Com Prakāsātman, o Advaita adquire seu rosto definitivo, substituindo a especulação inicial por um método mais escolástico e fragmentando a doutrina em questões clássicas.

  • A cada questão clássica passa a corresponder um leque limitado de opções possíveis, expressas em modelos simbólicos exclusivos.
  • Um certo sincretismo instala-se, levando ao esgotamento das polêmicas internas e à cristalização do sistema em um conglomerado inerte.

A teoria dos níveis de sobreposição, esboçada por Padmapāda, desaparece em Prakāsātman ou se divide em duas ordens de pesquisa.

  • O agente do ego (ahamkarlr ou ahampratyayin), pivô da construção de Padmapāda, é glosado por Prakāsātman como ahamkāra ou ahamkṛti, sendo rejeitado para o lado da objetividade.
  • O ego torna-se uma estrutura pronta, sem questionamento sobre sua gênese transcendental, definindo-se apenas por sua relação com a nesciência (acima) e o órgão interno (abaixo).
  • Primeira ordem de pesquisa: centra-se na teoria das modalidades da consciência empírica, especialmente o sono profundo e a percepção na vigília.
  • Segunda ordem de pesquisa: centra-se na questão do portador verdadeiro da nesciência, elaborando um modelo simbólico da relação jīva-brahman.

Prakāsātman evita nomear aquele que vive a sobreposição recíproca, e o ego é classificado na mesma categoria que os objetos.

  • A citação de Prakāsātman mostra a dualidade de aspectos do eu empírico: sujeito da dor, objeto do supremo amor, sujeito de transformações e testemunha.
  • O ahamkāra é equiparado ao corpo grosseiro e sutil, bem como ao vivente individual (duḥkhin = jīva).
  • O eu proferido (aham) é unido ao elemento conhecimento por sobreposição, como em o ferro brilha.
  • O fenômeno do ego será abordado de fora, como objeto puro, tornando-se homogêneo à nesciência, ao órgão interno e ao corpo.

Prakāsātman parece apenas completar Padmapāda, mas suas análises divergem a partir de um mesmo sistema de postulados.

  • O questionário de Prakāsātman (causa material, causa agente, natureza do ego, meios de conhecimento, ausência no sono profundo) funciona como uma grade que organiza o texto de Padmapāda.
  • Enquanto Padmapāda apresentava o ego como a primeira sobreposição, Prakāsātman não distingue mais os dois momentos lógicos (associação da nesciência e sobreposição do ego).

Prakāsātman resolve a dificuldade da sobreposição do diferenciado sobre o indiferenciado introduzindo a equivalência entre nesciência e ego, e a emergência do ego como evento atual.

  • A citação de Prakāsātman indica que a sobreposição do ego posterior é possível sobre o fenômeno da consciência pura, já diferenciado pela sobreposição da nesciência ou de um ego anterior.
  • A nesciência pode se reduzir a eventos do Eu (Je-événements) sobrepostos diretamente em uma cadeia ininterrupta à consciência pura.
  • A ilusão metafísica, como a ilusão sensível, requer a presença de traços residuais (saṃskāra) que podem ser projetados.
  • Uma experiência ilusória de um ego deixa traços residuais que condicionam o renovação da ilusão em um instante posterior.

Ao criticar o budismo idealista, Prakāsātman discute as condições da consciência de si e da recognição (pratyabhijñā) do ātman.

  • O oponente argumenta que a auto-luminosidade impede a consciência de si de ser um evento que deixa traços residuais, necessários para a recognição.
  • Prakāsātman responde que a recognição se aplica apenas ao Ser particularizado pelo órgão interno, não à essência pura imaculada do Ser.
  • No estado de transmigração, o Ser nunca está isento de particularização pelo órgão interno, sendo sua manifestação dependente das noções de eu geradas por ele.
  • O órgão interno, com os traços residuais das representações de eu passadas, determina a manifestação presente do Ser, produzindo uma recognição de um Ser particularizado como anterior e posterior.

Atribuir a Prakāsātman um quase-realismo do órgão interno seria um erro, pois sua análise dos estados empíricos da consciência permite precisar sua posição.

