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CONTOS FILOSÓFICOS
(MHYV)
- Os sete contos filosóficos traduzidos podem ser apreciados por si mesmos, sem referência imediata a seus panos de fundo especulativos — classificados como contos fantásticos e apreciados por suas qualidades literárias —, embora o Yoga-Vasishtha raramente sacrifique aos excessos da “Grande Poesia” sânscrita ou kavya — preciosidade, acrobacias verbais, abusos de expressões de duplo sentido, comparações rebuscadas.
- O texto professa o idealismo absoluto, mas não despreza o mundo sensível: incêndio de floresta, a abjeta squalidez de uma aldeia de intocáveis, o fausto de uma corte real, a ferocidade de uma batalha, o luar sobre o oceano ou a graça do corpo feminino — todas as suas descrições são coloridas e ricas em detalhes concretos.
- Encontram-se no Yoga-Vasishtha imagens como as do lótus, da lua nova, das ondas do oceano, do monte Meru com frequência excessiva para o gosto ocidental, mas também uma frescura, uma inventividade na escolha das metáforas e uma força evocadora bastante excepcionais na literatura da Índia antiga.
- As narrativas fazem corpo com os desenvolvimentos propriamente especulativos e não se reduzem a simples ornamentação literária, funcionando em três níveis distintos: ilustração de um ponto de doutrina, iniciação e “metafísica ficção”.
- Num primeiro nível, as narrativas ilustram e tornam concreto um ponto de doutrina exposto anteriormente — é o caso da história de Indra e Ahalya, que serve para ilustrar a onipotência do espírito suficientemente concentrado sobre o qual a realidade exterior não tem qualquer poder: absortos em sua paixão recíproca, Indra e Ahalya desprezam e literalmente não sentem as diversas torturas que o rei Indradyoumna, movido pelo ciúme, pretende infligir-lhes; outro conto mostra Indra — desta vez o deus — posto em debandada numa batalha com os Titãs, refugiando-se num grão de poeira dançando num raio de sol e recriando, pela simples força de sua imaginação, um universo inteiro que governa por Eons — VIb, 13-14.
- Num segundo nível, certas narrativas são de ordem “iniciática”: utilizam a força evocadora do verbo poético para conduzir insensível mente o leitor a tomar consciência de certas realidades que as formas ditas sãs ou normais da percepção sensível — a serviço da maya — têm precisamente por função velar; é o caso da história do rei Lavana, hipnotizado por um mágico, que vive em alguns minutos toda sorte de aventuras entre intocáveis — incluindo casamento, filhos, fome e autoimolação —, “despertando” diante de cortesãos estupefatos; a estrutura iniciática é clara: começa, à maneira das viagens xamânicas para o além, pela travessia de um deserto que marca a fronteira entre dois mundos, o de cima — humano e civilizado — e o de baixo — misterioso e selvagem —, na região dos montes Vindhya, situada ao Sul, direção do País dos Mortos.
- Num terceiro nível, as narrativas constituem uma espécie de ponta avançada da reflexão filosófica: os infinitos recursos da narração permitem sugerir indiretamente uma verdade especulativa meta-racional que o discurso lógico — submetido ao princípio de contradição — é impotente para formular; dois temas maiores alimentam a veia narrativa do autor do Yoga-Vasishtha: o da criação mental — toda realidade percebida ao exterior foi antes projetada ao interior — e o da unicidade do sujeito, que conduz à hipótese de um iogue podendo habitar o mundo interior de outro sujeito, deslizar em seu pensamento, “ser” por um momento esse sujeito — como o faz Vasishtha ao explorar em pensamento o universo interior do monge Dirghadrisha, na narrativa 5.
- Quando esses dois temas são postos em relação, engendram a possibilidade de conceber o conjunto da manifestação como uma imensa rede de sonhos em comunicação uns com os outros: os seres não seriam mais sujeitos plenos, mas parcialmente figuras oníricas projetadas por uma imaginação superior à deles, e o universo inteiro seria feito de sonhos encaixados dos seres individuais, cada um sonhando os de nível ontológico inferior ao seu e sendo ele mesmo sonhado pelos de nível superior — todos não seriam mais que aspectos parciais, formas provisoriamente desdobradas ou delegações de poder consentidas pelo Sujeito verdadeiro, Sonhador supremo cuja soberana potência de imaginar recapitularia e coroaria no ápice a experiência vivida de todas as suas hipóstases; a história do monge Djivata — chamada também “História dos cem Roudras” — desenvolve mais especialmente essa grandiosa hipótese.
- A história do rei Lavana exemplifica como o Yoga-Vasishtha é refratário aos dilemas do entendimento — o relato é agenciado de tal modo que a sutura entre a alucinação passada e a experiência perceptiva presente seja a mais fácil possível, sem que o leitor possa decidir qual das duas faces da experiência foi fictícia; Vasishtha fornece sucessivamente três explicações, nenhuma satisfatória: a primeira postula que Lavana sonhou; a segunda, que o que Lavana vê falsamente em sonho se inscreve simultaneamente no espírito dos intocáveis; a terceira, que o que os intocáveis experimentam veio por um momento se inscrever no espírito do rei — nenhum desses esquemas é aceitável, a história não retoma seu equilíbrio, e o leitor é convidado a se elevar a um nível superior de interpretação no qual nem Lavana, nem os cortesãos, nem os intocáveis são absolutamente reais, mas flutuam num espaço de representação que lhes preexiste e que são impotentes para “constituir” — no sentido kantiano.
- Excetuadas as versões urdu e hindi do Yoga-Vasishtha surgidas na Índia no início do século XX, a única tradução completa é a de Vihari Lal Mitra, publicada em Calcutá de 1891 a 1899 — versão medíocre, frequentemente muito distante do texto e “enriquecida” a cada verso pelos próprios comentários do tradutor.
- Os poucos extratos publicados em 1937 por Hari Prasad Shastri sob o título “The World within the Mind” são legíveis, mas não seguem exatamente nem o texto do Yoga-Vasishtha nem o do Laghou-Yoga-Vasishtha.
- De nível inteiramente distinto é a tradução alemã do episódio de Tchoudala recentemente publicada por P. Thomi, que apresentou em paralelo, verso a verso, as versões do Yoga-Vasishtha e do Laghou-Yoga-Vasishtha, e corrigiu o texto impresso à luz de manuscritos nunca antes utilizados para esse fim.
- O Yoga-Vasishtha comporta cerca de 55 narrativas que cobrem, ao total, mais de um terço do texto, o que tornaria inviável traduzi-las todas — aproximadamente 700 páginas —, impondo uma seleção dentre as quais foram excluídas anedotas, parábolas ou alegorias disfarçadas em narrativas, pálidas imitações ou resumos de outras histórias, e algumas de grande interesse mas de amplitude excessiva — como a história da rainha Lila — III, 15-59 —, que ocuparia sozinha cerca de 200 páginas.
- Os sete contos retidos foram escolhidos pela originalidade de seu tema e por sua qualidade literária.
- No interior mesmo dessas narrativas, cortes se fizeram necessários: o curso natural da narração é frequentemente interrompido por digressões de amplitude considerável e interesse intrínseco reduzido; vários carregam traços de interpolações parasitárias ou abundam em repetições; não é raro encontrar verdadeiros loci desperati diante dos quais o comentário de Anandabodhendra Sarasvati se revela decepcionante — ora passando levianamente por cima de dificuldades patentes, ora pretendendo justificar, com argumentos rebuscados e subtilezas gramaticais, as passagens mais visivelmente corrompidas; impossibilitado de recorrer a manuscritos dispersos pelo mundo e zeloso de reduzir ao mínimo as interpretações conjeturais, o tradutor resolveu deixar de lado, sinalizando-os com reticências, alguns desses trechos.
- A presente tradução é destinada a um público mais amplo que o dos sanscritistas e indianistas, utilizando um sistema de transcrição tão simples e próximo quanto possível da pronúncia real; a terminologia filosófica do Yoga-Vasishtha é extremamente flutuante — não foi possível, portanto, ater-se a um sistema rígido de equivalências sânscrito-francês, embora certos termos-chave — tchitta, manas, ahamkara, samkalpa, vasana — sejam mencionados entre parênteses a cada ocorrência, com traduções diferentes propostas em função dos contextos.
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