  • A citação de Prakāsātman afirma que o órgão interno não é o delimitador do Ser, pois ele mesmo precisa ser delimitado por sua causa (a nesciência), sendo o resultado de uma sobreposição eliminada pelo conhecimento correto.
  • Argumento do sono profundo: na ausência do órgão interno, haveria não-delimitação do Ser, o que implicaria que o sono profundo seria uma libertação definitiva, o que a experiência do despertar contradiz.
  • Prakāsātman conclui que a forma sutil do órgão interno no sono profundo é uma resolução em sua causa material, a nesciência, que conserva as potências e traços residuais para a ressurreição da personalidade ao despertar.

A nesciência é descrita como o verdadeiro delimitador do Ser, e a série dos ahamvṛtti testemunha suas fases de evolução.

  • A nesciência no sono profundo é descrita como tingida pelos traços residuais do corpo sutil e pela forma sutil dos elementos materiais do corpo grosseiro.

Prakāsātman opta pela interpretação positiva da felicidade (ānanda) no sono profundo, ao contrário de outros Advaitins, para melhor explicar a dissolução do órgão interno.

  • A citação de Prakāsātman sobre o sono profundo argumenta que a ausência de dor não pode ser percebida, mas a felicidade intrínseca do Ser é experimentada, manifestando-se na consciência-testemunha não ocultada.
  • Na vigília, a felicidade, objeto do supremo amor, não se manifesta claramente devido às falsas representações, como a chama de uma lâmpada agitada pela tempestade.
  • No sono profundo, a ausência dessas representações faz com que a felicidade se revele de maneira eminente.

A experiência do despertar ( dormi bem, não tive consciência de nada ) é analisada como rememoração da nesciência, felicidade e consciência pura.

  • Um adversário questiona como pode haver rememoração se a tríade (ignorância, felicidade, consciência-testemunha) é indestrutível e não deixa traços.
  • A resposta de Prakāsātman admite que a rememoração tem seu assento no Ser em proa à nesciência, não no órgão interno, revestindo a forma da ignorância, do bem-aventurança e da consciência-testemunha.
  • A rememoração procede dos traços residuais deixados pelos reflexos da consciência que se fixam na nesciência ao se desvanecerem, distintos por não serem distinguidos dos estados da nesciência.

A teoria dos estados da nesciência, ao salvar os fenômenos, significa o abandono de qualquer diferenciação estrutural entre nesciência, ego e órgão interno.

  • Prakāsātman substitui a escada de níveis de sobreposição de Padmapāda (saltos qualitativos) por uma espécie de plano inclinado (continuidade).
  • Tema da gradation das diferenças imaginárias (vyavahāravikalpatāratamya) derivada da gradação dos delimitadores da consciência absoluta.
  • No sono profundo, a nesciência é delimitadora, resultando em diferenças imaginárias e experiência de fraca amplitude (īṣat).
  • No sonho, o órgão interno é o delimitador, resultando em experiência mais determinada (sthālatara).
  • Na vigília, o corpo grosseiro associado ao órgão interno é o delimitador, resultando em experiência das mais determinadas (sthālatama).

Prakāsātman sistematizou a noção de uma nesciência cósmica, impessoal, independente, capaz de explicar a diversidade infinita das experiências dos jīva.

  • A análise da percepção na vigília confirma essa interpretação, analisando a percepção como um triplo desvelamento simultâneo baseado no funcionamento do órgão interno.
  • O juízo eu vejo este muro implica a manifestação do ātman-brahman, do órgão interno particularizado e do objeto determinado.
  • O ātman-brahman é por essência não-manifestado, universalmente ocultado pela nesciência.

O modo privilegiado pelo qual a auto-luminosidade da consciência absoluta filtra através do véu da nesciência é a própria operação do órgão interno.

  • O contacto (simples) é cego; é necessário o processo pelo qual a forma específica (ākāra) do objeto se inscreve no órgão interno (buddhi).
  • O brahman está em contato permanente com o órgão interno, mas isso não implica seu desvelamento permanente, pois falta o contato particular onde o órgão interno se transformaria assumindo a forma específica do brahman.
  • O brahman não possui forma específica, manifestando-se sempre a favor de um funcionamento extrovertido do órgão interno, informado pelo objeto percebido.
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